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Mostrando postagens de Abril, 2008

GERONTO-CASA GERONTO-MÓVEL

Aposentei-me em julho de 1980. Queria ter mais tempo livre para cuidar da família, estar mais em casa, ser mais livre para sairmos os dois a qualquer dia e qualquer hora. Sem o rigor de horários eu comecei a ser mais solicitada em casa. Meu sossego durou pouco. Logo começaram a surgir problemas em São Carlos, no relacionamento familiares e muitas vezes éramos acordados de madrugada para queixas de uns e outros que só ouvíamos pelo telefone, a 230km de distância. E resolvemos trazer os pais de são Carlos para nossa casa, para morar conosco. Devia ser pelo mês de setembro. E aí foi um rebú. Tivemos que reorganizar toda a casa, Minha mãe já não andava boa, tinha seus problemas de saúde, mas meu pai ainda a atendia nos deslocamentos de médicos. O meu sogro dormia até 11 horas da manhã, queria café na cama, e quando levantava ficava fechado no quarto com a janela fechada e a luz acesa. Eu precisava invadir o quarto para abrir janelas e arejar. Ensaiava fugir de casa, brigava com a

MEMORIAS DE UM AUTOMÓVEL - variação 2

Sou um automóvel velho, enferrujado, amassado, desbotado. Ladeado por outros nas mesmas condições, aguardo meu final definitivo em um ferro velho qualquer, de uma cidade qualquer. Nasci em 1973 das entranhas da “mãe” de muitos outros iguais a mim, a General Motors. Recebi o nome pomposo de Chevrolet Opala. Nas vitrines de uma distribuidora, ostentava orgulhoso a minha cor de abóbora. -Brrrrrrr. Cor de Abóbora? - Abóbora sim. A cor da moda. Visível de longe, visível na estrada mesmo em cerração, tinha uma dignidade visual. Potencia? 140 hp, 4,1 litros. Um motor e tanto. Beberrão de gasolina sim, mas o compensava pela força, pelo torque, pela segurança. Tenho minhas memórias, um tanto confusas porque já estou na reta final. Misturo tudo, não sei dividir o tempo em unidades cronológicas, mas lembro de fatos muito interessantes. Ainda na loja, me perguntava: Aonde será que eu vou parar? Que família vou servir? Meu estofamento novinho, ainda cheiroso temia que crianças pequenas deixass

EU

Não corri pelos campos, não me criei numa fazenda, não tive meu rio para brincar, banhar. Também não morei em cidade do interior, onde tudo tem seu jeito, tudo é mais humano, todos se conhecem e tudo é mais puro. Não me marcou nenhuma igrejinha interiorana, nem amigos de brincadeiras de rua. Não tive quintal com árvores para subir, nem frutas para serem apanhadas no pé. Não tive a liberdade de andar sozinha pelas ruas, como só acontece em cidades pequenas. Não tive a oportunidade de brincar mais livremente, mais sadiamente e aproveitar manhãs de sol douradas, que só se percebe quando os horizontes são largos. Em vez disso, sempre morei na cidade de São Paulo, em lugares feios, pobres, mas não paupérrimos, humildes, de imigrantes às vezes tristes com saudades da pátria distante, às vezes alegres como é seu natural. Horizontes estreitos, ruas sujas, gente aos montes em pequenos espaços. Mas uma cidade que eu amo e na qual vivo até hoje. Tive família paterna e materna, não excepcio

NÓS

NÓS Um dia algo aconteceu em minha vida. Outro ser único que também vagava sozinho cruzou o meu caminho. As químicas aconteceram, as emoções foram as mesmas e algo no ar vibrou. E começou a fusão, o viver diferente, a dois, compartilhado. Foram tempos de acertos e desacertos, tempos de aparar arestas, de aprender a se dividir, a se entregar emocionalmente, a se encontrar em outro plano que não o individual. Emoções ainda desequilibradas vão tendendo a uma estabilidade. Ajustes lentos, filosofias de vida acertadas. E começam os momentos de felicidade: o primeiro carinho, o primeiro beijo ainda resistido, a primeira separação sofrida, mas a volta feliz, as primeiras certezas vindo lenta, mas definitivamente. Decisões tomadas. Rumos traçados. Caminhos escolhidos. Decisões de vida mais concretas. Certezas de amor, sentimentos mútuos. Incertezas do que se quer para o futuro. Devagar os acertos vão se fazendo sentir. As perspectivas são mais concretas, os planos mais definitivos. A fel

