Eu sou assim


Sou NEUZA GUERREIRO DE CARVALHO

Ao longo dos anos venho tentando me descrever, falar de como me sinto e dos objetivos do ano a cada época.

2017
2017 foi um ano diferente. Pior do que 2015, nunca. Desde 2006 morando e vivendo sozinha, passo agora a compartilhar minha vida com meu filho.  Por isso sou mais MÃE DE MEU FILHO do que DONA NEUZA ou VOVONEUZA.

Minhas rotinas pessoais não mudaram, mas as gerais, sim. Continuo basicamente como eu sempre fui, mas mais ansiosa, mais ligeira, ocupando cada minuto do dia (e também da noite porque durmo pouco).

Minha saúde posso dizer que é boa para minha idade. Sou uma idosa saudável   Cirurgia ortopédica resolveu meu problema maior e sou acompanhada pela Geriatria, Mastologia, Ortopedia e Psiquiatria do HC e nesta última sou parte de pesquisas sobre Alzheimer e Cognição e me mantenho ainda no grupo de Controle. Este ano fiz o PET de encéfalo (exame invasivo do qual vinha escapando há seis anos) numa retribuição ao muito que recebo do HCFMUSP. Para Ginecologia tenho exames periódicos no Posto de Saúde da Vila Ipojuca. Tenho minhas rinites alérgicas à mudança de tempo e tomo vacinas religiosamente a cada ano. Dores musculares que são somatizações. Minhas próteses auditivas são sempre acompanhadas. Já ando bem de ônibus e metrô. Taxi só em casos excepcionais. 

Minha doação de corpo e Testamento Vital continua em lugar accessível para serem usados quando necessário.

Minhas atividades domésticas aumentaram muito, mas estou administrando bem minha vida profissional e a doméstica.  Estou gostando dessa minha porção Mãe. 

Minhas distrações são leitura – listei 24 livros lidos neste ano, Música - só a relação da música ouvida em concertos ou gravada no ano foram 30 páginas digitadas, e Artes Visuais para o que tenho minha mini galeria pessoal e fiz curso no MASP que valeu a pena. Filmes só na TV ou no curso do prof. Terron.

Tenho ainda projetos de vida em andamento como os Encontros para Resgate de Memória Autobiográfica, e História de São Paulo através de Imagens (550 slides em ordem cronológica), faço palestras e tenho outros projetos em gestação como o 80+, Cuidados com a Figueira da Glette e seu clone, Saúde Feminina.]

Frequento a Unibes Cultural em seu movimento Lab 60+,  e tenho participação ativa em  eventos culturais que acontece nesse espaço. 

Vou a muitos eventos - listados 41 - nos quais faço muitos contatos e por isso tenho grande visibilidade. Sou procurada pela mídia para entrevistas sobre assuntos da época. (16 no ano foram os contatos).

Contatos com amigos por visitas, e-mails, telefonemas listados 143 e com gente que até me visitou 16 vezes ao ano. Nessa interação entre pessoas que tem interesses em comum, a troca de experiências e emoções mantem viva a chama das amizades.

Financeiramente estou fragilíssima, mas dá para sobreviver. Mas não dá para alguma viagem, frequentar salas de concerto mais sofisticadas com ingressos caros e deslocamento também caro.

Perdi grandes amigos que completaram seu ciclo de vida: Paulo Iabuti do Grupo Páteo do Colégio; Ecléa Bosi, grande amiga e incentivadora de meus trabalhos; Heros Brown da Silva vizinho e amigo dos bons tempos da rua Caativa; minha prima Maria. Mas ganhei um sobrinho neto com Davi que mora em São Carlos.

Gosto de receber amigos e no final de dezembro faço pequenas reuniões  em que junto  amigos de todos os gêneros, raças, condições sociais e interesses comuns.

Minha família próxima continua pequena: quatro netos, suas quatro meninas, eu e o Flavio. Jurema mora em Londres e está muito distante. Cada um tem sua vida própria, estão na fase produtiva e  tem pouco tempo para avó. Mas, não deixam de se comunicar.


