quinta-feira, 10 de maio de 2012

PARA MINHA MÃE

Minha mãe cumpriu seu ciclo vital  há 6 anos. Sua neta, filha duas vezes escreveu sobre ela   e estou transcrevendo seu texto. É bonito demais para ficar guardado. 

Eudóxia Navarro, conhecida por todos apenas como “bisa”.
Com seus quase 100 anos de vida, viveu realidades
e transformações incalculáveis.
Assistiu pela televisão os protestos estudantis com participação de seus netos.
Assistiu a chegada do homem à lua.
Foi fotografada pelas primeiras máquinas existentes, e pelas máquinas digitais.
Pode ver seu bisneto pelas poderosas WebCams.

Festejou a descoberta da vacina contra a poliomielite, mas se entristesseu com a chegada da Aids.
Foi uma das primeiras mulheres a votar e viu o impeaciment de Collor.
Passou por onze mudanças de moeda.
Assistiu todas as Copas do Mundo e comemorou todas as vitórias do Brasil.
Viu o Brasil ser campeão,
bi-campeão,
tri-campeão,
tetra-campeão,
penta-campeão.
Mas infelizmante não viu o hexa título.

Viveu num Brasil de 70 milhões de habitantes em 1970 e num Brasil de 180 milhões em 2004.
Viu o mundo passar de um contingente de pouco mais de um bilhão e meio de
pessoas para mais de seis bilhões e meio nos dias atuais.
Se assustou com a Revolução Sexual, pois fazia sexo debaixo das cobertas.
Se assustou ainda mais quando soube dos bebês de proveta e dos clones de mamíferos.

Muitas histórias confirmam a mudança de comportamento,
mudança de pensamento, e mudança de hábitos.

Dormiu em colchões de algodão, de crina de cavalo, palha de milho desfiada,
barba de bode, capim e paina.
O arrumar da cama com esses pesadíssimos colchões se tornava mais difícil
ainda pois, sobre eles pousavam lençóis de algodão que deveriam ser lavados,
alvejados, engomados e passados com ferro à carvão.
Dormiu nos modernos colchões de mola, nos colchões de espumas sintéticas,
sobre lençóis de tergal.
Hoje repousa em colchão especial chamado “casca de ovo” para que nesses
quase quatro anos que permanece acamada não provoquem escaras.

Cozinhou em fogões de carvão, espiriteiras à alcool, fogões elétricos,
à gás e em micro ondas.
Escutava as primeiras músicas em rádios de galeno
e hoje pode escutar CDs de músicas digitalizadas em MP3.

Namoro na sala, com a presença dos pais, apenas contando com pequenos
bilhetes passados às escondidas.
Casou virgem mas não se assustou com sua neta casar grávida.
Hoje aceita a relação pré matrimonial de seus bisnetos.

Certamente suas primeiras letras foram escritas com canetas de madeira
e penas de aço, mas conheceu a famosa Bic escrita fina.
Hoje pode ver as letras virtuais escritas à milhares de quilômetros,
digitadas em algum teclado de computador, aparecerem nas telas de cristal líquido.

Foi uma das primeiras a comprar geladeira.
Uma das primeiras a tirar carta de motorista.
Ficou feliz com a invenção do papel higiênico e da televisão.
Usava as incômodas “toalhinhas” que eram lavadas às escondidas,
mas conheceu os absorventes aderentes à calcinha.

Viu o Cometa Halley duas vezes.
Festejou a queda do muro de Berlim.
Escapou das bombas das Revoluções de 1924, de 1930 e de 1932.
Viveu duas Guerras Mundiais.
Viu a grande explosão das Torres Gêmeas de Nova York.
Passou 96 natais.

Casou,
casou uma filha,
casou dois netos,
casou dois bisnetos.

Sepultou seus pais,
sepultou outra filha,
sepultou seu marido,
sepultou seu genro,
sepultou todos seus irmãos.

Comemorou Bodas de Prata e Bodas de Ouro.

