segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

MINHA POBRE "GALINHA DOURADA"


Sempre soube que a escultura que fica no fim da primeira rampa de acesso ao auditório Simon Bolívar do  Memorial da América Latina era a Pomba de Ceschiatti, que tem uma história

A convite do arquiteto Oscar Niemeyer, de quem foi colaborador constante, o escultor Alfredo Ceschiatti executou para o Memorial um de seus últimos trabalhos, pois faleceu em agosto de 1989.  Pousada na curva da rampa do imenso foyer espelhado do Auditório Simón Bolívar, a Pomba de Ceschiatti está preste a alçar vôo. Fundida em bronze, ela tem 2,20m de altura e envergadura de 3,00 m. Sua revoada levará a mensagem de paz por todo o Continente. Entre as outras obras do artista, destacam-se os anjos suspensos da catedral de Brasília.

Mas, em Arte Contemporânea a interpretação é sempre do observador e a minha primeira impressão, em 1989, era que não podia ser pomba. Muito gorda. E adotei minha expressão “galinha dourada” para identificá-la. Me perdoe Alfredo Ceschiatti.

Hoje, neste final de novembro de 2013, na terrível angústia que causou a destruição do Auditório Simon Bolívar, a pequena alegria é saber que a minha “galinha dourada” não sofreu dano. Só testemunhou tristemente a destruição do resto.

Em 31 de março de 2008 postei um texto sobre uma visita ao Memorial da América Latina. “Muita água rolou debaixo da ponte “de lá para cá, mas certas considerações são básicas, foram relembradas e vale a pena transcrever parte da postagem”.

“O Memorial já tem quase 20 anos. Foi inaugurado em 1989 durante o governo de Orestes Quércia. Como todo governante ele quis deixar para a cidade a sua marca em uma obra faraônica. Aliás, todos têm essa mesma ideia. Aí convocou Niemeyer, já com 82 anos e muita fama. Deu-lhe muito espaço que foi totalmente arrasado ficando uma “mesa” plana de cerca de 80 mil metros quadrados (cerca de sete campos de futebol). E aí o arquiteto distribuiu as várias construções: Salão de Atos, Biblioteca, Pavilhão da Criatividade, Auditório Simon Bolívar, Galeria Marta Traba,... E outras que foram sendo terminadas e utilizadas.

Frequentei muito o Memorial a partir de 1989 quando a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo se apresentava no auditório Simon Bolivar.  Então conheci bem esse local e fui conferir alguns dados.
E eu me dei conta que não me lembrava do tamanho absurdo do imenso foyer com as rampas de acesso. Muito muito grande.
Fui conferir o que eu sempre chamei de “galinha dourada” Não me lembrava que ela fosse tão grande. Ficou esse tempo toda na minha memória como caracterizando esse espaço. Continuará sendo “galinha dourada” porque é amarela porque é de bronze e é gorda parecendo  mais uma galinha do que pomba.





Quando o auditório foi construído, o palco era  cercado pela plateia em toda a volta. Visão megalomaníaca inspirada em teatros europeus, onde o publico realmente lota as acomodações. Não era o nosso caso. A orquestra ensaiou várias posições e sempre ficava de costas para uma parte da plateia que “pingava”. E a acústica era ruim. Por quê? Não sabíamos.
Só não ouvíamos direito.    E então nos demos conta em um dos concertos que foram colocadas caixas acústicas enormes. Causou arrepios: CAIXAS ACUSTICAS EM UM CONCERTO!!!!

Contornando o problema, do tamanho da plateia,  o palco e a plateia foram divididos ao meio e aí sim ficou de tamanho adequado. O uso das duas partes só em shows populares.
Em uma bela perspectiva publicada pela Folha de São Paulo é visível a distribuição  comentada.





Em uma das laterais do auditório há um painel, um mural de aproximadamente 800 metros quadrados de Tomie Ohtake. Lindo, com quatro cores de tapeçaria, privilegiando curvas em um desenho com unidade visual.




Ao dividirem palco e plateia, também dividiram o painel, tirando toda a unidade. Sempre me incomodou esse detalhe.

Em uma das apresentações da orquestra, ainda no começo da década de 90, notamos retângulos pretos, horizontais  na tapeçaria. Fariam parte dela? Não parecia. Era discrepante. Curiosos, perguntamos. E a resposta: eram saídas do ar condicionado recortados na tapeçaria.  Intervenção completamente anômala.


Minha visita de 2008 foi mais do que uma constatação de fatos de um tempo quase de inauguração, uma volta ao passado pessoal, de um tempo de boa musica em que o grande Eleazar de Carvalho comandava uma Orquestra Sinfônica do Estado que não tinha morada fixa,  mas tinha já uma garra que continua até hoje.”

Não havia lugares numerados e os expectadores se reuniam no grande foyer para conversas e um cafezinho. Próximo do horário do espetáculo todos se acumulavam na entrada da rampa e um mar de gente subia, olhava a “galinha dourada” fazia uma curva fechada e adentravam ao auditório. Parecia o que acontecia nos cinemas pelas décadas de 50, onde nas antessalas cheiíssimas  se esperava a abertura das portas  e a avalanche  se assemelhava a um “estouro da boiada” como se dizia na época.


Flashs de memória à parte, voltamos a 2013, num fim de semana do fim de novembro: incêndio destrói o auditório. Um ícone de São Paulo que desaparece. Grande tristeza. 

Detalhes,  todos os jornais e revistas da época publicaram.


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