Meus planos e perspectivas agora são para tempos curtos. Finalizar os projetos em andamento seria desejável: alguns estão sempre em mudança, outro não tem um fim determinado. 

Para os que dependem só de mim, me esforço. Para os que dependem de outros, é preciso ter sabedoria sobre quem serão esses outros

2016
Válido em essência o do ano passado que foi um tempo de baixa estima.
Primeiro trimestre realmente mal em termos de saúde, a Artrose Pélvica progredindo rapidamente. Mas, a partir de abril, depois de uma cirurgia para implante de prótese coxo femoral, e depois dos primeiros tempos de recuperação física, estou melhor a cada dia. 

Vou retomando minhas atividades até rapidamente. Registro todas as melhorias para motivação própria. Neste 2016 conseguindo superar e renascendo. Sei disso pelos comentários de quem convive comigo. Me sinto melhor em termos de Memória, Cognição, Pique de trabalho, Agilidade Mental e sem preguiça. 

Continuo com o Blog em ritmo mais lento. Não deixei o trabalho de Resgate de Memória Autobiográfica pela UATI, no Hospital Universitário e aqui em casa quando a locomoção foi quase impossível.

Meu ppt sobre a História de São Paulo está em 550 slides. Li muito, estudei mais ainda e escrevi dentro do possível.

Consegui ir a alguns eventos: comemoração da Independência da Índia, Academia Paulista de Letras em grupo de leitura, Arquivo do Estado como mediadora de evento universitário............ 

Reencontrei Marta Vannucci, antiga professora na História Natural da USP, nos seus 95 anos. Consigo ir à concertos: Quarteto de Cordas da cidade (meus amigos queridos Betina, Marcelo, Nelson e Robert), Domingos na Sala São Paulo e até no Municipal (de ônibus)

Tenho muitos e bons amigos que me deram assistência material e emocional na fase difícil da cirurgia. Meu filho Flavio me assistiu durante quatro meses com presença de 24 horas.

Tive experiências televisivas com ‘pontas” para a Globo e uma aparição bem evidente no Globo Reporter. Por ficar mais em casa minhas atividades domésticas foram maiores. Voltei a ser dona de casa. Mas, deixei de ser motorista e ainda não administrei muito isso. Para compensar, renovei minha CNH

Perdi Geanette uma parente próxima, mas mais do que isso uma grande amiga. Problemas familiares sempre acontecem.

Netos seguindo suas vidas e vencendo obstáculos.

E o meu tempo vai correndo cada vez mais depressa e não quero pensar que está se esgotando com tanto ainda a produzir e compartilhar. Vivo mais o dia a dia com o máximo de atividade possível, sempre com novos projetos e novos planos.


2015
Continua valendo a maioria do “quem sou” que está bem detalhado no blog. Algumas mudanças. Este ano estou mais amarga, mais decepcionada com atitudes de pessoas próximas e minha autoestima despencou. Em alguns momentos estive quase no fundo do poço, e só com muito esforço consegui me agarrar às bordas e me manter quase na superfície. 

Não estou psicologicamente bem. Tenho uma grande tristeza intima que procuro esconder, não tornar muito visível para não incomodar as pessoas. 

Mas, os sucessos do meu trabalho de Resgate de Memória Autobiográfico me mantem à tona. O grande número de amigos sempre presentes é outra coisa que eleva minha moral e minha autoestima. Continuo gostando das mesmas coisas de sempre: Música, Literatura, Artes Visuais, História de São Paulo e Memória. 

Acrescentei um pouco de Anatomia Básica quando tive que dar aula sobre o Conhecimento do Corpo Humano. E minha curiosidade sobre muitos assuntos me leva a estar sempre nas pesquisas, o que aumenta muito o meu conhecimento.

