domingo, 26 de janeiro de 2014

ESTRELINHAS 2


Repetindo o que escrevi na noite de natal de 2012

Uma das coisas que me desesperam é a escuridão total. Perco as referências e me descontrolo. Por isso, não preciso e não gosto de escuridão para dormir. Tenho sempre a janela aberta. Vidro fechado para eventuais chuvas, mas veneziana aberta.  Às vezes vario a posição da veneziana.
Há algum tempo, meses talvez. Tive uma experiência interessante: acordei pelas cinco da manhã e ao abrir os olhos no retângulo iluminado da janela, vi no escuro, duas estrelinhas.  Foi engraçado porque foi como se me saudassem: duas estrelinhas no meio de um sono a “piscar” para mim. Gostei.
Depois de um tempo, a visão se repetiu, mas as estrelinhas já estavam mais próximas da moldura. Claro, a terra continuou girando e elas mudaram de posição. Gostei de revê-las, cumprimentei-as e já as considerei “minhas” estrelinhas. Sensação estranha, mas gostosa. 
Nesta noite de Natal, acordei mais cedo.  Eram três horas. Procurei-as e elas não estavam lá. Ou eu não as via.  Mas, ás cinco voltei a vê-las. Uma só tangendo a moldura da janela. Tive que me virar para ver a outra. E encontrei mais abaixo um punhado de estrelinhas, não sei se só agora visíveis ou visíveis nesta noite especial.
E aí me lembrei do nosso Bilac:
                                                            Ora ( direis ) ouvir estrelas!
Certo, perdeste o senso!
E eu vos direi, no entanto
Que, para ouvi-las,
muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto

E conversamos toda a noite,
enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila.
E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas?
Que sentido tem o que dizem,
quando estão contigo? "

E eu vos direi:
"Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e e de entender estrelas


Acho que estou em estado de graça quando converso com elas. Só dizer OI já me deixa bem. Porque amo meus amigos, meus filhos meus netos, os que se foram e os que ainda estão aqui. Amo o mundo em que vivo, as músicas que escuto e imagens que vejo.  Amo a minha vida como ela é.  E continuo amando, sobretudo aquele que com sua bondade, tolerância e presença, fez de minha vida um ato de amor. O meu sempre querido Ayrton.


Muitos céus nublados depois, muitos clarões de relâmpagos depois, muita coisa acontecendo na minha vida nesses mais de 365 dias depois, volto novamente ao tema das ESTRELINHAS.
Tinha me esquecido delas. Volto a vê-las e a conversar com elas. Abro os olhos de repente pelas cinco  da manhã e as vejo enquadradas na moldura da janela. Elas estão lá sim, ainda estão lá e estarão lá para todo o sempre. Se é mais tarde só as vejo se levantar e me debruçar na janela. Mas aí perco o encantamento do olhar virgem.

Mais atenta, me dei conta que as “minhas’ estrelinhas formavam o Cruzeiro do Sul, formação estelar que me permite acrescentar mais um item na minha identidade e no meu espaço no mundo: São Paulo, Brasil, Hemisfério Sul.
O que vejo é exatamente







Mas, como sou curiosa procurei saber os nomes das estrelinhas do Cruzeiro para que nossa conversa fosse mais pessoal. E consegui.




Agora posso conversar com cada uma delas separadamente. 

Às vezes prefiro a Mimosa, outras a Pálida ou a Intrometida. Conto minhas mais recentes ideias que geralmente aparecem durante a noite, madrugada adentro, argumento sobre decisões, conto sobre minhas tarefas, ou para ouvir minha própria voz  e me entender melhor. 
Também  posso imaginá-las juntas quando conto histórias  que crio no momento.

Há quem fale com cachorros. Eles ouvem pacientemente e não retrucam. Há quem faça terapia e conta seus problemas ao terapeuta. Eu,  converso com as minhas estrelas. Sei que elas estão sempre lá, de plantão para me ouvir. Mesmo quando o céu está nublado e não as vejo. E ter com quem falar é uma grande felicidade. Mesmo que sejam estrelas.

Será que estou ficando pirada?


Um comentário:

Célia Rangel disse...

Bem, Neuza, compactuo-me com você na linguagem celestial! Há coisa mais divina que admirar o céu, as estrelas, a lua esplendorosamente linda, o irradiante sol... Só podemos agradecer essa virtude que o divino nos coloca em sua sintonia!
Abraço domingueiro!
Célia.