2002 - AS GELADEIRAS DE MINHA (E DA NOSSA) VIDA

Até os meus 18 anos (1948), a palavra “geladeira” não fazia parte do vocabulário da minha família. Logicamente não era assim em outros meios familiares, mas mesmo os mais abonados tinham “armário” de madeira isolado e resfriado com barras de gelo entregues em casa. Éramos de um tempo em que as compras eram diárias, somente aquilo que seria usado para fazer as refeições do dia, elas mesmas muito simples. Verduras se compravam no verdureiro que passava pela manhã oferecendo alfaces, escarolas, batatas, pimentões... Vindos em geral de sua própria horta. Sempre passavam pela manhã para dar tempo de as verduras e legumes serem usados ainda para o almoço. A “venda” do quarteirão ou esquina fornecia o feijão, o arroz, o óleo (sem outra opção que o de caroço de algodão)... Comprava-se a quilo ou meio quilo em “conchas” medidoras, embrulhados em folhas de papel grosseiro que eram enrolados de maneira característica e com grande habilidade do “vendeiro.” Embora nós nunca tivéssemos usado o si

OPORTUNIDADE DE VER SÃO PAULO “DE NOVO” – Primeira parte

Escrever é sempre um trabalho que não sai no impulso. Começa pelo titulo que exige um bom tempo para se escolher o mais adequado, o que diga muito em poucas palavras, o que seja sugestivo. Eu ainda não encontre um título para este texto e ainda não sei em que “casa” vai morar:: na pasta “USP 2008”; Na pasta “Textos de Neuza”; na pasta “Neuza 2008” ou simplesmente em “Meus Documentos” para na hora certa muda-lo de “casa”? Por enquanto o titulo é AINDA SEM TITULO, AINDA SEM CASA. No final do texto já tinha "descoberto" o titulo. Mesmo uma registradora como eu, precisa de um tempo entre o acontecimento a ser registrado e a efetiva passagem para a linguagem escrita. É um tempo de assimilação e incorporação. Cada fato é uma pedrinha de mosaico que vai sendo trabalhada, ajeitada e colocada no lugar certo. Fatos revistos, colocados na ordem, complementados com detalhes... Quando a ultima pedra fecha o quadro, o texto está pronto na cabeça e pode ser considerado completo.

OPORTUNIDADE DE VER SÃO PAULO “DE NOVO” – segunda parte

Ainda na Praça João Mendes a história da Igreja São Gonçalo que aos domingos reza uma missa em japonês. A História do Teatro São José e o amor de Castro Alves e Eugênia Câmara. O incêndio. Trocas entre a Cúria e a Prefeitura. Por estreitas ruas chega o “cortejo” ao largo São Francisco. Faculdade de Direito. Sua história – 1828 no convento da igreja. Incêndio e reconstrução. Hoje bela peça arquitetônica. Ao lado o prédio também prédio histórico da Escola de Comercio Álvares Penteado atual FAAP. Recentemente restaurada é um testemunho histórico. E a estátua que mais chama a atenção pela historia: O Beijo Eterno ou Idílio de William Zadig. De bronze, fundida em Kopenhageen A história do monumento a Olavo Bilac A Igreja de São Francisco Pela Rua José Bonifácio chegamos á Rua Direita (que não é tão direita assim) A uma certa distancia vemos o que eu chamaria de bisavô dos arranha-céus da cidade. É o Edifício Guinle, com 7 andares cuja construção data de 1913. Foi o primeiro com essa alt

LIÇÃO DE CASA - UMA RESENHA

Livro escolhido: MINHA PROFISSÃO É ANDAR - Pecci, João Carlos, 1942 São Paulo: Summus Editorial Ltda. 1980 O autor, João Carlos Pecci escreveu seu livro na primeira pessoa. É uma auto-biografia. Um livro real. João Carlos sofreu um acidente de carro na Via Dutra em 1968 fraturou a sexta vértebra cervical ficando paraplégico O tema do livro é a Deficiência Física pessoal e de como foi enfrentada por ele. O autor escreve de maneira linear desde o momento do acidente – com ligeira “apresentação” dos preliminares, Paraplégico, escreve sobre os tempos de hospitalização, os desconfortos físicos e emocionais. O apoio da família, dos amigos, as primeiras manifestações de sexualidade na nova condição. A ida para casa e o doloroso processo de reabilitação. O autor dá um depoimento sincero de sua situação e transmite a possibilidade de participar do mundo e não ficar segregado por conta de uma deficiência. Texto coerente, profundo sem pretender ser. Abrange um período de 1968 a 1977, quando