Quanto menor vai ficando meu tempo, mais ansiosa fico em passar para frente o que aprendo seja pela vivência, seja pelas pesquisas. Todo esse conhecimento acumulado deve servir para alguma coisa desde que partilhado. Só não descobri ainda uma maneira melhor de compartilhar. Acho que já comecei quando disponibilizei para quem gosta de São Paulo como eu, todo o meu ppt sobre a história da cidade. 

De que vale tê-lo no computador quando mais pessoas podem usufruir desse conhecimento. Em conversa com Cidinha ; parafraseando Jacques Marcovitch (ex reitor da USP) para a terceira idade: “Idade da Juventude Acumulada” estamos usando “Idade dos Bens Acumulados” sejam eles bens culturais, existenciais, éticos, morais e até materiais. 

E de nossa conversa saiu a ideia compartilhada de que esses bens devem ser distribuídos, compartilhados de todas as maneiras. Tudo o que se recebe tem que ser certamente “devolvido” à sociedade e entre as pessoas próximas ou não.


2014 
Coisas básicas continuam sendo as mesmas. Não se muda muito depois de uma certa idade. Estou menos tímida ainda do que já fui. Tenho segurança no que falo e, portanto, defendo meus pontos de vista. Consigo estabelecer critérios de vida, opções que sinto muito obvias sem que precisem me explicar algumas coisas. 

Criativa, assumo que sou desde sempre. Minhas prioridades de interesses continuam sendo na ordem Música, Literatura, Artes Visuais, Memória. Ciência, apenas o que ficou do passado. Serve de base para entender novas descobertas.

Minha Artrose de Quadril continua evoluindo, mas não tenho parâmetros para dizer se muito lentamente ou muito rapidamente. Posso medir apenas pela dor (já é mais percebida) e pela fraqueza da perna que influi muito na locomoção.

Consegui terminar SEIS GERAÇÕES QUE ENCONTRAM SUAS HISTÓRIAS. Pronta na encadernação básica aguarda verba para encadernação mais luxuosa e definitiva.

Nosso livro sobre a Glette, um carro chefe de minha vida finalmente foi lançado depois de oito anos de trabalho.

A História de São Paulo ainda me empolga e tenho um ppt com mais de 400 slides à espera sempre de oortunidade de visualização.

Meu projeto de Resgate de Memória Autobiográfica foi aceito pelo Dr. Egídio coordenador do Amigo do Idoso do Hospital Universitário, e aos trancos e barrancos por causa da greve da USP consegui aplica-lo com sucesso. Isso me satisfez muito. 

Por conta da insegurança no tratamento da Artrose passei um tempo meio depressiva, mas quando ficou certo que cirurgia não aconteceria tão logo, dei a volta por cima e resolvi trabalhar como posso e do jeito que dá. Afinal, meu maior tesouro é a cabeça. Para as pernas sempre se dá um jeito. Quando me conscientizei disso melhorei até de ânimo e humor.

A diferença maior deste 2014 com o 2013 é que fiquei muito mais tempo em casa, seja por insegurança, por um medo patológico de cair e causar um problema de emergência muito mais delicado. Em compensação penso mais, invento mais coisas para escrever e acabo produzindo muito. Me espantei quando vi na estatística que minha produção de 2014 foi de 17,8 GB, uma produção apreciável.

Minhas ambições são pequenas, imediatas e fico feliz com pouco.


2013 
As primeiras auto-avaliações em “Quem eu sou” do Blog a partir de 2008 continuam valendo. Eram daqueles tempos. Em muitas coisas continuo a mesma, mas mudei em algumas atitudes. Sou crítica demais, sendo difícil arrancar conceitos já arraigados e substituir por novos. Conheço o problema e me esforço por administrar bem meu comportamento. Não sou mais tímida. 

Ao contrario acho que sou atrevida demais. Criativa, assumo que sou desde sempre. Minhas prioridades de interesses continuam sendo na ordem Música, Literatura, Artes Visuais, Memória, mas mudei quando dizia que não gostava de ouvir concertos pela TV. Hoje vejo o que isso tem de bom quando a gravação é de qualidade. 

