quarta-feira, 13 de julho de 2016

UM REQUIEM PARA NICOLAU

Com autorização de Dante Pignatari, autor do texto,  estou republicando  a Homenagem a Nicolau de Figueiredo através do  link

http://www.ccsplab.org/maisccsp/homenagem-a-nicolau-de-figueiredo-1960-2016/

e com o texto completo.


O espírito do barroco

            Conheci Nicolau de Figueiredo em 2009. Uma primeira curadoria de quatro concertos de música brasileira para o SESC Paulista levou a uma segunda série, “Fina Escuta”, de 17 apresentações de música de câmara. Um dos concertos da primeira série trazia o violoncelista Dimos Goudaroulis e André Mehmari tocando cravo e improvisando ao piano. Conversando depois do concerto, me disse o Dimos que tocava com o Nicolau quando ia à Europa.
            Dos meus tempos de estudante, eu lembrava vagamente de um moleque ruivo e sardento que tocava piano como um demônio, que tinha uma leitura espantosa, transpunha qualquer peça a primeira vista para qualquer tonalidade... tudo isso mais de ouvir falar do que de fato presenciar. Eu também era jovem, e logo o tinha perdido de vista.
            Para a segunda série do SESC, programei um recital do Dimos com o Nicolau. Foi no dia 9 de Outubro de 2009. O então responsável pelo selo SESC assistiu à apresentação. Após o concerto, foi ao camarim e ali mesmo convidou a dupla para gravar um CD. Eu, na plateia, estava embasbacado, e mais ficaria na medida em que o fui conhecendo.
            Depois do concerto, fumando um cigarro na calçada da Paulista, ele me confidenciou, em tom conspiratório: “Eu faço ópera”. Eu sabia o que isso queria dizer: transcrever em notação moderna partituras que em geral só se encontram em manuscritos de época, escrever as ornamentações e os “da capos” das árias, preparar as partes, ensaiar cantores e instrumentistas e reger a coisa toda. Um trabalho insano e que exige conhecimentos musicais francamente esotéricos. Uns anos depois, veria com meus próprios olhos o trabalho hercúleo, e ouviria o resultado.
            Bolamos um projeto grandioso, de levar música barroca para as igrejas de São Paulo, com destaque para a produção brasileira do período colonial. Os pontos altos da programação seriam o Requiem de 1816 do Padre José Maurício e uma ópera do Alessandro Scarlatti. Não deu certo, mas desenvolvendo esse projeto, fui conhecendo o Nicolau e me impressionando cada vez mais com a vastidão de seus conhecimentos musicais, e quão profundamente tinha mergulhado no universo barroco.
            No final de 2011 passei a integrar a curadoria de música do Centro Cultural São Paulo. Foram vários os concertos protagonizados pelo Nicolau na Praça das Bibliotecas e na Sala Jardel Filho, ao cravo, ao órgão e regendo: recital de cravo, música sacra para a semana santa, para a quaresma, concerto de natal, música colonial brasileira. E outros, memoráveis todos, em outros locais: no órgão da Sé de Mariana com Pergy Grassi, o Orfeu do Gluck na inauguração da Praça das Artes, uma Paixão de Bach na Igreja da Consolação, uma suíte de Rameau no Theatro São Pedro...
            Dava gosto ver o Nicolau trabalhar, a entrega e a paixão com que acometia um volume assombroso de trabalho. Ensaiando cantores e instrumentistas, era tão incansável como implacável, com os outros e consigo mesmo. Podia ser muito duro, inclusive com os amigos. Quase sempre, era justo, e não guardava rancor. Nem sempre era muito coerente, mas não se importava em absoluto. Mudava de ideia, e pronto. Em geral, uma aura de gentileza o envolvia, e quando estava alegre e cordial, o que nele era natural, me lembrava sempre um gentil homem do início do século XVIII. Suas maneiras aristocráticas, a fala, os gestos, tinham algo de barroco.    
            Me disse que tinha estudado teoria dos afetos com uma velha atriz francesa. Um dos maiores cravistas (e organista, e regente) do mundo aprendeu a expressão e a retórica barrocas com uma intérprete de Racine e Molière; com a sinceridade e a convicção que só a verdadeira fé traz, dizia que a música que fazia era não para si, e sim para maior glória de Deus. Quando penso no sujeito generoso, divertido, despretensioso, amoroso, gentil e nobre que brevemente nos iluminou com a sua presença, só posso agradecer a sorte de ter podido compartilhar um pouco de música e de vida com um homem tão extraordinário.
            Perdemos nós, perde o Brasil, perde a música. No céu, certamente em festa, guirlandas de querubins e serafins se unirão em coro às milícias dos anjos do Senhor para receber esse músico que com fé sincera, determinação e rigor, tanto fez pela música, pelo Brasil e pelos que o admiraram e amaram.
            Axé, Nicolau!
Dante Pignatari - Pianista e curador de música do Centro Cultural São Paulo

