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Mostrando postagens com o rótulo histórias de vida

NOSSOS NATAIS

Dos natais de minha infância pouco me lembro. Acho que não tínhamos condições financeiras para grandes comemorações, ou então no nosso meio social e familiar, tudo se resumia a um almoço em que se reunia a família. Troca de presentes? Nada. Me lembraria se houvesse. Acho que só quando nos vimos “família”, os natais se tornaram significativos. Assim que os filhos puderam compreender suas ligações com o ambiente, usávamos a data para maiores comemorações, mais presentes, para criar mais expectativas agradáveis e maior curtição da data (naturalmente pelos presentes e brinquedos). Na minha família, de formação religiosa muito fraca (éramos rotulados de Católicos, mas nossas convicções e freqüência à igrejas se resumiam a pouquíssimas idas à missa, casamentos, batizados e 1ª comunhão como conseqüência normal do contexto) o Natal nunca foi visto com significado religioso. Era uma festa familiar, material no que se referia a presentes e ceias, e como reforço de vínculos de amizade. E contin...

A LASANHA DO PELICANO

Começo da década de 60. Éramos jovens, um casal bastante apaixonado, dois filhos pequenos de seis e três anos e dávamos muita atenção ao cuidado no nosso relacionamento. Todas as sextas feiras eu me "embonecava", deixávamos de lado os problemas domésticos e profissionais, os filhos com os avós que esperavam ansiosos por esse dia e saíamos para namorar. Sempre no centro, carro estacionado na rua, na porta do cinema, jantar romântico, olhos nos olhos para repetir o que já estava incorporado às nossas vidas, mas que nunca era demais repetir: "Eu te amo". "Eu também...". Arremate de noite com flores da praça da República em românticos buquês de violetas ou ervilhas (nem essa flores existem mais) num gesto carinhoso de amor repetido. Depois de uma noite de amor, só nossa, com tudo a que tínhamos direito, no sábado de manhã continuávamos o fim de semana. Passeios pelo centro, compras, procura de novidades para nossa casa, nossos filhos, nosso universo. E no arr...

O BANHO DO JOAQUIM

No dia 28 de março de 2007, a aula do curso da Universidade aberta à Terceira Idade – “Memória – a Terceira Idade construindo Conhecimentos” – foi de um reconhecimento dos bastidores do MAE (Museu de Arqueologia e Etnologia da USP). Vimos laboratórios onde os procedimentos museológicos são efetuados. Em um deles, meio destoando do resto do material, havia dois armários com esqueletos humanos. Memória ativada, neurônios acordados e lembrei três fatos relativos a eles : 1 – Em uma época – mais ou menos década de 70 – para atender a solicitação de um amigo que estava montando uma exposição da industria farmacêutica onde ele trabalhava e precisava de um esqueleto, tentei ajudá-lo. Na escola em que eu lecionava havia um. Autorizada a emprestar tal esqueleto o pegamos para levá-lo até a Faculdade de Medicina onde estava sendo montada a exposição. Entrei no carro, coloquei o esqueleto no colo e fomos da Lapa até a Dr. Arnaldo. Nunca me esqueço da cara das pessoas que olhando aquela cena ...

TEMPOS DE COLÉGIO CAMPOS SALLES

Casei em 26 de dezembro de 1953 e voltei da lua de mel no inicio de janeiro de 1954, diretamente para a Lapa, bairro onde passei a morar. Depois dos primeiros dias de acomodação tratei de procurar um lugar para trabalhar e o único colégio de bom nível da região era o Campos Salles, já um colégio grande com prédio próprio na rua 12 de Outubro 357. Eu trazia recomendações dos colégios onde havia lecionado; Externato São José, da rua da Gloria, muito conceituado e do Colégio de Santa Inês no Bom Retiro, colégio enorme e tradicional. Não podia continuar neles porque ficavam muito distantes da Lapa. Comecei no Campos Salles em março de 1954,substituindo uma professora de Ciências que estava em licença maternidade. O horário era das 7h às 9h da manhã duas (ou três) vezes por semana. Bom, porque me liberava o dia todo para minhas obrigações domésticas iniciantes e para curtir o casamento recente. Quatro quarteirões era a distancia entre o consultório (que também era nossa casa) e o colégio...

O SAPO EM MINHA VIDA

Sapo jururu Na beira do rio Quando o sapo grita maninha, É que está com frio . Mentira. Sapo não sente frio Sua temperatura varia com o meio ambiente. Cantiga enganosa Até os 20 anos, eu não tinha visto um sapo de per...

MEMORIAS DE UM AUTOMÓVEL - variação 2

Sou um automóvel velho, enferrujado, amassado, desbotado. Ladeado por outros nas mesmas condições, aguardo meu final definitivo em um ferro velho qualquer, de uma cidade qualquer. Nasci em 1973 das entranhas da “mãe” de muitos outros iguais a mim, a General Motors. Recebi o nome pomposo de Chevrolet Opala. Nas vitrines de uma distribuidora, ostentava orgulhoso a minha cor de abóbora. -Brrrrrrr. Cor de Abóbora? - Abóbora sim. A cor da moda. Visível de longe, visível na estrada mesmo em cerração, tinha uma dignidade visual. Potencia? 140 hp, 4,1 litros. Um motor e tanto. Beberrão de gasolina sim, mas o compensava pela força, pelo torque, pela segurança. Tenho minhas memórias, um tanto confusas porque já estou na reta final. Misturo tudo, não sei dividir o tempo em unidades cronológicas, mas lembro de fatos muito interessantes. Ainda na loja, me perguntava: Aonde será que eu vou parar? Que família vou servir? Meu estofamento novinho, ainda cheiroso temia que crianças pequenas deixassem ro...

2002 - AS GELADEIRAS DE MINHA (E DA NOSSA) VIDA

Até os meus 18 anos (1948), a palavra “geladeira” não fazia parte do vocabulário da minha família. Logicamente não era assim em outros meios familiares, mas mesmo os mais abonados tinham “armário” de madeira isolado e resfriado com barras de gelo entregues em casa. Éramos de um tempo em que as compras eram diárias, somente aquilo que seria usado para fazer as refeições do dia, elas mesmas muito simples. Verduras se compravam no verdureiro que passava pela manhã oferecendo alfaces, escarolas, batatas, pimentões... Vindos em geral de sua própria horta. Sempre passavam pela manhã para dar tempo de as verduras e legumes serem usados ainda para o almoço. A “venda” do quarteirão ou esquina fornecia o feijão, o arroz, o óleo (sem outra opção que o de caroço de algodão)... Comprava-se a quilo ou meio quilo em “conchas” medidoras, embrulhados em folhas de papel grosseiro que eram enrolados de maneira característica e com grande habilidade do “vendeiro.” Embora nós nunca tivéssemos usado o siste...