quarta-feira, 30 de maio de 2012

O DIA EM QUE A TERRA TREMEU

Jurema é minha filha. Mora na Itália. No Norte da Itália. Não mora no epicentro do terremoto,mas perto dele. Viveu a experiencia impar e sensível física e emocionalmente,escreveu sobre isso. Tem espaço no meu blog para  publicar seu texto.Aqui vai ele.

O DIA EM QUE A TERRA TREMEU 

Vou começar esse texto deixando claro que nao falo em primeira pessoa, faço dessas palavras, o retrato de muitas coisas que li, escritas por pessoas que VIVERAM os momentos terriveis do terremoto do dia 20 de maio de 2012.
Deixo o tema “DESTRUICAO DOS MONUMENTOS HISTORICOS” para os historiadores e arquitetos, pois entendo que eles sao muito mais abalizados a falar sobre o assunto. Deixo aos especialistas, a discussao do “USO INADEQUADO DO SOLO URBANO”, E “OCUPAÇAO DESORDENADA DAS CIDADES E CAMPOS”.
Prefiro escrever sobre aquilo que passamos. Uma destruiçao silenciosa, profunda e assustadora. Uma destruiçao que levaremos para sempre em nossas memorias.
Provavelmente contaremos aos nossos bisnetos sobre o DIA EM QUE A TERRA TREMEU.
Nao estou aqui para defender prioridades, mas tentar expressar as prioridades da populaçao que esta ainda presa do terror e do panico. Muitos que ainda nao voltaram para suas casas, e milhares de pessoas que ainda nao conseguem dormir tranquilas.
Uma semana depois do primeiro tremor. Segundo noticias locais, durante esses dias mais de 250 tremores de intensidades variadas foram sentidas por toda a regiao. Senti muitos deles, me apavorei como todos.
Falar sobre a destruiçao material que ocorreu é redundante, as fotos sao muito mais pungentes, tem muito maior impacto. Todos os telejornais do mundo todo notificou, comentou e fez ver ao mundo o que aconteceu ao norte da Italia, entre as regioes de Emilia Romagna e Veneto.
Passamos por uma das piores experiencias de nossas vidas, com certeza: um terromoto de magnitude 5.9. Eram 4:04 da madrugada de domingo – 20 de maio de 2012. Janelas começaram a bater, uma vibraçao na cama nos fez saltar rapidamente enquanto sentiamos um barulho assustador e ensurdecedor.
Em muitos lugares, quadros, lustres e objetos se espatifaram no chao. Aquilo que sentimos è unico e incontestavel. Nao tem razao que possa explicar ou controlar nossas atitudes. NAQUELES 20 SEGUNDOS, NOSSOS INSTINTOS TOMARAM O COMANDO DE TODA A SITUAÇAO. Vale tudo para salvar nossas vidas.
Saimos de casa como estavamos, alguns de pijama, outros de calcinha e camiseta, cuecas, sem chinelos, sem celulares, sem computadores, sem oculos, sem dinheiro, sem documentos, sem maquiagens. PRIORIDADE ABSOLUTA: A VIDA.
Cautelosos, voltamos para nossas casas pisando em ovos, ainda com o instinto no comando da situaçao, com os sentidos aguçadissimos, com o coraçao que disparava a cada pequeno barulho que sentiamos.
Mais ou menos depois de uma hora, outro grande tremor. Confirmando o comando de nossos instintos, nem mesmo dessa vez nos preocupamos com outra coisa que nao fosse NOSSAS VIDAS. Nao conheço ninguém que tenha vivido esses terriveis segundos, comentar sobre outra prioridade que nao fosse escapar, tomados do panico e do medo.
Passada uma semana, ainda sao essas as impressoes que se sente pelas ruas, pelos carros que se transformaram em casas, das barracas espalhadas nas praças.
Emocionante ver como as pessoas retornaram às suas casas escoltadas pela vigilancia civil, ve-las realizando suas prioridades. Independente das condiçoes economicas de cada pessoa, a prioridade absoluta era o resgate dos objetos de VALOR para nossas vidas. Nao vi ninguem interessado em resgatar seus porta joias, seus vestidos de marca, seus sapatos novos, suas bolsas de griff. As pessoas, ainda cautelosas, tentavam levar consigo, para suas “casas improvisadas”, seus carros-dormitorios, as mamadeiras das crianças, as roupas confortaveis, os cobertores, algum alimento da geladeira; um travesseiro para acomodar os mais velhos. Garrafas de agua, leite e pao. Naquele momento esses eram os unicos objetos de valor.