segunda-feira, 11 de julho de 2016

RETORNANDO, EXPLICANDO E DIVULGANDO


Desaparecida desde 29 de março, não desisti dessa colcha de retalhos que é o meu blog. Estive ”hibernando”.

Durante 2015 e os primeiros meses de 2016, minha saúde me causou muito desconforto e fiquei sem pique para escrever. Uma Artrose Pélvica progressiva ocupou minha vida pessoal, cultural e profissional. Só conseguia mesmo  ler.

Só em abril, por uma cirurgia de implante de prótese coxo-femural é que voltei ao normal. Cirurgia de sucesso, me devolveu a qualidade de vida que eu pretendia, e estou voltando à ativa profissional, com o trabalho de Resgate de Memória Autobiográfica, com meus concertos, com   participação em eventos culturais e festivos.

E em um primeiro momento faço o que gosto de fazer: DIVULGAÇÃO de cursos que frequento há anos, e que vale a pena continuar.
Vai aqui copiado:
13o CURSO DE HISTÓRIA DE SÃO PAULO

Inovação, pioneirismo, criatividade

Em parceria com a Academia Paulista de História, o CIEE tem o prazer de apresentar a 13a edição do Curso de História de São Paulo que a cada ano, desde 2003, oferece a estudantes, professores, pesquisadores, profissionais de turismo e demais interessados. Sob a coordenação da Profa. Ana Maria de Almeida Camargo, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, o curso compreenderá 10 aulas, de 25 de agosto a 10 de novembro de 2016, ministradas no Espaço Sociocultural - Teatro CIEE, à rua Tabapuã, 445 - Itaim Bibi, São Paulo (SP). As aulas versarão sobre o tema da inovação e do pioneirismo que, em diferentes momentos de um passado que remonta ao período colonial e chega ao século XX, despontaram como soluções para o enfrentamento de problemas e desafios de natureza diversa: saúde, administração, obras públicas, arquitetura, tecnologia e cultura, entre outros.  


PROGRAMA

25/8
O pavor das "bexigas" e a introdução da vacina em São Paulo
Luís Soares de Camargo
(Prefeitura Municipal de Itatiba)
1/9
A expansão econômica da Província de São Paulo e as lideranças nacionais paulistas
Miriam Dolhnikoff
(Universidade de São Paulo)
15/9
O Gabinete Topográfico da cidade de São Paulo
e as obras públicas da Província (1835-1847)
José Rogério Beier
(Universidade de São Paulo)
22/9
Da imagem pictórica à imagem técnica: Hercule Florence e a invenção da fotografia
Boris Kossoy
(Universidade de São Paulo)
29/9
Arquitetura do ferro em São Paulo

Beatriz Mugayar Kühl
(Universidade de São Paulo)
6/10
Inovação institucional e pioneirismo científico: a Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo (1886-1931)

Silvia Fernanda de Mendonça Figueirôa
(Universidade Estadual de Campinas)
20/10
A higienização dos costumes na São Paulo da Primeira República
Heloísa Helena Pimenta Rocha
(Universidade Estadual de Campinas)
27/10
Modernização ou americanização de São Paulo?
Antonio Pedro Tota
(Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)
3/11
São Paulo, 1932: a tecnologia e revolução