Conviveu e convive com seis gerações.

Viveu mudanças do mundo jamais imaginadas pelos
primeiros familiares perdidos no tempo.

Seus ascendentes e familiares eram de origem espanhola,
Província de Vera, Almeria, Região de Andalucia - sul da Espanha -
Mas seus descendentes são todos brasileiros:
duas filhas, dois netos, quatro bisnetos.

Hoje, agosto de 2006, Eudóxia está se apagando aos pouquinhos.
Está há mais de três anos acamada.
Nos primeiros tempos lúcida e participando de muitas coisas.
Hoje, com dificuldades de audição, de visão, dificuldades motoras.
Está indo embora pra junto de seu companheiro de mais de 60 anos.
Pouco fala, mas ainda consegue exprimir seu desejo de viver outras aventuras.
Devagar está encerrando suas atividades no Planeta Terra.
Está se desincompatibilizando com esse mundo...

Mereceu atenção especial pois conviveu com seis gerações,
tendo a sabedoria de adaptar-se a todas elas.
Agradecimentos especiais à Doralice e Cida,
que cuidam da bisa com a máxima atenção possível.
Agradecimento maior ainda à minha mãe, que por ser filha única,
carrega todo o peso da responsabilidade dos cuidados e atenções.

À Wilsão,
mais conhecido como Dr. Wilson Jacob Filho,
Chefe do Departamento de Geriatria do Hospital das Clínicas de São Paulo,
que certamente aprendeu muito de sua profissão
com os ensinamentos dessa “moça bonita”,
e que a acompanhou desde os primeiros tempos de formado.

À equipe do NADI,
que conseguiu dar mais que remédios
fazendo crer que a melhor medicina se faz com carinho.

Um pedido especial
Incluem na Equipe de Geriatria do Hospital das Clínicas de São Paulo
alguns “escutadores de histórias”
para que tantos outros tenham oportunidade de saber
que são eles os verdadeiros
“protagonistas da história”,
e que sem a sabedoria e conhecimento deles,
não seria possível entender o pensamento e as emoções
de quem viveu uma época que nem sonhávamos viver.

Usem os conhecimentos adquiridos,
indistintamente à todos que necessitem,
independentemente de quanto dinheiro conseguiram acumular em suas vidas,
quantos títulos de estudo tenham,
à que classe social pertençam,
à cor de suas peles, às crenças religiosas,
aos partidos políticos, aos times de futebol que torçam, às linguas que falam.

Bisa encerrou suas atividades no Planeta Terra
aos 4 de outubro de 2006, às 13:15 horas.
Foi sepultada no mesmo cemitério que seu companheiro de 67 anos, em São Roque.

Atendendo à um pedido especial dela
foi possível colocar seu companheiro João ao seu lado.
Agradecemos a presença dos familiares e amigos
Estavam presentes no velório em São Paulo
Sua filha Neuza e seus netos Flavio e Tania
seus bisnetos Bruno e Tiago
Cida e Doralice, Victor e Vera, Horácio e Fátima
Fernando Aurélio, Alberto e Aldair, Fátima

Seu sepultamento foi em São Roque e estavam presentes
os principais representantes da pequena família da bisa
Sua filha Neuza e seus netos Flavio e Tania
Seus bisnetos mais jovens Victor e Adele
Cida  e Cristina
Seus netos Jurema e Oscar e seus bisnetos André e Rosinha
acompanharam tudo há 11.000 km de distância

2 comentários:

Margarete Barbosa disse...

Neuza, é uma homenagem justíssima! Poucas são as pessoas que viveram/vivem tantos eventos pessoais e mundiais.
A Bisa merece todo o carinho, neste ou noutro plano. Um abraço!

Anônimo disse...

Sua mãe encheu-se de vida hoje, enquanto eu lia as belas palavras ela se refazia em história. Muito bom poder de certa forma reviver as lembranças tão caras de um desconhecido. Abraço gigante. Endy