quinta-feira, 3 de novembro de 2011

UMA ARQUEOLOGIA DA MEMÓRIA SOCIAL- José de Souza Martins - comentários sobre o livro



UMA  ARQUEOLOGIA DA MEMÓRIA SOCIAL- Autobiografia de um Moleque de Fábrica
                                          José de Souza Martins – Um comentário
Depois de lido um livro, me cobro um comentario imediato. Neste livro não foi assim.Foi preciso um tempo de digestão e de assimilação para  que o comentário saisse à minha moda.
Não sou critica literária, não fiz curso de Letras e nem tenho a necessária formação para captar  as entrelinhas de um texto. Minha área é outra. Fiz Faculdade de Filosofia Ciências e Letras, mas na porção Ciências. Não tenho perfil  acadêmico e por isso não vou a fundo nas questões. Mas, sou uma leitora assidua e aprendi sozinha a separar o joio do trigo e mais ainda, um trigo de melhor qualidade do que  outros. Tenho esse direito.  Até os 18 anos, em minha casa  só havia dois livros: Geografia Geral e Gramática Expositiva. Na Universidade só lia livros específicos para  o curso. Só depois dos 30, já casada e com dois filhos, os livros entraram na nossa vida com  toda a força. Coleções ou livros avulsos, eles  e música, passaram a ser prioridade na nossa parte cultural. E desde então, perdi a conta do quanto li. De tudo.
Uns livros deixam mais marcas, outros menos, outros são excepcionais. Tudo depende da época, do contexto familiar, social e até econômico (quando o dinheiro é curto compram-se menos livros. Há bibliotecas, sim, mas não gosto de ler livros que ñão sejam meus porque faço anotações e rabisco comentários).
Feito esse preâmbulo explicativo, vamos aos fatos
Comecei a ler o livro UMA ARQUEOLOGIA DA MEMÓRIA SOCIAL no começo mais ansiosa, aproveitando todos os buracos de tempo em ônibus, metrô, salas de espera. Mas mudei  depois de sentir o sabor da  leitura. Então, passei a ler devagar para  demorar mais a terminar e saborear melhor. Cheguei ao fim, dei um tempo de assimilação, fiiz uma releitura básica e então sim estava em condições de fazer o “meu” comentário.
O autor já conheço bem dos seus artigos de O Estado de São Paulo (que tenho todos separados em arquivo próprio) e dos encontros em palestras e eventos. É um professor Emérito da USP, sociólogo. Tem sua formação acadêmica  completa, mas muito mais do que isso, tem sua formação pessoal e de vivência.
Antes de marcar os trechos mais significativos para mim, coloco post-its para facilitar  a chegada aos textos. E haja post-its. O livro ficou amarelinho das marcas.
Comentários de vários trechos.
 - Na primeira parte, a identificação com o autor foi completa. Também tenho raizes ibéricas. De Portugal por conta da familia de casamento e da familia proxima eram todos do sul da  Espanha.  Meu pai era o prório mouro.  O  que sei de uns e outros é apenas por transmmissão oral e nunca tive a oportunidade de chegar in loco para conhecer melhor essas raizes.
 -A descrição de seus primeiros tempos de escola (creche e externato) é genial quando liga a tudo isso o conhecimento histórico e o contexto social da época. Eu tento fazer um “registro” de minha vida que acaba sendo linear e não embasado com conhecimentos de sociologia, antropologia, psicologia e outras ‘”ias”da vida.
 - Na página 136 há todo um parágrafo  que é antológico
(...)  A mudança era de fato...........   a casa fortemente simbólica dos avós”  É preciso ler várias vezes para captar a força do simbolismo,
-A passagem da cachorrinha Lembrança, toca emoções escondidas principalmente quando ele diz ”foi ficando para trás e se dissolveu na poeira de sua própria cor numa curva da estrada.” Pura poesia.
- A pobreza retratada sem pieguismo mas factual quando fala na “associação para comprar um único frango a ser repartido entre duas famílias” E era Natal.
 - A história  da pulga e a citação instigante “ em casa de pobre pulga é convivente”
 -O trabalho infantil da catação de restos aproveitáveis no lixo dos terrenos baldios. E o que significa esse  trabalho para a própria criança. A vida livre das crianças de rua aprendendo de tudo, desde  o fumar um cigarro que então era símbolo de status de adulto, até o inicio da sexualidade natural , vivida e aprendida entre amigos.
 - A página 228 é para ser lida e relida para “brincar” junto com a confecção de um balão, um papagaio (pipa é coisa de carioca).
 -A superação de um ambiente hostil e o esforço para chegar a uma universidade. Ter que conviver com crenças absurdas, como o caso do sangramento do nariz que ele conta. “ os sangramentos  cessavam completamente quando, por sugestão de uma das vizinhas benzedeiras se usasse uma simpatia eficaz: deixar o sangue correr, recolhê-lo com uma colher  e colocá-lo no feijão a ser por ele comido”  ou “ tive que tomar leite tirado, na minha frente, do peito enorme de uma vizinha recém-parida para curar-me de algo que nem me lembro o que era”
 - A abordagem dos problemas religiosos comparando o catolicismo com o protestantismo, as atitudes de padres e pastores e uma citação interessante sobre Purgatório.” Purgatório foi uma  das melhores invenções da engenharia católica, um alívio sem dúvida para o enorme risco de arder  definitivamente no fogaréu do inferno, alimentado a enxofre. Alternativa de que os protestaantes não dispõe : ou a brandra do céu ou as chamas do inferno.”
 - um verdadeiro depoimento histórico sobre a Cerâmica São Caetano que retrata um tempo político - social . Um periodo de transição, de transformações. “De distanciamento social.Tempo da solidão da modernidade, tempo social do indivíduo e não mais tempo social da pessoa. “ “A história do cotidiano por meio da qual a História se deixa ver e ao mesmo tempo se esconde.”
A conclusão é um texto a ser lido, relido, digitado, impresso e colocado em arquivo especial para consulta.
Em resumo, é uma autobiografia escrita por quem entende do assunto, quem domina a sociologia, antropologia, psicologia, História... e sobretudo tem a mente e o coração abertos a usar de todos esses conhecimentos na análise e compreensão do que foi sua vida até  sua formação. E a emoção permeando tudo isso.
O que se escrever mais,  é redundante. 

Um comentário:

Anônimo disse...

Oi vovó Neuza, quero um e-mail de contato da senhora para enviar uma sugestão de pauta =)
obrigada, um beijo

raquel@voice.com.br