Ricardo Frota de Albuquerque Maranhão
(Academia Brasileira de Gastronomia)
10/11
Ambivalências do moderno: o modernismo de São Paulo em meados do século XX

Maria Arminda do Nascimento Arruda
(Universidade de São Paulo)


Horário: das 9:30 às 12:00 horas

Como participar: as inscrições são gratuitas e devem ser feitas, obrigatoriamente, antes de cada aula, pelo site do CIEE - www.ciee.org.br/portal/eventos

Certificados: uma semana depois de cada aula, os participantes poderão imprimir, pelo site do do CIEE, o certificado de presença com a correspondente carga horária da aula assistida.
           
Material didático: no início de cada aula, os participantes receberão um roteiro dos assuntos que serão abordados, com bibliografia básica a respeito do tema. Os textos completos do curso serão objeto de publicação especial no próximo ano.

Haverá estacionamento gratuito no local.

Espero encontrar os amigos por lá




terça-feira, 29 de março de 2016

MÚSICA EM MINHA VIDA NESTE PRIMEIRO TRIMESTRE DE 2016


 Em algumas atividades minhas é que posso sentir a passagem do tempo. Posso usar a Música para sentir a diferenças na minha vida também.

Enquanto nos anos de 2013 – 2014 vi, ouvi, comentei e me abasteci de música, já no ano passado, o 2015, tudo foi diminuindo, cada vez menos saídas e as que eu consegui naturalmente reservava à MÚSICA.

Para 70 eventos musicais   durante o ano de 2013, foram   54 em 2014 e    nem contados  em 2015, mas certamente bem menos.      Tudo registrado, comentado e curtido.

Nos meses de janeiro e fevereiro só esporadicamente acontece algum concerto ou programação musical. É uma época de verão, de férias. Neste ano de 2016, ainda no primeiro trimestre consegui alguma coisa.

Em 05 de março deste ano por gentileza de Maria Inês fui com ela e com Eliana de Sumaré à Sala são Paulo para o concerto de abertura da OSUSP. Depois de tanto tempo afastada dessa sala, pude notar a diferença em acústica, mesmo sem ter um ouvido privilegiado. Imagine quem o tem, como goza esse predicado da sala.
O programa incluiu Glinka, com a abertura de “Ruslan e Ludmila” – Rachmaninoff com o Concerto nº 3 certamente o mais difícil, mas com um pianista russo, Dimitry Shishkin, jovem mas genial como todos os russos são -  e Tchaikoviski com a Sinfonia nº 4, certamente um preparo para as de nº 5 e 6 as perfeitas. 

No resto do mês ouvi música na TV Cultura e nos canais +Globosat, e Arte 1.

Nos Clássicos da TV cultura vi de novo a Carmina Burana de Karl Orf que nunca cansa. Desta vez em produção nacional com legenda e belos coros.

Nos Concertos Matinais voltei aos velhos tempos, a 1975 quando íamos eu e Ayrton ao Teatro Cultura Artística às segundas feiras e ao Teatro Municipal às sextas feiras. Chovesse o que chovesse, deixávamos o carro no estacionamento sob a igreja da Consolação e nas sextas, cobríamos o espaço entre os dois teatros quase sempre debaixo de chuva que nos fazia chegar encharcado.
Nas reapresentações atuais dos domingos ao meio dia, nos Concertos Matinais, vejo e ouço o maestro Júlio Medaglia ainda jovem (40 anos atrás) ou o Maestro Eleazar de Carvalho ainda com cabelos pretos   apresentarem uma orquestra pequena (acho que no auditório do MASP, mas não tenho certeza) em que se salientavam para mim o flautista Jean Noel Sagaard e Elisabeth del Grande, jovenzinha, na percussão.
E,uma apresentação gravada em 1997 no Memorial da América Latina (auditório Simão Bolívar) nos deu o coro Va Pensiero da ópera Nabuco de Verdi, com o então Coral Lírico do Municipal.

