quarta-feira, 18 de junho de 2014

PALOMA

PALOMA (REPUBLICAÇÃO DE MAIO DE 2009)

Lembro-me bem quando ela chegou. Era mês de novembro de 1981. Eu e Ayrton estávamos em Extrema, no nosso sítio, carregando telhas e tijolos para a construção de uma casinha. Depois do almoço, voltamos para S. Paulo, pois à noite íamos à ópera.  Até era engraçado o contraste de nossas atividades.

Quando chegamos, Flavio e Jurema estavam com uma surpresa: uma cachorrinha que o Flavio tinha comprado na feira de animais da rua da Consolação (pensou que fosse macho). Nós não queríamos mais cachorro de jeito nenhum. Ayrton nunca gostou muito deles, e se os tivemos foi para satisfazer as crianças.  Mas, a cachorrinha nova foi simpática à primeira vista, e começou logo a fazer parte da família, estando sempre junto, e sendo companheira durante 15 anos.

Desde cedo nos cativou Muitas fotos mostram o quanto ela participava de nossa vida. Viajava conosco para todo lugar (Caraguá, Extrema, Pouso Alegre, São Carlos).

Ela nos encontrou, numa fase receptiva. Tínhamos idade para ser avós, e a Natureza pedia isso. Os filhos já eram adultos e independentes, com 25 anos e 22 anos. Dedicamos todo o nosso potencial afetivo a ela.  Paloma dormia dentro de casa, e durante um tempo, em baixo de nossa cama.


 Paloma envolta na manta azul – linda!!!!
           

Quando ficou adulta, procuramos um macho para cruzar com ela. Encontramos um perdigueiro - Sultão. (ela era mestiça de Doberman com Perdigueiro).

Dois meses depois, estava na hora dela parir. Passamos a noite inteira com ela, na sala esperando o nascimento dos filhotes. Nada. De manhã fui levar minha mãe ao hospital para um exame e só voltei por volta das 15 horas. Então, como se estivesse me esperando, ela começou a parir. Nasceram sete filhotes: Pamina, marrom como a mãe.Teve o nome da princesa da opera de Mozart  A Flauta Mágica. Sol, branco com manchas marrons, Lua, igual ao Sol, Duda, parecida com o Sol, foi sempre cuidada como uma princesa, Penélope, dada a um menino surdo, e outros dois dos quais não me lembro do nome, se é que tinham.

Foi uma bonita experiência ver o nascimento dos filhotes e ver o cuidado instintivo que os animais têm. Até a veterinária que cuidava de Paloma, estava lá para assisti-la.

Jurema chegou uns dias depois, de Pouso Alegre, onde já morava casada com Oscar, só para conhecer os filhotes (1983).

Daí para frente, toda a bicharada encheu nossa vida de alegria. Paloma foi mãe extremosa e tinha um instinto materno bem forte.  Já tinha tido antes, gravidez psicológica (?) e adorava um cachorrinho de borracha, que levou para junto de si, na hora em que os filhotes estavam nascendo.
Sol e Lua ficaram com a Jurema, primeiro em Pouso Alegre e depois em S. Roque. 

Pamina ficou em casa (foi Flavio quem quis, porque estava muito triste por ter brigado com a Tania - com quem se casou, separou e recasou e separou de novo).

Pamina

  Quando Jurema engravidou e teve que passar sete meses em casa, de repouso, Sol e Lua voltaram e em casa ficaram quatro cachorros: Paloma, Pamina, Sol e Lua.  Os quatro gostavam de mexerica e minha mãe com paciência ficava alimentando-os.


 Quando André nasceu e chegou a casa vindo da maternidade, a delicadeza da Paloma ao recebê-lo nos admirou: ficou em pé sobre as patas traseiras, sem encostar-se ao cesto, observando-o. Sempre o protegeu.
           
Depois que André nasceu, Jurema foi para São  Roque e Sol e Lua foram com ela.  Paloma e Pamina continuaram em casa.  Paloma dominava tanto a Pamina, que esta se tornou submissa e totalmente sem personalidade.

Daí para frente, alguns fatos marcantes aconteceram. Ayrton teve infarto, e nós nos mudamos para um apartamento. Foi resolvido que elas iriam para o sítio de São Roque. O dia da mudança foi muito difícil. Ayrton no hospital, um sábado à noite, Oscar levando na carreta os móveis dos meus pais, meus pais saindo para passar uns tempos com eles, e a Paloma e a Pamina indo embora. Nesse dia desabei.  Quem estava comigo e me ajudou foi a Penha (a ex-pajem das crianças).
           
Paloma passou a viver no sítio com Pamina e Sol (Lua tinha sido morta com um tiro, dentro do sítio), cruzou com Sol (seu filho), e ao parir a ninhada teve problemas e acabou no veterinário. Isso custou à Jurema e Oscar, uma manhã inteira esquentando cadeira no consultório, e finalmente, depois de uma cesárea, todos os filhotes nasceram vivos.  Não emprenhou mais, pois foi castrada durante a cirurgia.
           
Paloma apegou-se muito à Jurema, e durante os sete anos que viveu no sítio teve uma vida saudável, com muito espaço, carinho e companhia. As crianças da Jurema a adoravam. Ela era também uma boa guarda.
           
Começou a envelhecer, mas muito ativa. Nos seus dois últimos meses começou a sentir o peso dos anos e morreu no dia 30 de agosto de 95. Na véspera passou o dia todo bem mal, com nós todos ao lado dela, principalmente Jurema, de quem ela era a sombra.  

À noite, Jurema a colocou dentro de casa, e por volta de meia noite ela levantou com dificuldade e foi chamá-la. Abriram-lhe a porta, ela saiu, tentou beber água, caiu e em poucos minutos morreu.  Eu só soube de manhã.   

Foi enterrada no bosque, atrás do salão, entre as flores.






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