quarta-feira, 29 de julho de 2015

EDWARD HOPPER -O PINTOR DA SOLIDÃO


Em 2008 tomei conhecimento de Edward Hopper através de um curso de Produção de Texto da Universidade Aberta à Terceira Idade
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A profa. Teresinha Tagé apresentou imagens desse pintor, sugerindo que escolhêssemos uma delas e montássemos uma história imaginada pela imagem. 

Não escolhi, usei as oito apresentadas e ainda procurei uma biografia do pintor.  Textos curtos, de minha imaginação “na época” e com os títulos que eu imaginei. Isso foi em abril de 2008

Biografia de Edward Hopper- Nascido no estado de Nova York, em 1882 e falecido em 15 de maio de 1967 Ao completar sua educação formal, Hopper fez três viagens pela Europa para estudar arte europeia, mas diferente de muitos de seus contemporâneos que imitavam as experiências abstratas do cubismo, escolheu o realismo
Em 1925 ele produziu Casa ao lado da ferrovia, um trabalho clássico que marcou sua maturidade artística. Foi usada como  modelo  no filme Psicose de Hitchcok



Edward Hopper  foi um pintor Realista Imaginativo, retratando com subjetividade a solidão urbana e a estagnação do homem causando ao observador um impacto psicológico.
A obra de Hopper sofreu forte influência dos estudos psicológicos de Freud e da teoria intuicionista de Bergson, que buscavam uma compreensão subjetiva do homem e de seus problemas.
O tema das pinturas de Hopper são as paisagens urbanas, porém, desertas, melancólicas e iluminadas por uma luz estranha. Expressão de solidão, vazio, desolação e estagnação da vida humana, expresso pelas figuras anônimas que jamais se comunicam. Pinturas que evocam silêncio, reserva, com um tratamento suave, exercendo frequentemente forte impacto psicológico.
Os oito trabalhos que escolhi para descrever o que eles me sugeriam foram:



IMAGEM 1 – ESPERA



A espera é sempre algo angustiante porque é o desconhecido. O que se espera pode ou não acontecer pode ou não ser agradável. Por isso a expressão preocupante é reconhecível na fisionomia de quem espera.
.L.. vive numa pequena cidade com sua mãe.  Há dias recebeu uma carta que a surpreendeu e a deixou estarrecida; Foi difícil disfarçar quando sua mãe perguntou sobre o remetente. Inventou uma história possível: uma antiga amiga que morava em outra cidade contava as novidades.  Na verdade, a carta era de uma pessoa que se dizia sua irmã. Contava que J... como viajante tinha duas famílias em duas cidades diferentes. Sempre teve manejo da situação de modo que durante mais de 20 anos as famílias não se conheceram nem sabiam da existência uma da outra.
Mas, J... havia morrido  e a  outra mulher também. Já era tempo do que restou das famílias se conhecerem. M... queria conhecer a irmã porque  ela se sentia muito sozinha. Queria a companhia de alguém ligado por laços de sangue. Era uma necessidade afetiva.
L... guardou a carta, não  contou nada à mãe. Não queria faze-la sofrer antes da hora. Marcou um encontro com essa irmã desconhecida para conversar e resolver o que fazer
Nessa espera ficou lembrando toda sua vida e por isso parecia absorta em pensamentos quando foi flagrada por um “fotógrafo”. Está se perguntando: Como vai ser daqui para frente? Vou gostar dessa irmã desconhecida? Como minha mãe vai receber a notícia?   Ainda não tem respostas.

IMAGEM 2 – CONFIDENCIAS




Cidade pequena, interiorana, não oferece muitas diversões. Trabalhos não muito interessantes. Os rapazes da cidade já migraram para outros espaços, procurando novas vidas. Os que ficaram eram disputados ferozmente pelas moças. Mas quase todos já tinham compromissos.
A... e  D... são amigas desde a infância. Não são muito bonitas e por isso os homens não se interessam por elas.  Nasceram no lugar e desde que puderam entender de sentimentos se ligaram por grande amizade. Trabalham no mesmo escritório, tem os mesmos horários de folga que usam para trocar confidencias.  Falam uma para outra de seus sonhos, de suas fantasias, de seus desejos. 
Nesse dia falam baixo porque há um casal em outra mesa. São da cidade e A. não quer que ninguém as ouça.
A... conheceu H...de outra cidade, que estava de passagem. Se enamoraram, se amaram e chegaram à vias de fato. E agora as consequências já aconteceram. Durante o café da tarde, conta o seu drama para D... O que vai fazer? Em uma época de preconceitos fortes, a sua situação daqui para frente será desesperadora.
D... apenas ouve. Não pode entender porque nunca teve um homem que a tocasse. Não tem condições de dar qualquer conselho que seja à amiga. E por isso está angustiada.
Romântica e esperançosa A... ainda espera que H... volte. Mas D... mais realista sabe que isso não vai acontecer.