Gravada no Mosteiro de São Bento uma apresentação de piano e violino com Polonaises e.….
Na TV atual revi “de novo”, mas sempre bela, a performance de “ Horowitz – o último romântico”   ao piano   com suas mãos características, esticadas, lentas, mas tão expressivas na sua velhice quanto o foram na juventude, tocando Chopin.

Ganho da Eliana de Sumaré, o DVD da ópera Carmen numa das melhores apresentações que conheci: Com o maestro James Levine e solistas (Carmen e Dom José) Agnes Baltsa e José Carreras, produção do Metropolitan Opera e sua Orquestra Ballet e Coro, me delicia. E posso ouvir quantas vezes quiser   do 2º ato a área de Dom José “La Fleur que tu m’avais ejetes” numa interpretação belíssima de voz e emoção. 

E a Grande Páscoa Russa gravada em 1976 no Teatro São Pedro e regida por Eleazar de Carvalho foi o coroamento desta Páscoa de 27 de março de 2016. Bem adequada e oportuna.


                                   Aguardando aatualizações

quinta-feira, 24 de março de 2016

OS SENTIDOS E A MEMÓRIA



Há 11 anos coordeno um projeto que atualmente considero como meu “canto do cisne”, o último (porque aos 85 anos as perspectivas não são nem a médio prazo) em que acredito, me empenho com entusiasmo e quando obtenho resultados positivos (e até terapêuticos) me sinto realizada, e sinto que ainda estou protagonizando alguma atividade de valor real. É o projeto RESGATE DE MEMÓRIA AUTOBIOGRÁFICA desenvolvido em 16 Encontros semanais de 2horas cada um.
Esse projeto não é   estático. É dinâmico.  Ao longo desses 11 anos já sofreu muitas alterações de acordo com o público alvo, com o espaço onde estou atuando, com o tempo que disponho, com os novos conhecimentos que adquiro, com a minha própria mudança pessoal.
Um dos temas OS SENTIDOS E A MEMÓRIA usa a manipulação de material variado para resgatar memórias pessoais em qualquer tempo da vida.
Assim para o resgate de uma memória pela VISÃO, qualquer coisa que chegue aos olhos pode nos levar a alguma memória. Durante o encontro usamos fotos de paisagens, pessoas ou cada participante procura em sua própria memória alguma coisa que tenha deixado marcas. E objetos diversos.
Para o resgate da memória através da AUDIÇÃO usamos músicas de época, sons ruídos, palavras. Porque, “basta um acorde para que a memória retire do fundo do subconsciente a procurada frase da melodia que aí se escondeu”.
Para o resgate da memória através da SENSIBILIDADE TÁCTIL usamos tudo aquilo que pode ser percebido pela pele através do tato, e que nos traga lembranças. Como ex. papel de bala, fitas de cetim, feltro, Lixa, chave. Cordão, linha….
Para o resgate da memória através do OLFATO usamos folhas com forte odor (manjericão, alecrim, arruda, hortelã, …) ou café, camomila, erva doce, curry, canela, cravo, orégano, pimentas... que cheiradas são capazes de trazer do fundo de nossas lembranças algum acontecimento marcante.
Para o regate da memória através da GUSTAÇÃO, do paladar, qualquer tipo de alimento, tudo o que se pode comer e que se dissolver na saliva, pode nos trazer lembranças. Usamos então frutas, balas, sementes, pedaços de alimentos comuns ou inusitados.
Tenho belos exemplos de quanto essa memória pessoal pode ser resgatada por depoimentos feitos do decorrer dos Encontros.



