sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

DECISÕES DIFÍCEIS (mas não tanto) consciente e sem conflitos– DOAÇÃO DE CORPO


Isto é uma explicação para meu comportamento, no mínimo inusitado.

Não foi uma decisão difícil. No mínimo teve seu tempo e sua hora e se apoiou na minha própria filosofia de pensamento e em ser prática, racional e objetiva.

Quando se morre, formalmente há velório, enterro (ou cremação) e tradicionalmente tudo acontece como um ritual. Velório - uma vigília ao defunto – é para mim algo mórbido onde se prolonga o contato. Sofrido para a família próxima, meio indiferente para a maior parte dos participantes. Acaba sendo uma atividade social obrigatória. Os judeus nem abrem o caixão no velório. Ótimo. Fica para cada um a lembrança mais querida.
Do ponto de vista religioso é a encomenda da alma (sempre as mesmas palavras e quanto mais palavras maior o sofrimento dos mais próximos) coisa em que eu não acredito. Sou bióloga, materialista e entendo que quando as funções vitais param tudo acaba mesmo.
O velório culmina com o enterro (ou cremação) outro ritual macabro que gera aos que se afastam uma sensação de culpa por deixar o ”algo” sozinho, como que abandonado. Tudo em função de rituais tradicionais

Sou avessa a isso tudo. Nunca me conformei de me deixar ser devorada por vermes, bactérias e toda espécie de seres vivos necrófagos. Não posso deixar de pensar nisso. É de minha formação e minha filosofia de vida. que voltamos a ser decompostos em Carbono, Hidrogênio, Oxigênio, Nitrogênio e toda a quantidade de elementos químicos que constituem o ser humano. Misturados ao solo se recombinarão e poderão formar elementos dos reinos minerais (solos) vegetais (plantas que absorvem os elementos pelas raízes para o seu crescimento) ou outros seres vivos, até seres humanos.

Já o Eça de Queiroz imaginou algo humanista e racional, embora poético.
“Bem-aventurados os que vão para debaixo do chão, porque vão para uma transfiguração sagrada. Mal caem sobre eles as últimas pazadas de terra e o canto dos padres, bárbaro e dolente se perde com o fumo dos círios, o corpo fica só na plenidão da noite e do silêncio perante a grande vegetação esfomeada, ele vai dar-se ali como pasto às bocas sinistras das raízes: ele amolece entre as humidades da terra e desfaz-se em podridões: então as raízes começam a sugar e a comer: a podridão transforma-se em seiva; a seiva sobe pelos troncos, estende-se pelos ramos, palpita selvagemente dentro da árvore, engrossa, fecunda, arredonda-se nas exuberâncias dos gomos, e abre-se depois em folhagens, em florescências e em frutos: e o corpo transformado vê outra vez o sol, as grandes poeiras, e sente os orvalhos, e ouve as cantigas dos pastores, e vive sereno, repousado, na floresta imensa.”
(“Os Mortos São Felizes” – Prosas Bárbaras
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Feito esse preâmbulo, meu pensamento foi: como posso anular os rituais todos e fazer alguma coisa pela Ciência que eu aprendi desde cedo a respeitar. Porque dar um material precioso para os bichos comerem? Sem a poética de Eça de Queiroz, são as bactérias e vermes os primeiro no banquete. E o festim continua por um bom tempo. Isso sim é mórbido.

A primeira vez que pensei nisso objetiva e concretamente foi quando visitei Dirce, uma amizade de anos nas nossas Musculações. Mulher simples, sem muitos conhecimentos mais profundos, intuitivamente percebeu todo esse contexto. Já estava quase terminal quando a vi, mas ela já tinha certeza do que queria: doar seu corpo para estudos.

Sem que tenha sido um momento especial, resolvi que era tempo de formalizar esse desejo meu de também doar meu corpo para estudos. Procurei a instituição que está mais perto de mim: Departamento de Anatomia do ICB – USP. Conversei com Thelma Parada, não para que ela me convencesse (eu já tinha certeza do que queria e sem conflitos), mas para trocar informações que eu ainda não tinha. Recebido os formulários tive que preenchê-los, reconhecer firmas das testemunhas (meu filho e netos). Agora está tudo pronto

Entregues os papeis fica determinado meu desejo pos-mortem: sem velório, sem enterro. Deixo aos familiares mais próximos, de consolo umas duas horas de velório particular com as músicas que já separei e deixo como CD junto com os documentos.

No dia 01 de outubro, com os documentos requeridos fui ao IBC e entreguei formalmente, os documentos todos. Fiquei com três cópias devidamente colocadas em uma pasta amarela identificada que será colocada em local conhecido e acessível.

Fica assim formalizado e oficializado esse desejo meu que deve ser respeitado não sei quando, mas certamente um dia qualquer.

Texto escrito por Neuza Guerreiro de Carvalho em 04 de outubro de 2013

Em anexo, devidamente digitalizado o folheto explicativo sobre todo esse processo.


  



Quando no devido tempo meu corpo estiver sendo estudado terei certeza do respeito que os alunos terão por ele. A qualquer momento estarão  obsevando a placa que encima a porta de entrada do laboratório de estudos, com texto que diz:


Ao te curvares com a rígida lâmina de teu bisturi sobre o cadáver desconhecido, lembra-te que este corpo nasceu do amor de duas almas, cresceu embalado pela fé e pela esperança daquela que em seu seio o agasalhou”. Sorriu e sonhou os mesmos sonhos das crianças e dos jovens.
Por certo amou e foi amado, esperou e acalentou um amanhã feliz e sentiu saudades dos outros que partiram.
Agora jaz na fria lousa, sem que por ele se tivesse derramado uma lágrima sequer, sem que tivesse uma só prece.
Seu nome, só deus sabe.
Mas o destino inexorável deu-lhe o poder e a grandeza de servir à humanidade. “A humanidade que por ele passou indiferente”       (Rokitansky, 1876)


2 comentários:

Célia Rangel disse...

Há muito tempo compactuo com esse pensamento, Neuza! Parabéns por sua objetividade e doação! Tempo determinado nada mais será vida! Que me queiram bem, me visitem, me deem flores, músicas agora que vivo... depois nada mais importa! Minha decisão sempre foi de doadora total. O tempo? Só Deus o sabe.
Abraço.

Wilma Santos disse...

É uma boa decisão, mas o texto da porta nem se aplica, ali me parece que seria o corpo de um ser desconhecido e abandonado. Não seria o caso. Certamente que seu corpo terá que ir para algum outro lugar onde não terá seu nome nem referências...mas haverá preces e lágrimas,com certeza. Eu ainda prefiro ser cremada, por enquanto e já dá um trabalhão, enfim...