segunda-feira, 23 de outubro de 2017

REPUBLICANDO CRÔNICA DE LOURENÇO DIAFÉRIA EM 1996


Pode-se republicar uma crônica de 1996 quando ela é atualíssima? Acho que sim, desde que se dê o crédito a seu autor.
Lourenço Diaféria -  (São Paulo28 de agosto de 1933 — São Paulo16 de setembro de 2008) foi um contistacronista e jornalista brasileiro. Na Folha de são Paulo começou como cronista em 1964, quando escreveu seu primeiro texto assinado.
Permaneceu no periódico paulista até 1977, quando foi preso pelo regime militar devido ao conteúdo da crônica Herói. Morto, Nós    considerado ofensivo pelas Forças Armadas.  Tem sua coluna censurada, e é processado. Três anos depois, é absolvido desse processo e volta a escrever.
Suas crônicas são sempre de acontecimentos do momento, tem humor, “critica” sutil e uma maneira gostosa de ser lida.

E então,  estou republicando uma crônica de Lourenço Diaféria : ela  cabe certinho no nosso cotidiano. Boa lembrança a de Evangelina que quis compartilhar comigo essa bela crônica. Na sequência e eu compartilho com, “o mundo".

Aqui vai ela:

CLIMA, OFERECE- SE...
                                                         Lourenço Diaféria
            ( crônica publicada noFOLHA DE SÃO PAULO  em 1996)
NINGUÉM CONSEGUE ENTENDER O CLIMA PAULISTANO. DEVE SER FALTA DE BOA ADMINISTRAÇÃO.

Estava este tonto sentado no sofá, esperando as boas notícias do telejornal da noite, o apresentador anuncia a novidade: uma empresa estatal do RJ havia sido vendia, em leilão, com lances lacrados, para um grupo de empresas particulares. Quando o leiloeiro bateu o martelo na mesa do pregão, houve como que uma confraternização. Sorriso, abraços, euforia. Alguém deve ter feito um bom negócio. Entre os compradores, um grupo português e um grupo chileno.  Os portugueses, tudo bem. Os portugueses sempre apostaram no Brasil, mandaram caravelas em 1500. Penso que nós, brasileiros, devemos um mínimo de gratidão aos patrícios de Pedro Alvares Cabral, afinal de contas o pau-brasil somente conseguiu mercado internacional graças à iniciativa lusitana. De modo que, se temos uma empresa estatal que não esteja dando bons resultados  econômicos e financeiros, nada mais justo, que vende-la aos portugueses. Eles saberão como reergue-la e fazê-la prosperar.

Porém, não atino com a presença dos chilenos no leilão. Nossas relações com os chilenos não são tão cordiais assim. Nunca tivemos no Brasil um rei chileno, mesmo caravela chilena, nunca ouvi dizer que houve alguma enfrentando nossas calmarias marítimas. O Chile nunca deu presentes para nossos índios. Ao contrário, só nos criou problemas com o goleiro Rojas. Então por que o Chile se interessa por uma empresa estatal brasileira? Será que eles querem limpar a barra perante e história e se fazer de bonzinhos?

Já me tentaram dar explicações. Alguém disse que, no mundo moderno, as fronteiras geográficas são dissolvidas pelo poder econômico internacional. E o poder geoeconômico, que pode ser sintetizado pela palavra dinheiro, em seu sentido mais difuso não tem uma pátria. De modo que um grupo chileno não significa necessariamente que seja constituído por chilenos, ou seja, por bebedores de pisco. São investidores. E o investidor aqui e em qualquer parte, não precisa apresentar certidão de nascimento. Basta ter um crachá e saber fazer negócios.

Então o BRASIL deve aproveitar a maré e fazer também um bom negócio. Sugiro que o GOVERNO venda para a iniciativa privada, para os grupos internacionais, o CLIMA PAULISTANO.  É possível que os chilenos não se interessem, mas os chineses, bem conversados, poderiam dar o lance. O CLIMA PAULISTANO, como a VIA DUTRA, a COMPANHIA VALE DO RIO DOCE, antigamente funcionavam muito bem. Ninguém pensaria   desfazer-se deles. Mas de uns tempos para cá o CLIMA PAULISTANO vem dando mancada atrás de mancada. Ninguém consegue entende-lo.  Deve ser falha de uma boa administração. No momento que escrevo esta crônica, oferecendo à venda o CLIMA PAULISTANO e convocando possíveis interessados, fico na dúvida se devo deixar à disposição do público todos os segredos do mesmo. Sim, o CLIMA PAULISTANO oculta em seu seio peculiaridades que o tornam único e insuperável, como fonte de dissabores. Os únicos que elogiam são os farmacêuticos.

Todo clima normal tem quatro estações básicas: primavera, verão, outono e inverno. O CLIMA PAULISTANO vai além, tem o verão quente, o verão morno, e o verão que ninguém aguenta. O outono oferece o outono de meia estação, de alta estação e o outono imperceptível. O inverno pode ser frio, mais frio, bem frio enregelante e tépido. A primavera, esta nossa PRIMAVERA PAULISTANA, é típica. Tem flores, passarinhos, namorados, chope, gripe e pneumonia.

O CLIMA PAULISTANO é um no LIMÃO, outro no BUTANTÃ, outro na CIDADE UNIVERSITÁRIA, outro na PRAÇA RAMOS DE AZEVEDO, outro na CONSOLAÇÃO, outro na VILA DAS MERCÊS, outro no MORUNBI, outro na PERIFERIA. Muda a temperatura de quarteirão em quarteirão, de esquina em esquina, de escritório em escritório. Poder estar chuviscando no VIADUTO DO CHÁ e fazendo sol em SÃO MATEUS. O CLIMA PAULISTANO está acima, aquém, além das previsões meteorológicas. O CLIMA PAULISTANO é cheio de truques, mumunhas, artimanhas, malícias, armadilhas. Está sujeito a espirros   imprevistos, corizas inesperadas, rouquidões insuspeitas e céu azul completamente fora de propósito. Mesmo quando o CLIMA PAULISTANO ameaça formar-se em definitivo e tomar juízo, sempre aparece uma frente fria que a ARGENTINA envia para SÃO PAULO, disfarçada em caixas de manzanas do Rio Negro. Não há aspirina que aguente esse clima.

Está na hora do GOVERNO desfazer-se do CLIMA PAULISTANO, que só está dando dores de cabeça à população da cidade. Se nenhum país do MERCOSUL topar fazer negócio, o GOVERNO deve devolvê-lo aos portugueses, de graça.


Salve Lourençao Diaféria - Nós os paulistanos te saudamos.
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2 comentários:

Anônimo disse...

Adorei a republicação desta crônica, que se torna tão atual. Interessante os dados biográficos de Diaféria. Não tinha conhecimento. Parabéns pelo seu excelente trabalho ... Bjs Evan

Valeria Fontan disse...

Otimo