O foco nos instrumentistas apura mais o ouvido e é um treinamento para detalhes. Consigo abstrair barulhos e interferências. Mas, detesto quando ouço musica e me interrompem com comentários, mesmo que sejam sobre ela. Perco a concentração.

Continuo com o prazer de dar presentes e fazer elogios sempre que posso. É tão fácil agradar!!! Não espero retorno e me sinto constrangida se eles ocorrem.

Continuo ansiosa querendo fazer mais coisas do que posso. Ainda não consigo priorizar interesses e por isso não relaxo. Acabo sentindo “culpas” pessoais por não fazer o que eu mesma me tinha determinado. 

Às vezes acho que não produzo nada porque nas anotações de agenda registro que fico sem fazer nada. Aí me lembro do livro “Ócio e Criatividade” de Domenico di Masi e sei que nos momentos de aparente desligamento, estou “pensando”, organizando o pensamento antes de colocá-lo em prática.

Não tenho e nem nunca tive espírito acadêmico. Tanto que não fiz nem mestrado, nem doutorado em nada. Me descobri com modo muito abrangente de ver as coisas. Do que sei ou observo vejo as relações com o mundo e com a minha vida e a contemporaneidade.

Continuo envelhecendo e com isso o desgase natural. Tenho artrose de quadril (doença hereditária, progressiva e não tem cura) e começa a atrapalhar minha vida. Tentando administrar essa condição e procurando soluções.

Não tenho conseguido trabalho e por isso invento coisas: agrupei todos os meus textos (cerca de 500), formatei, conferi e organizei em volumes por ano. Um trabalhão.

E um novo trabalho que já vem de 2012: SEIS GERAÇÕES À PROCURA DE UMA HISTÓRIA (título provisório enquanto pesquisa e montagem de texto) e SEIS GERAÇÕES QUE ENCONTRAM SUAS HISTÓRIAS quando estiver terminado até 2013.

Nosso livro sobre a Glette, um dos carro chefes de minha vida já em fase final, mas só será lançado em 2014. A História de São Paulo ainda me empolga e tenho um ppt com quase 400 slides.à espera de oportunidade de "sair do forno". 

Continuo a estudar muito e sempre. Por que e para que? Ainda espero encontrar um veículo para repassar conhecimentos. De novo, fiz a doação de meu corpo para estudo, e, quando da exumação doei os ossos de Ayrton também para estudo.

Não mudei em muita coisa. Agora, mudanças são mais lentas, tudo já está incorporado, sedimentado. À minha maneira sou feliz e minhas ambições são pequena

E passei três anos sem me reavaliar. Tenho sim essas avaliações em outro arquivo que são as RETROSPECTIVAS de cada ano. Então vai ser mais fácil editar e complementar este texto.


2012
Uma nova avaliação Como eu me vejo é fácil escrever. Como eu sou, como eu penso, é natural saber registrar. Gostaria sim de saber como me veem. Mas sempre me agradam demais e isso não é bom. Não fico sabendo de meus defeitos e não tenho oportunidade de corrigi-los. Ansiedade continua. É fisiológico. Estudei muito muito mas fiz menos cursos.

Tive a oportunidade de me conhecer melhor em viagem com mais duas pessoas. Não gostei como ”me vi”. Estou ranzinza, tenho que fazer força para aceitar o que não gosto.

Viagem para outro hemisfério foi gratificante: encontrei Pedro Molina um ex aluno que é como filho, encontrei Jurema, minha filha na Itália há mais de cinco anos. Muito menos turistica do que de grandes emoções.

Não sou tímida. Faço contatos sociais facilmente. Acabei concordando que sou criativa (no tempo de professora inventei mil coisas). Vivo inventando coisas e no fim de ano sempre penso e faço coisa diferente para presentear e colocar na mensagem de festas. 

Continuo gostando e ouvindo muita música. Leio o que dá, menos do que eu gostaria. Tenho livros à minha espera e me “chamando” para serem lidos. Continuo gostando de presentear e elogiar e sinceramente não espero e não ligo para retorno. Nem gosto. Me sinto constrangida. Acho que também é patológico. Tenho sempre muitos compromissos mesmo que sejam comigo mesma.

