segunda-feira, 9 de março de 2015

A VÓZ DOS OBJETOS - UM SOFÁ CONTA SUA HITÓRIA

Volta outra vez a história do sofá, meu objeto biográfico por exelência.  Só que agora é ele quem tem vóz e é ele quem conta sua história.

Estou na Terceira idade. Mas não me chamem de “velho”. Prefiro dizer que ainda estou na ÚTIL  IDADE porque ainda continuo exercendo minha função. São 63 anos servindo a mesma família. Durante quatro gerações.
E pertencia à elite dos móveis, porque na casa onde fui comprado habitavam outros do mesmo gênero representando a melhor qualidade.
Os meus primeiros donos nessa época estavam em tempos e “vacas gordas”. Tinham comprado uma “mansão” e a mobiliaram com tudo a que tinham direito em quantidade e qualidade. Como o espaço era grande eu, com quatro lugares pude ocupar meu espaço com largura e para completar o conjunto, compraram também três poltronas que passaram a ser minhas “esposas” porque vivemos sempre juntos. Eu vivia flertando com elas, mas ficávamos distantes uns dos outros. Só nos aproximávamos mesmo em dia de limpeza quando éramos arrastados e podíamos nos chegar mais. Às vezes uns “amassos”.
Nessa época tínhamos a roupa original, vermelha, de um gorgorão grosso e vistoso.
A filha da minha dona era jovem, bonita, estudiosa, mas era sozinha quando eu cheguei. Mas, poucos meses depois encontrou o amor de sua vida.
Minha primeira grande noite de gloria foi quando ela foi ao seu baile de formatura.  Pode esparramar seu lindo vestido branco pelas minhas almofadas. Um registro fotográfico importante.

E uma das poltronas foi utulizada para a foto dos  ainda namorados  em noite de formatura formal. 
Ayrton e Neuza namorados em  1952

Às vezes os quatro – pais da moça e os dois jovens se encontravam na sala para uma foto. Outro registro importante porque com o correr do tempo esse 1952 foi uma marca. Sonhos a dois
João - Eudóxia - Neuza - Ayrton - 1952

Todo o namoro e todo o noivado foram sobre minhas almofadas. Foi sobre elas que a comunicação do namoro foi feita e aceita. Primeiros tempos de desacertos, de conhecimentos mútuos, ainda não um começo de vida a dois, mas se acostumando um ao outro, pé ante pé, devagarzinho. Os “selinhos” de agora, eram os primeiros beijos de antes. Beijos beijos mesmo, eram fora de casa, geralmente no cinema ou carro, roubados, escondidos.
 E aí, eu não via nada. Só imaginava
Mas, dois seres de sexos opostos namorando tendem a se aproximar mais, contatos físicos maiores. Fui testemunha de cada passo das primeiras intimidades “não muito íntimas”. Época dos boleros, muita música acompanhou o namoro e nos deliciavam também.  As letras, sensuais, eram perigosas. Muitas vezes tive vontade de fazer minhas molas rangerem para alertar os dois do “perigo”  eminente.  
Ouvi quando resolveram que as dúvidas já tinham sido desfeitas, as arestas aparadas e já podiam pensar em casar. Nesse ano de noivado o trabalho dos dois foi muito e nos poucos intervalos quando não estavam juntos, a moça bonita bordava belas toalhas de ponto cruz. A cada ponto um pensamento amoroso.
Às vezes eu ficava sozinho com minhas “esposas” porque a vida da família acontecia em outro espaço da casa. Ainda bem que o velório do avô não foi nos meus domínios.  Tremi só de pensar antes que a família resolvesse que seria na sala de jantar.  Livrei-me de boa. Eu não conhecia bem o velhinho avô porque ele era discreto e quando ficava para “tomar conta” do casal, ia dormir no seu quarto e eu ficava só dos dois.  Mas, cuidadosos, nós quatro “vigiando.”
Casamento. Outra noite de gloria quando a noiva amorosa, ansiosa e expectante se sentou nas minhas almofadas, solteira pela última vez, para o registro fotográfico indispensável.