Emocionante ver um furgaozinho chegar de Aquila (cidade que sofrera um terremoto semelhante ha tres anos), conduzido por um senhor assustado que trazia em seu rosto o medo ja consolidado. Trazia alguns objetos que fora usado pela populaçao aterrorizada daquela regiao. Cobertores, panelas, pratos, um pouco de alimento que gente solidaria mandava para os mais novos aterrorizados da Italia do Norte. Vi pessoas abrirem suas casas acolhendo crianças, familias desconhecidas, dividindo um pouco de conforto.
Durante essa semana de terremotos, é triste ver que muitas pessoas "choram" muito mais pelas perdas dos monumentos historicos do que pela situaçao que se encontram essas pessoas que sofreram danos em suas casas, sabendo que o governo fara muito mais para "restaurar" monumentos historicos que para colocar em pé casas normais de familias normais.
Essas pequenas cidades atingidas, onde patrimonio historico nada mais é que construçoes velhas e mal cuidadas, muitas abandonadas (ja que nao eram nem mesmo pontos turisticos importantes - pois nao geravam riqueza para o municipio), estao destruidas. Seu povo esta na rua, nos carros, em alojamentos, nas casas rachadas ainda em pé.
Agora, depois do terremoto, vem um bando de gente com faixas exigindo que o patrimonio historico seja restaurado, que o impacto ambiental foi avassalador, bla, bla, bla, bla, bla, bla, bla... enquanto isso inteiras familias que perderam suas casas simples, compradas ou alugadas com sacrificio de uma vida estao desesperadas e sem apoio. Inumeros negocios, fabricas, estabulos, criaçoes de gado, porcos e galinhas; plantaçoes destruidas, deixando milhares de pessoas sem trabalho e que ficarao a espera dos “agentes” do governo para avaliaçao dos danos. Duvido que alguém que esta nessa situaçao esteja interessada no patrimonio historico até entao abandonado!!!!!
Vamos ser realistas, minha gente. Nesse pais, PATRIMONIO HISTORICO so é cuidado se gerar riqueza. Non se ne fregano un cazzo com a historia, com a memoria, com o ambiente e outras coisas mais. No Primeiro Mundo a prioridade absoluta è aquilo que gera dinheiro, nada mais que isso.
Se a vida é feita de escolhas, o que é uma grande verdade, escolho dar prioridade absoluta e total ao presente, às familias desabrigadas, às crianças que estao morando dentro de um carro.
Me desculpem os historiadores e arquitetos, mas sei muito bem que restauros serao feitos se gerar lucro. Caso a geraçao de lucro seja maior se deixar esses pseudos-monumentos destruidos,  estou certa o farao. Sou segura que a prioridade de reconstruçao sera aquela que gerar mais riqueza. Infelizmente.
Porém, a beleza disso tudo esta na solidariedade que nunca tinha visto antes por essas bandas. SOLIDARIEDADE PLENA, COMPLETA E PROFUNDA. ESSE È O LADO POSITIVO DO TERREMOTO QUE DEVE SER CULTIVADO SEMPRE. ESPERO QUE MINHA MEMORIA ESTEJA A POSTO QUANDO CONTAR AOS MEUS NETOS E BISNETOS SOBRE A SOLIDARIEDADE DE UM POVO QUE ABRIU SUAS PORTAS, SEUS CORACOES E SUAS ALMAS, ACOLHENDO E MINIMIZANDO O MEDO DOS DESABRIGADOS.
È ESSE POVO QUE DEVE SER LEMBRADO. SAO ESSAS AS ATITUDES QUE DEVEM SER VALORIZADAS. QUE FIQUE BEM CLARO ISSO, NAO O BLA, BLA, BLA DE POLITICOS.

 (essas palavras foram escritas por todas as pessoas que estao apavoradas e desesperadas, cada uma contribuiu um pouquinho com sua dor para que possamos juntas, sensibili zar outras pessoas para que olhem mais para os seres humanos que para os tijolos espatifados no chao)
Italia – maio 2012



Um comentário:

Célia Rangel disse...

A OSTENTAÇÂO cai por terra e Deus nos mostra a importância de sermos HUMANOS e não TIJOLOS! Irmanada com você e sua dor psíquica do que vê e pelo que passa junto com os outros SERES HUMANOS! Era em morros, montanhas, rios e na maior simplicidade que Cristo veio à Terra e mostrou-nos a simplicidade, a fraternidade dos pães e dos peixes. Nada mais! Há lições para serem apreendidas nesse caso e em tantos outros. Basta vermos. Minhas orações. Célia.