Minha cabeça está sempre cheia demais. Não relaxo. Gosto muito de chuva desde que eu esteja bem abrigada e com guarda chuva. De preferência a pé. Esse gosto diminuiu muito desde que tenho uma OLA (Objeto para locomoção assistida) vulgo bengala. e aí é dificil andar com bengala e guarda chuva. Acordo mais tarde se estiver escuro (menos luz), mas não gosto. Perturba minha agenda.

Dou desculpas a mim mesmas para não fazer determinadas coisas e houve um tempo em que não tive muito ânimo nem motivação. Mas, isso foi passageiro.


2011
Continuo basicamente sendo aquilo tudo o que escrevi na minha primeira "Quem Sou Eu" de 2008. Estou mais ansiosa. Sinto a ansiedade até fisicamente. Nos meus horários, chego sempre mais cedo e fico aflita se por algum motivo me atraso.

Supero problemas com facilidade. Dou a volta por cima, pondero com tolerância e não bato o pé por qualquer coisa.

Cursos não foram muitos, mas estudos sim. Vivo no Google sempre pesquisando. Continuo com minhas três vertentes culturais: Música (com prioridade), Literatura o que dá e Artes Visuais só no MASP e em casa. Estudos sobre Memória foram mais assiduos pelo projeto aplicado.

Tenho facilidade de contatos sociais. Estou mais ousada, me chego às pessoas e aquela timidês incipiente acabou totalmente. Faço amigos com facilidade. Muitas pessoas dizem que sou criativa. Vivo inventando coisas. Mas, eu mesma não noto. 

Sou curiosa, presto atenção demais aos detalhes de pessoas, de ações. Minha atenção é sempre focada em algo diferente. Por que? Tem utilidade? Mesmo que não tenha, sou assim. Dou atenção a outros com pequenos gestos. Presenteio, elogio, gosto de agradar. Eu mesma às vezes penso que faço chantagem para que gozem de mim. Será? Não sei.


2010
Mudanças sempre acontecem. Tive um ano diferente em minha vida. Continuo estudando e produzindo muito. Quem mostra isso é a minha retrospectiva anual. Quando fui fazer o necessário backup o material não cabia em pendrive comum e nem em um CD. Tinha 3,24 gigabites e tive que usar um DVD. E aí é que me dei conta de quanto tinha estudado, trabalhado, escrito.

Consequentemente aprendi muito. Quando consigo tempo para pensar, aparece aquela velha ansiedade de querer passar para frente o que sei ou a pergunta “para que estudar tanto, nessas alturas da vida?” 

Pelo prazer, pelo simples prazer.E para me dar segurança nas minhas atitudes. O que continua igual são meus cinco campos de interesse – MUSICA, ARTE VISUAL, LITERATURA, CIENCIA E MEMÓRIA - Estou procurando me dedicar um pouco mais à Literatura. 

Procuro algum curso de Arte, de musica ainda não consegui, Ciencia só perspectivas, e Memória continuo lutando para trabalhar porque é algo em que acredito e batalho para motivar pessoas, principalmente idosos.

Continuo participante de pesquisas.

Durante os meus 46 anos de casamento, embora atendendo marido, mãe, pai, sogro, sogra, filhos e “anexos”, quem resolvia problemas domesticos era eu. Só eu. Quando Ayrton foi embora, eramos eu e minha mãe e eu assumi todas as responsabilidades. E aí ela também foi e eu ainda mais sozinha tinha tudo a resolver da minha vida. Raramente pedia um conselho.E isso criou um perfil de independencia pessoal muito acentuado.

De repente acontecem mudanças materiais. E a “população” da minha casa triplicou com a chegada de meu filho e seu amor de outono. São três agora as pessoas interagindo. Duas mulheres a cuidar da casa. 