Mudamos de casa pela primeira vez. Mudamos não só a “minha família’ - eu e as minhas três “esposas”, mais o jovem casal. Espaço menor, nem sei como coubemos. Melhor para o aconchego de todos.
Continuamos com a mesma roupa de gorgorão vermelho até perto de chegar o segundo bebê da nova família. Nessa época minha roupa já estava rustida, gasta de tanto servir como cama para um hóspede temporário, como mais tempo de bumbuns sentados e começando os tempos de pula pula de criança.  Não gostava muito, mas tinha que me acostumar. Principalmente eu porque ninguém pulava nas minhas “esposas”, as poltronas.
O vermelho sangue da minha roupa foi mudado para uma cor mais triste, mas mais prática para aguentar agora duas crianças. Era cor de cinza com mistura de brancos.  Quando nos tiraram pela janela para irmos trocar de roupa, o menininho chorou. Não queria que eu fosse.  Porque gostava muito de mim. Foi emocionante sentir o apego de uma criança.
Ainda fiquei quatro anos nessa segunda casa, cada vez mais apertada, agora com duas crianças a cruzar quartos, sala, cozinha e até o consultório do pai que era no mesmo espaço.
E aí mudamos de novo de casa. Uma casa agora, não mais um apartamento. Sala grande onde pudemos nos acomodar com conforto. Nossa roupa já muito usada teve que ser mudada de novo.  Não sei o que deu no casal que nos vestiram de plástico branco. Dá para imaginar o horror? Não tinha nada a ver com nosso estilo. Plástico!!!!!!  Branco!!!!! Em um instante estávamos sujos, encardidos e a mudança seguinte teve que ser meio rápida.
Mas, também não tivemos sorte. A cor era linda – um bege amarronzado tecido em listas. Mas, quem fez os “vestidos” não tinha competência, nem gosto e nem capricho. As listas do assento nunca combinaram com as do encosto. Um horror. Diferente do plástico branco, mas mesmo assim, um horror. Tivemos que carregar esse desconforto por um bom tempo porque a verba para “costureiras” tinha acabado. Não pense que minhas esposas gostaram. Elas eram muito submissas e não davam palpites. Só eu é que reclamava. Comigo mesmo é claro
Nesses dois horrores passaram-se uns 10 anos. Épocas de muito trabalho, muito movimento em casa, crianças crescendo, fomos totalmente ignorados embora participássemos de conversa, de decisões de trabalho e de convivência, ouvimos muita música, presenciamos muito trabalho.
O tempo passou e hora de renovar as coisas chegou.  Nós já tínhamos uns 25 anos o que para um móvel é sobrevida grande.
Minha maioridade foi presenteada com o ambiente mais lindo em que morei.  A compensação para os horrores anteriores veio sob a forma de cores combinando. Combinando mesmo. A sala foi pintada de azul em três tons: o teto era azul claro, as paredes de um azul médio e um detalhe proeminente da sala era azulão. A cortina era do maior bom gosto. Em listas transversais em vários tons de azul davam à essa parede de oito metros (que era de janelões para fora) o aspecto de um palco de cinema. 
E nós, eu o sofá e minhas “esposas” fomos agora vestidos de azul marinho numa perfeita combinação.
Dessa maneira linda recebemos os convidados para a festa de duas bodas de ouro: pais do casal. Serviu também de palco para o casamento da “criança” da casa que se casou nos nossos domínios com um vestido também azulão combinado com o ambiente.
Já então a sala tinha até uma grande televisão e nós éramos pouco ocupadas porque almofadões no chão nos dava uma folga.
O tempo passa, um bebê vai chegando e com a renovação da vida, renovam-se também os ambientes. Agora a cortina é branca, vaporosa e nossa roupa volta a um cinza e branco quase igual àquele segundo traje. Apesar de quatro crianças em casa, não sofremos muito. Havia muito espaço para o quarteto correr, brincar, azucrinar, e encantar os avós. E os bisavôs. Por incrível que pareça nenhum dos cachorros jamais subiu sobre nós. Nem Quem-Qüem, nem Pinduca, nem Paloma. Mesmo quando os quatro cachorros estiveram um tempo na casa – Paloma, Pamina, Sol e Lua – nenhum ousou subir nos nossos colos. 