Para a SENSIBILIDADE TÁCTIL como recuperadora de lembranças:
 - A dolorosa lembrança táctil de uma “bundinha” de criança que na época da guerra, na Itália, teve que se higienizar com folha do mato, só que esqueceram de avisar que qualquer folha servia, menos as folhas de urtiga !!!!!!!! ;
 -   a aspereza (ao mesmo tempo suave) das mãos de minha mãe;
 -  a sensação do veludo de um vestido   novo e muito desejado;
 -  a sensação de trançar os cabelos;
 -  a perfeição do assentamento das pregas na saia do uniforme escolar branco na infância e marinho na adolescência;  
  - o laço de fita que prendia meu cabelo que sempre pensei ser maior que a minha cabeça
 - a boina que substituiu o laço de fita;
 -  a leveza de minha primeira caneta tinteiro melhorando a minha letra;  
 -  o carinho da mãe desembaraçando os cabelos (não havia condicionadores);
 -  as espetadas de agulha quando apendia a bordar;   
 - os meus bichinhos de estimação, suaves e companhia para dormir;  
 -  memória dos partos que realizei com a satisfação de ter um nenê nos braços, tocá-los e coloca-los em contato com o mundo;   
 - sensação táctil de liberdade ao saltar de um trampolim a 10m de altura e o meu corpo tocar a água da piscina; 
 -  retalhos que costurados davam cortinas, almofadas, toalhas de mesa, remendos caprichados e roupas para as crianças mais novas;
 - canequinha de ágate para o café no sitio
 -  o primeiro travesseiro molhado de lágrimas e babado de medo, mas amigo e seguro durante uma guerra;
  - o corpinho do meu neném, meu melhor produto descobrindo cada detalhe, cada cobrinha, unhinha, xoxotinha, dois braços e das pernas agitados, duas orelhas, nariz,  boca desdentada, dois olhos surpresos, uma mulherzinha perfeita em miniatura. Minha boneca, só minha;  
 - a barba do John grisalha e macia uma delícia apoiar o rosto, pentear com as mãos;  
 - lembrança da primeira vez que um seio feminino veio parar na minha mão de adolescente, firme e aveludado



Para a memória resgatada pela GUSTAÇAO
 - Balas de leite da Kopenhagen que ganhávamos no final de ano da professora de piano e que recheavam nossos bolsos conseguiu levar alguém a um tempo precioso e a uma história de sua vida que estava esquecida;
 -   Algodão doce de um circo;  
 - O gosto do arroz molhado, acabado de fazer comovo frito ou bife de fígado que eu comia às 10:00 para dar tempo de chegar á escola ás 10:45;
 - ;o xarope de guaco de minha avó materna;  
 - o sambuca do meu avô italiano;  
 - a polenta mole para comer com açúcar e leite;
 -  o bolo de mel com gengibre e cobertura de chocolate;   
 - Sabor do leite de vaca ordenhado no curral e coberto de espuma;  
 - dos cajus de nossa casa de Mato Grosso, coloridos suculentos e perfumados que produziam manchas nas roupas e que saiam só depois de um ano (segundo a mãe);
 -  os biscoitos de natal com receitas alemãs passadas de geração em geração;
 -   as castanhas do Pará   que meu pai madeireiro trazia das matas onde procurava árvores de interesse para a serraria onde trabalhava, ricas em selênio e oleosas causavam diarreia;
 -   bolinho de arroz com mandioca açúcar e erva doce  e assados em latas vazias  de sardinha;  
 - o doce de caju de Cáceres, no Mato Grosso;
 -    o gosto da vacina BCG  oral, incomparável porque nem doce, nem amargo, nem azedo. Para mim, gosto de BCG;
 -  o sabor do leite condensado oferecido por soldados americanos no final da guerra, e dividido com a namorada;  
 -  sal e adoçante de fabricação doméstica a partir de carbonato de sódio para suprir a carência de sal e açúcar;