Duas mulheres com idades diferentes, conceitos diferentes, costumes diferentes, energias diferentes, noções de tempo diferente, cada uma marcando um espaço seu. E um homem para interferir, ainda bem que filho. Arestas tem que ser aparadas, mas isso leva um tempo. O que vale é a cabeça de cada um, uma inteligencia atuante e sempre atenta, um “jogo de cintura” que às vezes cansa. 

O importante é o respeito que cada um deve ter para com o outro. Os acertos vão acontecendo, os espaços de cada um delimitados e de minha parte a tolerância não quer dizer submissão. É saber viver. Usando Fernando Teixeira (não Fernando Pessoa): “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.” Cada um quer ter seu espaço e volto a ficar sozinha


2009
O cerne, o eixo de “quem sou eu” não muda. Primeira constatação : estudei mais, tenho mais conhecimentos, me valorizo mais. Não me intimido com pessoas, sei o que quero, o que penso e estou segura na minha filosofia de vida. Considerava três os caminhos que mais me interessavam: a MUSICA, a LITERATURA e as ARTES VISUAIS. 

Na verdade esqueci de citar uma vertente cultural importantíssima para mim que é o estudo da MEMÓRIA. Trabalho com Memória há vários anos, estudo-a sob os mais variados aspectos e uso esses conhecimentos em trabalhos de vários tipos: historias de vida, historias de família, historias coletivas, resgates de Memória pessoal. Desde 1997 escrevo a história da família de maneira mais sistemática graças à minha chegada ao Museu da Pessoa que trabalha esse assunto em termos profissionais. 

Durante anos convivi com a pratica e trabalho do Museu, entrevistando, transcrevendo, editando Histórias. E então, MEMORIA ficou sendo meu outro centro de interesse. E então agora são quatro os meus caminhos. A Literatura está meio esquecida. Leio muitos textos que preciso para tarefas de aulas, seminários, mas não leio o suficiente para um lazer maior. E uma das razões é não ter com quem dividir os prazeres da leitura, as criticas e as considerações sobre um bom ou um mau livro. Acabo até falando sozinha.

Com a musica sinto a mesma falta de dividir emoções, mas já me acostumei a ouvir e sentir sozinha, saindo de mim mesma para dividir entre o eu e o outro eu o prazer da boa musica.
Em artes visuais também não divido opiniões. Não as tenho formadas e o compartilhar seria para aprender mais.

Em Memória sim eu consigo me realizar completamente. Nos Encontros de Resgate de Memória a realização é plena quando consigo clima para depoimentos que saem sinceros e completos. Conseguir ir buscar lá no fundo as memórias de infância, de juventude, escrever sobre elas, traçar sem querer um contexto social da época, constatar mudanças de vida no tempo e no espaço é uma realização daqueles a quem eu levo a encontrar um mundo que já foi seu e que acreditavam perdido. E logicamente minha realização também.


Alguém já me disse que esses encontros funcionam até como terapia. Outro aspecto que tem tomado força na minha vida somando-se a MUSICA, LITERATURA, ARTES VISUAIS e MEMÓRIA, é a ânsia de ensinar, de passar para os outros aquilo que aprendo. Faço isso informalmente quando solicitada.

De maneira formal fiz durante quase 30 anos de magistério, até 1980. Nos quase 30 anos seguintes não me liguei a jovens ou a cursos fundamentais, mas foi o que acabei fazendo por conta da entrada no Instituto de Biomédicas e departamento de Anatomia da USP. O grupo a que pertenço projeta modelos anatômicos com material simples (sucata mesmo) para ensinar Anatomia a jovens alunos. 

E aí a minha experiência entra e pode ser usada. Mesmo assim, aprendo muito. E me vejo fazendo esquemas de ensino, como fazia há 30 anos passados. Agora, 40 anos depois volto ao contato com alunos do curso fundamental mostrando e explicando como são esses aparelhos e sistemas reprodutores que tantos problemas me trouxeram. Mas, é muito diferente. A meninada sabe muito e é preciso saber muito mais para acrescentar ao que eles já sabem. 