Aos poucos tomando seu rumo, os jovens da casa vão nos deixando e quando foram  apenas  quatro (dos  12 e às vezes 14) os personagens da família que estavam juntos, nova mudança. Agora outro apartamento, mas escolhido porque cabíamos eu o sofá e minhas “esposas”.  Se não coubéssemos, acho que desistiriam do apartamento, mas não de nós. Uma das esposas correu o risco de ser abandonada, mas com jeitinho ficamos juntos todos nós e também quatro.

E novamente mudamos de roupa, agora para um tecido cor de mel. Ficamos bem bonitos todos. Tínhamos então muita luz, uma vista maravilhosa e um pouco mais de sossego. Digo um pouco, porque muita mamadeira foi derramada sobre nossa roupa, muito xixi escapado, muitos pezinhos pulantes nos “agrediram”.
Nova troca de roupa. Um gobelin original, bem de acordo com nosso estilo. Bem vestidos já mostramos uma “osteoporose” manifestada pelos rugidos da estrutura e a nossa pele mostra já “escaras” em vários pontos. Nada que um novo empalhamento não resolva. Só tem uma das esposas, a mais usada, que aguarda a sua vez de cirurgia de empalhamento. Como é uma cirurgia mais invasiva, há que dar um tempo.
Na nossa atual vida já estamos meio desbotadas, marcadas pelo uso agora de adultos, mas temos o orgulho de ser “objetos biográficos” da família. Toda uma historia de vida passou por nós. Testemunhamos durante esses 63 anos noivados com abraços e beijos, casamentos, nascimentos, desaparecimentos, épocas se acertos e desacertos, de fases construtivas, de convivências às vezes conturbadas, de amizades nascentes e continuadas.
Na minha infância eram quatro os que se sentavam sobre minhas almofadas. Depois foram três depois dois e agora só tem uma da família próxima a me cultuar, me endeusar e me dar o valor simbólico de sua família, de uma História. Alguns anos mais (ou não) não haverá mais ninguém para me olhar com carinho, com olhos de lembranças e respeito.


 Aqui já falta o biso (bisavô) João



                                                            Aqui falta o Ayrton



                                         Aqui falta Eudóxia - Eu, Neuza estou sozinha


Pera aí!!!Pera aí!!
Nada de pensamentos piegas, pessimistas e fúnebres!!  Tanto quanto foram desaparecendo as pessoas mais ligadas a mim, foram aparecendo novos usuários e a vida se renovou com agora quatro já adultos que vez por outra se encontram, sentam-se sobre mim e tiram clássicas fotografias de registro. Já quase não cabem nos meus quatro lugares.




Victor – André – Neuza – Tiago – Bruno    espremidos no sofá


 A História vai ter continuidade em 2015























3 comentários:

Carolina Botelho disse...

Que texto lindo, cheio de ternura, ao ler foi como assistir um filme.
Um abraço carinhoso o/

Hilda Araujo disse...

Belo texto, Neuza. ideia maravilhosa dar voz aos objetos. Um grande abraço.

Ana Maria Brasiliense disse...

Sentei nesse sofá, conversamos muito na sala azul era linda aconchegante, lembro de uma almofada se não me engano azul marinho que pintei um rosto feminino, parecia que da almofada saia... bons tempos que pude desfrutar do carinho teu e Ayrton... bjs Neuza um dia vou te reencontrar e te abraçar bem forte .