 Para  MEMÓRIA OLFATIVA, depoimentos transcritos:
  o perfume da dama da noite no jardim da minha adolescência;  
 - o bolinho de chuva fritando nas tardes chuvosas com a família;
 -  loção após barba do meu marido;
 - o lança-perfume do carnaval;  
 -  o cheiro de paio na sopa de ervilha temperada com alho frito no azeite;  
 -do café de coador de pano às cinco da manhã que me fazia pular da cama;
 -  o cheiro da canela em pó nos bolinhos de chuva e rabanadas no chá das tardes de domingo;  
 -o cheirinho de bebê dos filhos e netos;  
 - o cheiro da pipoca (arrebenta pipoca, maria sororoca) no fogão de lenha;
 -  cheiro de grama recém aparada às margens do rio que era o nosso quintal;
 -  o cheiro do doce de leite mexido em tacho de cobre com uma colher de pau gigante na fábrica de Avaré, o atual “pingo de leite Avaré”;   
 -o cheiro  de madeira ao ser serrada nas marcenarias e serrarias onde o pai trabalhava;
 -  o cheiro do café da hora do lanche no Banco do Brasil;
 - o cheiro ao abrir a lata de pó de café, melhor do que o próprio café coado;
 -  cheiro da Brilhantina Atkinsons que meu pai usou a vida inteira trouxe lembranças de relacionamentos pai, filhos (história contada);
  - o cheiro de panetone, pizzas, de doces italianos como crostoli e fritelli;  
 -  o aroma da primeira chuva na terra quente do sol;
 - um perfume “ Àrpege” de fabricação doméstica com os conhecimentos de química para suprir carências de guerra;

A MEMÓRIA AUDITIVA nos traz recordações de vida como atestam depoimentos:   
- o ruído do portão da rua mudava de acordo com a mão que o empurrava e junto com o som dos passos informava se era o ai, a mãe, ou qual dos irmãos estava chegando;   
   -  voz da Dalva de Oliveira cantando Ave maria do Morro  gravado em disco de 78 rotações girava na vitrola de corda aos domingos de manhã quando eu voltava da missa das oito;  
  - o assobio do meu pai para reunir os filhos (que meu marido e filhos repetiram);
 -    o  apito de trem que me dá a sensação de separação;   
 -  o arranhar na porta quando meu gato Peter queria entrar depois de sua farra noturna;  
 - o som da minha voz repetindo para as bonecas e as árvores do meu quintal, tudo o que a professora ensinava na escola e que eu repetia para as árvores e bonecas; 
 - o ruído da máquina de costura de minha mãe;
 -  o mugir das vacas no curral;
 -  o canto do galo ao amanhecer;  
 - o coral da Faculdade de Medicina dos Hospitais da Santa Casa de Misericórdia;
 -  apito da serraria onde o pai trabalhava o primeiro choro dos bebês que ajudei a nascer;
 -  o prazer que me proporcionavam os cânticos entoados na Igreja Batista;   
 - os primeiros sons que consegui tirar de um violino;
 - Chiquita Bacana dos meus carnavais, as valsas que meus pais gostavam de dançar, herança das tradições alemãs;  
 - das musiquinhas alemãs cantadas por pai e mãe;
 -   barulho do remo e da canoa nas águas do rio que era nossa rua;   
 - as palavras niitshan e neetshan para chamar o meu irmão ei irmã mais velhos;
  - sons de piano,  obrigatórios como estudo;
 -o som das bombas, sirenes, tiros, gritos durante a guerra;
 - os gritos, ruídos falas confusas de homens e mulheres sendo espancados numa delegacia nos tempos de ditadura;
 - os sons dos concertos e óperas do La Scala de Milão participando das claques para aplausos nos momentos certos;


