terça-feira, 5 de outubro de 2010

ENVELHESCÊNCIA

Ontem voltei no tempo. Um tempo de 60 anos atrás, quando eu dava os primeiros passos em direção ao futuro, entrando na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Era 1948 e eu conheci minhas futuras colegas. Uma delas era o meu modelo: bonita, elegante, fina, educada  , representava para mim o outro mundo, um mundo de elite que eu não conhecia. Durante 4 anos fomos colegas do dia a dia e depois, com a vida correndo, sempre nos falamos e "trocamos figurinhas". Tem duas filhas como eu tenho dois filhos. Poucos encontros reais mas sempre um elo de amizade. Essa era Helena.
Internet, sempre a Internet a juntar pessoas, juntou a mim e Carmen Silvia, filha de Helena. Ela escreve e escreve muito bem. Não resisto em compartilhar com meus amigos as coisas boas que encontro pela vida e hoje estou postando um  texto de Carmen que é simples e completo, emotivo e real.
Aqui vai ele:


           ENVELHESCÊNCIA (CARMEN SILVIA VILLAÇA CERQUEIRA CESAR - PSICÓLOGA))

O processo de envelhecimento é complexo e apresenta aspectos físicos, sociais e psíquicos. O homem, desde que nasce, começa a envelhecer. Porém, os efeitos do envelhecimento passam a ser sentidos, de fato, a partir dos 60, 65 anos. São mudanças fisiológicas que ocorrem, com a diminuição progressiva da eficiência das funções vitais, dos músculos, os cabelos brancos. São duros golpes no narcisismo, com perdas sucessivas que equivalem a lutos que precisam ser elaborados. O corpo e sua representação devem ser redesenhados.

Existem também mudanças sociais: a aposentadoria traz uma situação econômica difícil se não houver uma outra fonte de renda; a desqualificação feita pela nossa sociedade, que supervaloriza a juventude e o novo. As coisas são consumidas e rapidamente se tornam obsoletas. Diferente da mentalidade européia, onde o velho é muito respeitado e considerado. Portanto, os preconceitos e a impotência são muito mais sociais e psicológicos, do que do próprio indivíduo.

Envelhecer não é absolutamente o que se acredita e o que se diz por aí. Tudo depende de como cada um vai vivenciar as transformações desta fase. Como a Sra.X viveu a sua menopausa? Como o Sr.Y encarou sua aposentadoria? Que outras possibilidades de vida foram encontradas? Há que se reinventar a si mesmo. Há que se apossar, outra vez e para sempre, daquilo que se é. Daquilo que foi adquirido ao longo da vida e que não se perde jamais.

Concordo, difícil é fazer isso numa sociedade que valoriza o ter e não o ser, a necessidade de estar inserido no processo produtivo. Mas tantas coisas podem ser feitas, “ao invés de”. Muitos indivíduos se mantêm ligados ao trabalho ou passam a pintar, escrever, esculpir, a praticar esportes. É este um tempo de reavaliação e de se fazer o que se gosta. É a recriação do Eu diante das novas exigências pulsionais, das novas exigências do corpo. Porisso, há que ter flexibilidade.

Envelhecemos como vivemos, ou seja, se tivemos uma vida plena, feliz, se cuidamos carinhosamente do corpo, fica mais fácil envelhecer com serenidade e qualidade de vida. A velhice, sob um certo ponto de vista, então nada teria a ver com a idade cronológica, mas com um estado de espírito. De fato, existem “velhos” de 20 anos, e “jovens” de 90. No entanto, alguns envelhecem muito amargos. Parecem cobrar da vida e dos seus, algo que não lhes foi dado ou tirado. São “velhos” que estão “de mal” com o mundo, criticam a juventude, não aceitam o novo. Mostram-se incapazes de se solidarizar com o outro, e acabam condenados à solidão, à depressão.

Os mais velhos, como todos, precisam ser ouvidos. Querem um olhar, um carinho, um suporte que os ajude a viver. Muitos estão condenados ao desamparo. Não têm família. Mas precisam de amigos. O calor humano é fundamental, as relações com seus semelhantes é o que os sustenta. Muitos morrem de solidão. No entanto, há um pudor em demonstrar a necessidade. “Eu não quero atrapalhar”, dizem , não querendo piedade. Mas a deterioração ou falta de relações humanas os lança na depressão, na regressão, na lentificação das funções vegetativas, nas doenças degenerativas, nos estados confusionais ou de demência, o que pode significar retirar-se do mundo, desligar-se da vida.