É preciso ter muita segurança, uma linguagem própria, realismo sem fantasia. Volto a fazer esquemas, proponho estratégias interativas, com liberdade e de novo com prazer. E a outra vertente acaba sendo CIÊNCIA. E já são cinco os meus caminhos. Não tem o mais importante. Todos têm igual importância.

E na minha vida continua “tudo azul com bolinhas brancas” como dizia meu pai. Mas, na vida tudo muda. Mudam as pessoas, muda o ambiente, mudam os comportamentos, mudam os interesses, mudam os conceitos, mudam os sentimentos........


2008
Fico muito brava quando me chamam de Neuza Guerreiro ou Neuza de Carvalho. Não sou eu. Questão de identidade. Estou, saudável, ativa, ainda entusiasmada e motivada a procurar novos projetos, novas atividades.

Não me chamo velha, não estou na Terceira Idade – a vida não se conta pelo número de anos vividos; não estou na Melho/ridade – porque podemos encontrar coisas boas em qualquer etapa da vida; não gosto de Feliz/idade porque soa artificial. Abomino todos esses nomes inventados.

Mas Esther Alves Martirani propôs Longev/idade, Divers/idade,Oportun/idade e gostei. Na verdade me agradou mais a definição dada por um ex-reitor da USP, Jacques Marcovitch que chamou a nós de "Idade da Juventude Acumulada”.

Prefiro dizer, mais poeticamente parafraseando Machado de Assis: Estou naquela idade inquieta e duvidosa/que é um fim de tarde/e começa a anoitecer

Tenho uma idade cronológica, uma idade fisiológica, uma idade mental (cabeça sempre funcionando a mil por hora) uma idade cultural, outra comportamental. Sou como um camaleão e me comporto conforme a situação.

Tenho “jogo de cintura”. Juntar tudo isso em um termo só é no mínimo muita pretensão. Não sou uma. Sou “várias”, sou múltipla.

O meu lado filial não existe mais. Fui filha de alguém que aos 97 anos se foi, lúcida até o fim, mas inválida, presa a uma cama há vários anos. E em função disso, todo um mundo de responsabilidades se despejou em cima de mim. E felizmente, outra faceta de minha personalidade aflorou com os anos: tolerância, paciência e empatia.

Tenho a minha porção doméstica que eu chamaria de Administradora do Lar, onde sozinha tenho que cuidar de comida, manutenção de eletrodomésticos que estão envelhecendo, precisando de cuidados maiores.

Cuido principalmente do equilíbrio financeiro que é o mais difícil. Alterno minha cabeça com Platão, Sócrates, com conhecimentos do pensamento de um Lèvi Strauss, com providenciar suprimento de sabão, papel higiênico, bananas, mamões, arroz... Uma transição nada fácil.

Meu lado profissional é necessário, uma vez que não se vive apenas com pensão e benefício de um INSS. Reservas? Não mais. E tenho minhas necessidades culturais que custam caro. Amo livros, sei das novidades, dos lançamentos, mas não posso ter meus livros preferidos e necessários para me dar mais bagagem cultural. O dinheiro não dá. Administração financeira tenho que conhecer. Sou eu quem compra, quem usa racionalmente luz, água. 

Quem orienta possíveis auxiliares no uso também racional de comidas e tudo o que se usa numa casa. Tenho que dividir meus gastos com coisas essenciais e não essenciais. Entra aí uma escala de valores que é minha, pessoal. 

Não abdico de um jornal (ou mais de um quando posso), de livros. Não dá para viver sem telefone, sem celular (contatos profissionais e onde meu filho me encontra nas minhas muitas andanças), sem computador, porque é nele que todo o meu trabalho se desenrola, sem Internet, que me liga ao mundo, sem uma TV à cabo para assistir coisas boas e não só TV comercial nitidamente dirigida.

Moro bem por contingências da vida. Já estava aqui quando tinha melhores condições e agora é mais difícil sair do que continuar. Tenho um carro de 18 anos, mas é um a questão de auto estima. Sinto-me mais gente quando dirijo, quando tenho autonomia, mesmo que não faça grande uso dele.