A MEMÓRIA VISUAL é a que mais lembrança trás, mas requer atenção. De alguns depoimentos:
  -Nos meus 10 anos lembro as cortinas brancas de crochê da sala e do quarto da frente me encantavam;   
 - na cama de meus pais a colcha também branca de crochê tinha o forro rosa que mudou para verde tempos depois;
 -  minha mãe tirando o barbante dos sacos de farinha de trigo que eram comprados muito baratos. Depois de lavados e alvejados, viravam lençóis de baixo e fronhas para as quatro camas dos meninos, toalhas de mesa, panos de prato e sacos para o pão;   
 - o canivete de meu pai verdadeiro faz tudo;   
 - as manchinhas  senis das mãos dos meus velhos queridos;  
 -  o mapa da cidade impresso em papel fino levado sempre na bolsa bem dobradinho objeto obrigatório para quem vinha de cidade pequena para São Paulo e não se perder;   
 - os campos de trigo de visão dourada com manchas vermelhas de papoulas;  
 -  o muro de Berlim (1961-1989), com 3,6m de altura por 160km de comprimento separando famílias, do qual nem se permita aproximação.
E este último depoimento, não agradável quanto foram as memórias anteriores serve de gancho para o regate da memória visual que mais me impressionou no depoimento de um participante de 91 anos:
“Em abril de 1945, numa praça de Milão, perto de minha casa (Piazzale Loreto) vi Mussolini e sua última namorada Claretta Petacci, motos e pendurados pelos pés num posto de gasolina, expostos ao olhar de todos. Que os matou foi um grupo de “partisans” que os interceptou na fuga para a Suíça. Foi o fim de uma época. Um padre, com pena, aproximou-se do cadáver da mulher e amarrou-lhe a saia na altura dos joelhos para poupar a visão das calcinhas. Tempos bárbaros. ”








1922 - CENTENÁRIO DA INDEPENDÊNCIA – OS MONUMENTOS - 3


1922 foi um ano de festas para a cidade de São Paulo. Muitos monumentos foram inaugurados, muitas novidades apareceram. Além da célebre Semana de Arte Moderna que foi um divisor de águas na cultura da cidade, pipocavam os monumentos comemorativos da efeméride. Alguns deles: Monumento a Carlos Gomes, Monumento a Olavo Bilac Monumento da Independência
O MONUMENTO À CARLOS GOMES na lateral do Teatro Municipal e espalhado pelo Vale do Anhangabaú, foi uma oferta da colônia italiana na comemoração dos 100 anos da Independência e esculpido pelo genovês Brizzolara.
O monumento, obra do escultor genovês LUIGI BRIZZOLARA, compõe-se de uma série de estátuas e de grupos, que formarão um conjunto solene, encimado pela estátua em bronze do grande músico. Duas artísticas escadas ladearão o corpo central e principal do monumento, descendo para o Parque do Anhangabaú. Duas estátuas em mármore, representando a Poesia e a Música constituirão os grandes ornamentos alegóricos; dois mastros para bandeiras engalanarão o monumento nos dias solenes; duas estátuas em bronze, representando uma o Brasil e outra a Itália, plantadas no primeiro plano do monumento, ladearão a escadaria, formando os grandes ornamentos de honra.
Estátuas em bronze, distribuídas ao longo de cada uma das escadas, representarão as principais óperas de Carlos Gomes, que são: "Guarany", "Fosca", "Condor", Salvador Rosa", "Escravo" e "Maria Tudor".
Como grande embasamento e entre as duas escadas, haverá um grupo triunfal do Gênio, náiades e cavalos marinhos.
O monumento levará como epígraphe as seguintes tocantes palavras: - Ao grande brasileiro que conjugou o seu gênio com a itálica inspiração A colônia italiana do estado de São Paulo no primeiro centenário da Independência do Brasil. 7 de setembro de 1922 – 1839- 1896."[3]
Em São Paulo, Brizzolara realizou o mausoléu da família Matarazzo, no cemitério da Consolação; o brasão de armas de Ermelino Matarazzo (Hospital Matarazzo); estátuas para particulares e diversos monumentos fúnebres como por exemplo, para a família Machado. No Museu Paulista, sobre a colina do Ipiranga, erguem-se à direita e à esquerda da entrada duas estátuas de Brizzolara de três metros e meio de altura:  Antônio Raposo Tavares e Fernão Dias.



 Monumento a Carlos Gomes – vista geral e detalhes
            
                                      

Música
       
                    

               

Poesia

                               

             
                                                      O Guarani


                                                               Maria Tudor



                                          

                                          Condor                                                
                               
                                                

                                              

                                                                    Fosca

                                                              Lo Schiavo