O que mantém o homem vivo é o Amor, espaço onde é permitido sonhar, planejar. E para amar não existe idade. O ser humano vive a busca infinita do complemento (ilusório, porém necessário) de si no outro. Para o espírito não há limite.

A sexualidade está presente na terceira idade, e não sendo reprimida ou cobrada com ansiedade de performance, pode ser vivida plenamente até o fim da vida. Não começa na puberdade e termina na meia-idade: simplesmente existe sempre. A sensualidade, o erotismo, as chances de prazer continuam existindo, e, com a maturidade, o caminho é propício ao amor e ao sexo. Na intimidade partilhada pelos casais mais velhos, existe amplo espaço para a ternura. Cúmplices de uma vida, muitas vezes, pais de filhos, avós de netos, até bisavós.  

O tempo pode ser um grande afrodisíaco. Como bem diz o belíssimo poema de Márcia Woodruff, extraído do livro “Quando envelhecer vou usar púrpura”:“Encontramo-nos com timidez de virgens/ sem inocência ou beleza/ a cobrir a nudez, apenas/ estes corpos que nos serviram bem/ a oferecer/. Aos vinte, teríamos nos vestido/ de fantasias, lançando/ véus sobre a nossa carne tenra,/ ou nos faríamos espelhos mútuos/ onde pudéssemos nos amar melhor./ Mas nada nos engana mais, agora./ Nossos olhos são mais sábios e mais tristes/ quando apalpo em seu ombro a cicatriz/ onde o alfinete entrou, e você/ toca os sinais de prata em meu ventre/ frouxo de parir./ Somos reais, você diz, e somos,/ aqui de pé nesta carne simples,/ que registrou nossas complexas vidas,/ os corpos transformando-se em dádivas/ ao toque de nossas mãos.”


8 comentários:

Coisas de Mirela...... disse...

Querida,

Encontrei seu blog por acaso e me deliciei com seus posts, parabéns por ser quem vc é, foi e se tornou.
Bjssss

Betania Herculano disse...

Olá, vovó Neuza!
Confesso que me emocionei com o texto que acabei de ler. Tenho apenas 19 anos, mas achei muito lindo e a autora se preocupou com os mínimos detalhes e encerrou com um poema magnífico.
Um grande beijo para a senhora!
Sou sua fã.

Eliane Ratier disse...

olá, emprestei uma foto do teu blog para ilustrar o meu, uma sibipiruna e acabei te conhecendo por aqui. Parabéns por sua maneira de pensar e agir. Se estamos vivos, vivamos! Grande abraço, Eliane Ratier

LITERA MUNDI disse...

Emocionante!
Adorei tudo!
Ohh inveja!
Bjs!

as1001noitespara50 disse...

Obrigada por compartilhar esse otimo texto. Obrigada por esse fantastico blog.

Cidália Artes disse...

Olá! Senhora, acabei de assisti-la na gazeta. Adorei os chacoalhões que aqui chegaram rsrs. Amei esse texto de sua amiga, me reconheci na fase de reavaliação aos 50 anos. E pode ter certeza que isso coloriu o meu dia e me fez ver coisas diferentes da minha vida. Deus continue abençoando sempreeeeeeeee. Parabéns e muitos beijos
Cidália
www.cidaliaartes.blogspot.com

carminha guimaraes disse...

Vi hoje no programa da Olga Bongiovani e fiquei maravilhada..Pois em fevereiro de 2000, estava eu numa cadeira de rodas e através desse programa encontrei a Hipnose..Com muita garra, ajuda, passei por mais cirurgias, mas estou bem.sou independente, vivo só, dirijo, meus netos dizem que sou velhinha descolada, pois uso a internet..Parabéns vovò Neusa.

Dalva Saudo (Cerimonial do Centro de Poesia e Arte de Campinas) disse...

Vovó Neuza:
Que delícia encontrar seu blog! Adorei!
Tenho 72 anos e também sou blogueira. Agora sou seguidora do seu.