Desloco-me muito bem de ônibus e metrô. Não tenho preguiça de andar e por isso vou a qualquer lugar. Agora não mais por conta de uma artrose de quadril ainda não corrigida.

Se tiver que dispor desse carrinho vai ser penoso. Vai me tirar uma raiz secundária, fincada lá no fundo de minha vida.

Todas as emoções amorosas vivi plenamente e as esgotei em 46 anos de convivência e compartilhamento com a minha outra metade perfeita. Tudo o que sou hoje é a somatória, a mistura desses anos todos. Aprendi a viver a dois, aparar arestas, ser tolerante e respeitar a individualidade de cada um. E isso fica para toda vida. E tenho orgulho de dizer que fui uma esposa-amante, como todo homem deseja.

Com os filhos tenho relações biológicas e emoções maternais que duram enquanto eu durar. Com os netos, tudo isso em dose dupla. Amoares diferentes, não roubam nada às emoções amorosas.

Hoje, dizem meus netos que sou empolgada demais com o que gosto, e faço questão de dividir com amigos tudo o que sei, o que aprendo e do que tomo conhecimento como coisa boa.

Sou IMPACIENTE, por conta talvez de minha deficiência auditiva. Mesmo ajudada por próteses auditivas nem sempre ouço o suficiente. Muitas vezes tenho que deduzir o final de uma frase para captar o sentido.

Barulho ou muita gente falando junto me irrita e não ouço nada. Tenho que administrar melhor esse problema.

GOSTO DE: - 
Musica – principalmente a erudita que ouço há mais de 30 anos, partilhada e comentada com aquele que me completou. É fundamental para mim. Vibro, me emociono, me empolgo e chego a sentir impacto orgânico quando a musica me evoca lembranças e emoções já vividas. Por isso curto demais. Óperas, concertos, recitais, pequenas peças. E conheço mais ou menos bem, não em teoria e instrumento, mas na vivencia. - 
Literatura – gostaria de ter mais tempo para ler e mais dinheiro para comprar livros. Sou eclética. Leio de tudo e não gosto de ler livros emprestados. Rabisco, marco, anoto, comento e sempre preciso de uma ou outra informação do livro em questão. E fico frustrada quando não o tenho. Best- sellers eu dispenso. - 
Artes Visuais – assunto que só há muito pouco tempo tomei conhecimento, estou entrando devagar nesse mundo, procurando entender para não ficar apenas nos Leonardo da Vinci, Michelangelo e Cézanne da vida. Hoje conheço alguma coisa de Picasso, Tomie Ohtake, Du Champ... Ainda não é prioridade. - 

Amo a minha cidade. Amo São Paulo de paixão. Estudo e conheço muita coisa sobre a cidade. Vou juntando matéria que disponibilizo para quem quiser. Tenho uma grande ANSIEDADE EM TRANSMITIR AOS OUTROS AQUILO QUE SEI. Não tem sentido acumular conhecimentos. Não na minha idade. Parece que quero aproveitar ao máximo o tempo que ainda tenho e que não sei quanto é. 

GOSTO de flores, por do sol, chuva, de certo perfume de qual alguém gostava, um vinho para acompanhar uma conversa, um chopinho em um fim de tarde quente. 

NÃO GOSTO o de quiabo, jiló e mocotó; o de Futebol;o de TV aos domingos;o de conversa fiada, “abobrinhas”. 

De resto, tudo está muito bem comigo. 

Sou MUITO FELIZ com o que tenho e não fico desejando o difícil e impossível. 

Como diria meu pai: ESTÁ TUDO AZUL COM BOLINHAS BRANCAS. Ou TÃO BOM QUANTO CHANTILLI COM MORANGO. 

Complementando: Desde 2008 comecei a usar um novo sistema de comunicação – o blog. 

Gostei e venho mantendo até então o meu blog pessoal da VOVONEUZA e desde março ultimo um Blog mais sério em que tenho responsabilidades e que escrevo só sobre São Paulo.



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