IMAGEM 3 – ASSIDUIDADE NO TRABALHO





As pessoas têm sempre o seu jeito de ser, as suas personalidades. Algumas são assíduas, responsáveis, honestas e colocam suas obrigações em primeiro lugar. São vencedoras embora nem sempre sejam felizes. Mas, sempre são respeitadas.
C... é uma funcionaria graduada em uma empresa que ensaia os primeiros passos na emergente indústria de armamentos. Afinal, já é 1938 e a guerra mundial já faz as primeiras vitimas. C... chegou ao posto pelas suas qualidades, mas isso é um farto pesado nessa época.
Precisa levar dados de uma empresa para outra em outra cidade Recolhe os documentos, apruma-se e toma um trem, sempre temerosa de algum ataque. Mas, não teve tempo de conferir o que os documentos dizem. E então, aproveita a viagem para conferir dados, planejar estratégias de comportamento na reunião que vai presidir.
Às vezes gostaria de ser menos responsável. Aproveitar a viagem para gozar a paisagem, ou mesmo não pensar em nada. Mas não dá. Ela é desse jeito e nunca vai mudar. Mas, se realiza assim. É feliz assim.



IMAGEM 4 – DESPEDIDA




Fim de noite. Madrugada.   Ainda um tempo de guerra. Tudo é transitório, tudo é da hora, do momento.
Soldados em folga procuram desesperadamente por prazeres imediatos.  Até se vestem com civis para se sentirem mais “normais”. Procuram “mulheres da vida” ou “a mulher de sua vida”.
O nosso casal sonhava com um casamento desde meninos quando pela primeira vez se sentiram um homem e uma mulher. Sonho de moça, expectativa de rapaz. A guerra os separou durante muito tempo. E então em um reencontro inesperado resolveram se amar como sempre tinham sonhado. Felicidade transitória, curtinha que continuou no balcão de um bar onde passaram o que restava do tempo deles. Um fim de encontro, um “depois” triste e a esperança de um novo encontro. Despedida dolorosa e amarga.
Do lado oposto do balcão alguém sente uma grande tristeza porque está sozinho, porque sua vida não tem sentido e porque sua companheira o deixou para ir embora com outro que não tivesse que voltar á guerra.
Indiferente a todos os dramas à sua volta, o garçom serve cafés para o casal e bebida para o solitário. 

IMAGEM 5 – PERDA




Durante a semana a loja esteve festiva.  É primavera e há maior variedade de flores. Mas, esta não é uma floricultura qualquer. É a melhor, mais sortida e mais simpática floricultura da cidade.
L... e J...são um casal e cuidam de suas flores com todo o carinho que teriam dedicado a um filho se o tivessem. As flores são seus filhos e filhas. L...J... ficam felizes quando aparecem na loja moças ajustando decoração da pequena igrejinha do lugar para o casamento sonhado. Usam angélicas e lírios.
Dobra a felicidade quando podem também fazer o buquê da noiva feliz. Geralmente de rosas brancas.
E acompanham a nova vida do novo casal esperando para depois de um ano (ou menos?) entregar ao feliz pai o ramalhete com que ele vai presentear a nova mamãe.
Foram os momentos felizes de suas vidas compartilhadas.
Não gostam muito de fazer coroas para enterros.  Representam tristeza. É sempre um amigo que vai porque nesta cidade todos são amigos.
Hoje é domingo. As portas da Floricultura estão fechadas. As flores, já estão murchas porque não foram tratadas.
L... Deitou feliz e não acordou. E foram para ela as coroas que J... teve que fazer
Sozinho, sentado no degrau de sua casa de portas fechadas, ainda sente o cheiro dos lírios, dos lilases e das rosas com que cobriu o lugar do último descanso de L...
E, a solidão pesa. É um fardo muito maior do que ele pode aguentar. Certamente não mais trabalhará com flores. Depois de colocar em ordem toda a contabilidade – o que já começou, arregaçando as mangas - vai mudar de cidade, procurar outros ares onde seja mais fácil viver sem a sua L.

