domingo, 8 de outubro de 2017

DE VOLTA À CASA DAS ROSA (AV. PAULISTA 37)

Sempre volto aos lugares significativo de minha vida. A Casa das Rosas é um deles. 
Já escrevi muito sobre ela, já trabalhei os meus Encontros nela, já servi de guia dentro dela, conhecendo cada pedacinho e seu significado. Em um tempo fiz da Casa das Rosas o meu espaço quase cotidiano nos muitos cursos que aconteciam por lá.
Deve estar tudo isso em um dos textos do meu blog, mas não consigo achar, provavelmente perdido entre os mais de 500 textos que publiquei desde 2008. E nesse caso o jeito é republicar quando a Casa das rosas volta à minha rotina de procurar espaços significativos da minha São Paulo e principalmente quando ela me oferece momentos de música.

Nesta sexta feira 06 de outubro de 2017 voltei a caminhar pelos jardins da Casa das Rosas porque era nesse jardim que haveria em um intermezzo entre manhã e tarde com música oferecida pelo LAMUC – Laboratório de Música de Câmara do Departamento de Música da ECA-USP.
Nota - Nos aproximadamente 100 concertos anuais organizados pelo Laboratório, todos os grupos de música de câmara têm a oportunidade de se apresentar em público nos diferentes espaços com os quais o Laboratório mantém parceria regular, dentro e fora do campus da USP, como por exemplo a Casa ds Rosas.Seu coordenaddor é o     Prof. Dr. Michael Kenneth Alpert, que eu encontrei lá depois de, pelo menos 10 anos, quando ele já se apresentava nos jardins do então MAC-USP.
Desta vez o LAMUC nos brindava com um  conjunto nordestino, DONA CRO. Com uma bela Ginga, entusiasmo, bela voz , letras bonitas e instrumentos simples, cantaram Luiz Gonzaga, Sivuca, Hermeto Pascoal.....
O conjunto Instrumental Dona Cro é Formada por Ailson Junior (Voz e Percussão), Chico Bahia (violino), Iuri Galati (Voz e Violão), Jhonatan Pereira (Escaleta), Rommel Monteiro (Percussão) e Taio Nascimento (Percussão).



Mais de uma hora de um som brasileiro, um entusiasmo contagiante, acompanhado até por passarinhos que iam se chegando e pousando nas árvores próximas, com certeza atraídos e conquistados pelos belos sons.
Momentos partilhados com amiga e antiga frequentadora da Casa das Rosas no projeto ESCREVIVENDO já então nos acrescentando conhecimentos literários.

Ao som da música e visual diferente do local   chamavam a atenção as correntes humanas nos dois sentidos circulando entre a Alameda Santos e a Av. Paulista certamente indo ou voltando do almoço e se preparando para o trabalho do último período da semana.

diversidade muito grande, característica da cidade de São Paulo. Crianças (poucas) voltando ou indo para escolas, idosos, nas suas andanças de distração, mas a maioria de jovens adultos homens e mulheres “trabalhadores” da região. De todas as nuances de pele, desde os mais branquinhos aos “torrados” ou totalmente “torrados”.  Todas as cores e modas de roupas, desde contidas secretarias em suas roupas formais até “meninas” jovens ou nem tanto, que aproveitando o dia de sol e calor não perdiam a oportunidade de exibir as belas pernas” mesmo as não muito “meninas” e passando da conta em quilos.

Isso é São Paulo  -  DIVERSIDADE
.
Ia saindo e me lembrei do MANDACARU, de quem tanto tinha escrito há pelo menos 3 anos.  Onde ele está?  Na reorganização do jardim não tiveram dúvidas de tirá-lo do seu lugar, ignorando sua bela história. Ainda tenho a esperança de que alguém me informe o que foi feito dele.
E na sequência, resolvi republicar o que já tinha escrito em 2014. Sempre haverá leitores novos.

Aqui vai do Texto:

O MANDACARU DA CASA DAS ROSAS - uma história dentro da história da Casa
Avenida Paulista nº 37 - Casa das Rosas.  Tem sua história contada e recontada. Tem sido visitada e revisitada.



Casa das Rosas recém-terminada, em 1935

Residencia familiar até 1986, tombada pelo Condephaat em 1985 foi salva da demolição pela “lei 9.725 de Transferência de Potencial Construtivo de Imóveis Preservados, aprovada pela Câmara Municipal em 1984, que dá ao proprietário do bem tombado o direito de vender as áreas não construídas do terreno, desde que o novo proprietário assuma os custos de preservação das edificações de valor histórico. “  - 0 Jardim das Resistências –pag 80.





 Vista aérea da Casa das Rosas logo depois do tombamento
Casa das Rosas e Edifício Parque Cultural Paulista – final de 1980

Desapropriada pelo Governo do Estado quando seu restauro e o Parque Cultural Paulista ficaram prontos em 1991, a Casa transformou-se em uma Galeria Estadual de Arte, função essa que durou até 2003 e passou por várias gestões.
 Em 1995 durante o governo de Mario Covas, o pintor, videomaker, performer, escultor, escritor, músico e curador José Roberto Aguilar foi convidado para dirigiu a Casa das Rosas. Durante sua gestão o número de produções foi grande.
Entre outras coisas, no segundo semestre de 2000 produziu a mostra “Rosas Rosa – Emblemas e Movimentos com a obra Grande Sertão: veredas de João Guimarães Rosa interpretada por nove artistas plásticos e nove videomakers.