EU E OS LIVROS...OU OS LIVROS E EU

Dando continuidade aos textos sobre livros, vou postar mais um (o segundo) que ainda não é o ultimo. Ainda vou escrever muito sobre os muitos livros que eu li. Não senti o prazer de ler muito cedo. Na minha casa de pessoas simples, eu me lembro que só havia dois livros: Antologia Nacional e Geografia Geral . Devem ter sido de meu pai quando ele estudou para Guarda-Livros. No primeiro, meu pai leu para mim o poema de Casemiro de Abreu “Meus Oito Anos”, o primeiro que conheci. Se eu não li sozinha, devia ter uns cinco anos. No segundo, via as figuras de lugares de outros mundos. E como a impressão era em preto e branco, sempre me ficou a idéia que outros paises eram escuros, nebulosos, cinzentos, diferentes daqui onde eu podia ver o sol. Durante o curso primário, nada ficou. Mas, em 1940 meu pai ganhou do Circulo Esotérico da Comunhão do Pensamento um livro que foi realmente o primeiro romance que eu li. “Telma a Princesa da Noruega” . De Maria Corelli. E ficou bem marcado o pais do

AMIGOS...PRESERVAR É PRECISO

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Ter amigos que mantém contatos periódicos, sempre compartilham nossos sucessos ou fracassos, dividem com a gente suas emoções, é sempre um privilegio. Mas, ter amigos que além disso tudo ainda cultivam sentimentos, emoções e são pessoas sensíveis, amorosos e carinhosos sem ser piegas, tem garra e coragem que são exemplos, é um duplo privilégio. Conheci Roberto Dupret Mattar nos tempos das Narrativas da Contemporaneidade da Profa. Cremilda da USP. Foi em 2006? Dele sabia apenas que tinha sido jornalista, mas em conseqüência de um AVC perdeu o emprego e extravasava suas frustrações escrevendo. E como escreve. Voltamos a nos encontrar na oficina Escrevivendo e ele escrevia cada vez melhor. Tenho muitos textos dele. Está na hora de fazer um livro. Este ano viajou e não fez parte do grupo. Ainda no ano passado esteve mostrando seus dons também em obras de arte visuais feitas com um grupo do MAC-USP. (a foto mostra Roberto e sua obra de arte) Conheci Ana Maria, sua mulher, acho que de

MAIS UM PEDAÇO DE SÃO PAULO

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Praça Luis Carlos Paraná, pertinho da Avenida Nove de Julho. Uma escultura de Lecy Beltran –Colhedor de Café – homenageia o trabalhador rural. Ao lado, de propósito ou não, um pé de café foi plantado, um complemento vivo dos grãos da peneira. Pegou bem, já tem grãos verdes e alguns vermelhos. E aí, a sensibilidade de um fotógrafo captou o ângulo exato e a composição estátua fria, morta, + ramos vivos com grãos quase prontos ficou perfeita. Salve Hélvio Romero. Os paulistanos te agradecem por mais esta bela imagem da cidade.

A História real de um sofá (e de suas três “esposas” – as poltronas)

No dia 2 de abril de 2008, muitas pessoas conhecidas viram no Jornal Nacional da TV Globo, em cobertura nacional, uma reportagem de Neide Duarte . Eu apareço e o sofá também. Por isso recuperei a história e aqui vai ela. Esse sofá da história tem agora, em 2008, 58 anos. Foi comprado na casa Pekelman, por volta de 1949-1950, quando mobiliamos com todo o capricho a "mansão" da Avenida D. Pedro I, no Ipiranga. Na sua forma original, era revestido de adamascado vermelho escuro, como dá para imaginar nas primeiras fotos (ainda em preto e branco porque não existia fotografia em cores). Assim, nessa sua versão primeira, foi testemunha do nosso namoro e depois do noivado. Foi nele que nos conhecemos melhor, que aparamos nossas arestas, que construímos nossos sonhos e que vivemos um amor romântico acompanhado por muita música da época. E a clássica fotografia de casamento também foi nele. Depois, quando nos casamos ele nos acompanhou em nossa nova vida. Ficou com sua primeira apar