IMAGEM 6 –   SERÃO




Problemas em um escritório são atemporais. Qualquer que seja a cidade, qualquer que seja o tempo os problemas são os mesmos. Sempre o “que fazer” é mais do que o “tempo para fazer”. Sobra serviço que tem que ser feito depois do horário do expediente.  São os afamados “serões” que quase nunca são serões mesmo, mas desculpas para outro tipo de “atividade”
F.. tem uma pequena empresa com um escritório e durante o período de guerra pouco tem a fazer. Para sobreviver tem que ter muita criatividade, usar de estratégias inteligentes. Foi assim que conseguiu para sua pequena empresa uma encomenda já de material bélico. E tem prazo curto para entregar. Por isso tem ficado até mais tarde no trabalho.
Sua ajudante N... também fica. É uma moça bonita, atraente e “como a ocasião faz o ladrão” acabam por se desejar. Nada de sentimento, nada de emoção. Só necessidade física que ele não satisfaz com a mulher. Seu casamento já não anda bom, mas por causa dos filhos e da situação de guerra que é anômala, continuam juntos.
E os “serões” se repetem sempre. Às vezes por serviço, às vezes não.
Situação especial de um tempo especial.

IMAGEM 7 – ESTRANHOS



Um bar, um café, é sempre um espaço impessoal. É o oposto de uma casa onde todos convivem se conhecem e são pessoas com interesses comuns e comportamentos idem.  No bar ou café estão durante um tempo limitado as mais variadas pessoas, de sexos iguais ou diferentes. De idades compatíveis ou não.
Nossos personagens são de sexos diferentes.
A moça ocupa uma mesa sozinha, imersa nos seus pensamentos.   Está apreensiva e preocupada com o noivo que já partiu para a guerra. Não aguenta a atmosfera opressiva de sua casa onde tudo é tristeza. O irmão já morreu nos primeiros combates e a perspectiva que tudo aconteça de novo a deixa tensa, calada e angustiada. Não toma conhecimento do mundo à sua volta.
O rapaz também está sozinho e a solidão pesa. Sem suspeitar do drama da moça está tentando atrair seu olhar para iniciar uma conversa e quem sabe algo mais.  Como não sabe de nada, tem esperanças.
Paira no ar uma incerteza de um e de outro.

IMAGEM 8 – PARADA TECNICA






No meio do nada, onde só o verde da floresta domina, a estrada amarela corta o chão e liga a localidade A à localidade B numa extensão bastante grande.
Em tempos de guerra, não há passeios, não há viagens. Mas sempre há necessidade de paradas técnicas.
Testemunha de um tempo de paz e de vida alegre e dinâmica, as três bombas de combustível agora parecem esqueletos vermelhos com cabeças brancas aguardando a morte definitiva. Pouco combustível circula por elas e as três bombas só estão de pé ainda por solidariedade umas com as outras. Uma só seria suficiente.
Junto com elas está o guardião desse posto avançado. Sozinho, tem necessidade de conversar, pelo menos para ouvir a sua própria voz. Exulta quando um velho, amassado e enferrujado automóvel para por necessidade técnica do veículo e do condutor. Se for um casal até oferece pouso para ter companhia.
Com esse pensamento se alegra quando vê no horizonte algo móvel de quatro rodas se aproximando. Mas, é um veículo militar que vem confiscar o combustível.
Nada mais há a esperar. Entra no escritório, abre a gaveta e com o também velho revolver põe fim à sua angustia.


Como encontrei muitas outras imagens significativas, que expressam solidão, complementei o trabalho com elas









                                                          


                                                          


Um comentário:

Nora Pires disse...

Fiquei encantada com o blogger Vovó Neuza, muito me identifiquei com seus escritos e com certeza servirá de estímulo para que eu possa organizar minhas memórias e atualizá-las em meu blooger.
Abraço fraterno!!!
Nora Pires