E entra aqui a história do Mandacaru da Casa das Rosas, presente desde então, nunca percebido, nem comentado nas várias vezes em que se falou da Casa.

Recuperada a história através de minha amiga Esther Martirani, pedi-lhe um texto, ela escreveu. Com autorização de Esther e de seu filho Ricardo Pichi Martirani eu reproduzo o texto na íntegra.


A odisseia do mandacaru da Casa das Rosas - Texto de Esther Martirani


Para a exposição “Rosas Rosa – Emblemas e Movimento” sobre o escritor mineiro João Guimarães Rosa, organizada pela Secretaria de Estado da Cultura e realizada no anexo Casa das Rosas no ano 2000 foi solicitada uma participação ao videoartista Ricardo Pichi Martirani que se decidiu por uma vídeo-instalação. Num arroubo poético, resolveu dar à mesma um título com verso alexandrino: “Riobaldo Guimarães Diadorim das Rosas”.

Para essa criação, segundo seu relato, Pichi Martirani se inspirou em um trecho de “Grande Sertão Veredas”, que tinha lido recentemente, onde Riobaldo se dirige à Diadorim que se colocara, num ímpeto, como candidato a líder do grupo de jagunços, porque o anterior tinha morrido, e fala, olhando para ele: “Eh! Mandacaru! Oi, Diadorim belo e feroz! ” e Guimarães Rosa continua: “Em jagunço com jagunço, o poder seco da pessoa é que vale...”

Pichi Martirani lembrou-se que, em viagem que fizera a São Raimundo Nonato, no Piauí, fotografara esse esplendido cactus, com flores e frutos e não só espinhos.
Imediatamente lhe veio à mente a inspiração de trazer um exemplar de mandacaru para usá-lo como símbolo do sertão e metáfora de Diadorim.

Diadorim revelava diante do grupo completa aparência de masculinidade. Tal qual o cactos, por sobreviver na seca, demonstrando a resistência e a força do agreste e, por ter espinho, revelando a capacidade de se defender, Diadorim sempre evidencia determinação em suas atitudes. No entanto, a planta, por ser capaz de produzir flores e frutos, apresenta também características femininas. Guimarães Rosa, com a comparação de Riobaldo, parece já embutir a revelação final da feminilidade de Diadorim.
Desse modo, o mandacaru se torna símbolo responsável pela gestação da personalidade de Diadorim e, por extensão da fala de Riobaldo em Grande Sertão Veredas.

Para sua vídeo-instalação, Pichi Martirani pesquisou regiões do sertão e decidiu-se por buscar um mandacaru na cidade de Vitória da Conquista, na Bahia, por ter a região as mesmas características do Sertão de Guimarães. Filmou o local, pediu licença ao IBAMA para transportar um grande e viçoso espécime para São Paulo, organizou toda a viagem, comandou o aventuroso trajeto pelas ruas da cidade, cuidando para que a planta, pela sua altura, não sofresse nenhum dano ao passar por túnel, plantou-a em um vaso grande que colocou na sala do andar superior da Casa das Rosas. Ligou-o por meio de uma mangueira, símbolo de cordão umbilical, a um aparelho de televisão, enterrado dentro de uma caixa de vidro, para dar à luz imagens sugeridas pelo texto de Guimarães Rosa.
Esse mandacaru foi depois transplantado para o jardim da Casa das Rosas, com uma placa:

MANDACARU – UMA OBRA DE ARTE
RICARDO PICHI MARTIRANI

Placa essa que desapareceu. De acordo com um comentário do multiartista José Roberto Aguilar, foi “o sertão plantado num jardim francês”.

Os espinhos do mandacaru são considerados de vital importância no sertão por ter a função de proteção e de captação de água. Curiosamente, desapareceram no ambiente úmido de São Paulo...


Com o resgate da história do Mandacaru, voltei à Casa das Rosas e fotografei-o neste março de 2014.
Ele cresceu, e está vivo e forte, mas não tem nenhuma identificação.
Mandacaru na Casa das Rosas em março de 2014 (já ultrapassa o terraço de cima)

                    


Já está na hora de identificar o mandacaru e dar vida a sua história

Informe botânico: MANDACARU (Cereus jamacaru), também conhecido como cardeiro,  é uma planta da família das cactáceas. É comum no nordeste brasileiro e não raro, atinge até mais de 5 metros de altura.
Existe uma variedade sem espinhos, usada na alimentação de animais. A variedade comum é altamente espinhenta e também é usada na alimentação de animais, quando seus espinhos são queimados ou cortados. O mandacaru resiste a secas, mesmo das mais fortes.
As flores desta espécie de cactos são brancas, muito bonitas e medem aproximadamente 30 cm de comprimento. Os botões das flores geralmente aparecem no meio da primavera e cada flor dura apenas um período noturno, ou seja, desabrocham ao anoitecer e ao amanhecer já começam a murchar. Seu fruto tem uma cor violeta forte. A polpa é branca com sementes pretas minúsculas, e é muito saborosa, servindo de alimento para diversas aves típicas da caatinga, como a gralha-cancã e o periquito-da-caatinga.

Texto montado por Neuza Guerreiro de Carvalho com a colaboração e autorização de Esther Alves Martirani e  Ricardo Picchi Martirani.  Março de 2014





Um comentário:

Dalva M. Ferreira disse...

Quando eu ganhar na Megasena eu vou comprar um apê naquele prédio ao lado, e vou viver o resto dos meus dias olhando para a Casa das Rosas. Amo!