segunda-feira, 29 de julho de 2013

CARTA AO MAESTRO JAMIL MALUF


Minha memória fotográfica me leva a um tempo distante, a um espaço que me parece uma igreja pelos bancos e alguém falando às pessoas sobre a importância do que estava acontecendo. Pedia-se a colaboração para uma Orquestra que estava sendo lançada.  Eu e Ayrton escrevemos em um papelucho nossos nomes, nossos contatos e o deixamos lá.  Perdeu-se no tempo o papelucho porque nunca tivemos retorno.

O tempo passou, a vida continuou, as famílias cresceram, tomaram a maior parte do nosso tempo, mas nós mantivemos em algum cantinho da memória essa “fotografia”. “Foto” diluída no tempo, esmaecida e teria se apagado se não fosse o contínuo alimentar com a música da orquestra lançada, a Orquestra Experimental de Repertório.

Maestro - acompanhei o embranquecer dos seus cabelos juntamente com o embranquecer dos meus, este mais rápido porque sou muito mais velha. Poucos contatos pessoais gratificantes quando o encontrei no saguão do teatro antes de uma apresentação e pude trocar algumas palavras.  E, faz pouco, junto com uma amiga comum, Alcione. Alimentaram a minha alma.

Segui sempre que pude a orquestra e o maestro. Admirei sempre e continuo admirando a filosofia pouco comum de ligar o popular e o erudito quando grupos elitizantes fazem força para separar as duas vertentes. Sempre vence o mais abrangente e um teatro totalmente lotado é a prova material disso.

Quando se envelhece ou nos tornamos rabugentos ou excessivamente sensíveis, até piegas. Felizmente estou no segundo caso. E hoje (ontem) minha sensibilidade devia estar no pique mais alto porque senti o programa até visceralmente. Faltou-me o ar.  Perguntada, não tive palavras. Preferi dar um tempo de assimilação que chega de madrugada e me empurra para escrever.

Um programa que começou e terminou sabiamente com Casablanca, foi continuando com o violino do Claudio Micheletti visivelmente emocionado e em sete momentos que dificilmente pode-se dizer qual o melhor, foi elevando a plateia a um patamar alto de participação, culminando com aplausos continuados e sinceros.  Fechamento especial para um fim de tarde de um domingo gélido.


Eu te saúdo maestro Jamil Maluf. Nossa contemporaneidade me trás orgulho. 

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