terça-feira, 2 de setembro de 2014

ARTE EQUATORIANA – SOBRE OSWALDO GUAYASAMÍN


 Foi através de Cremilda Medina que tomei contato com Oswaldo Guayasamin artista equatoriano de muitas obras. Confesso a minha ignorância. Nunca tinha ouvido falar nele. Mas, me interessei e sobre ele vou compor um texto com informações de Cremilda que o conheceu pessoalmente e tem dados para falar sobre ele, e com informações colhida em pesquisas comuns de Internet. Uma mistura das duas fontes certamente me levará a conhecer melhor o Equador e esse artista equatoriano.
Na minha frente, no meu escritório, tenho um mapa da América Latina que me dá uma overdose de conhecimentos visuais do Brasil e de nossos vizinhos. Nunca me dei conta da situação geográfica do Equador, e de seu pequeno tamanho. O país não faz divisa com o Brasil, mas merece que se conheça um pouco mais sobre ele também em termos de atividades culturais como conheço um pouco mais da Colômbia e Peru, não só pelo tamanho relativo, sua vizinhança com o Brasil, mas por suas expressões culturais como Fernando Botero e Garcia Marques, colombianos e Vargas Llosa, peruano.

Conhecendo um pouco do Equador em um pequeno apanhado
EQUADOR é uma república democrática representativa localizada na América do Sul limitada a norte pela Colômbia, a leste e sul pelo Peru e a oeste pelo Oceano Pacífico. É um dos dois países da região que não tem fronteiras comuns com o Brasil, além do Chile. Além do território continental, o Equador possui também as ilhas Galápagos, a cerca de 1000 km do território continental, sendo o país mais próximo daquelas ilhas. Seu território de 256 370 km² é cortado ao meio pela imaginária Linha do Equador.

 A principal língua falada no país é o espanhol (94% da população). Entre os idiomas oficiais em comunidades nativas está o  quíchua,  A sua capital é a cidade de Quito, que foi declarada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 1970, por ter o centro histórico mais bem preservado e menos alterado da América Latina. A maior cidade equatoriana, no entanto, é Guayaquil.
O centro histórico de Cuenca, a terceira maior cidade do país, foi declarado Patrimônio Mundial em 1999, como um exemplo notável de uma cidade planejada, de estilo espanhol colonial, no interior da América.
O país é o lar de uma grande variedade de espécies endêmicas, muitos delas nas Ilhas Galápagos.  Esta diversidade de espécies faz do Equador um dos dezessete países megadiversos do mundo, sendo considerado o país de maior biodiversidade do mundo por unidade de área
Em 1531, com a Guerra Civil Inca, os espanhóis desembarcaram no Equador, então parte do Império inca, governado pelo Imperador Atahualpa que temia os homens vestidos com roupas dos pés a cabeça, com longas barbas e cavalos (um animal que os incas não conheciam)”. Na cidade, Pizzaro montou uma armadilha para os incas que terminou com e a captura do imperador inca e domínio espanhol.
Nas primeiras décadas de dominação espanhola a população indígena foi dizimada pelo contágio de doenças às quais os nativos não eram imunes, tempo em que os nativos também foram forçados ao trabalho pelos proprietários de terras.  A cidade de Quito foi um  distrito administrativo da monarquia espanhola,
A luta pela independência do Equador foi parte de um movimento em toda a América Hispânica liderada por crioulos. O ressentimento com os privilégios dos chamados peninsulares (nascidos na Espanha) em relação aos crioulos foi o combustível da revolução contra o domínio colonial
Depois da Segunda Guerra Mundial, a recuperação do mercado agrícola e o crescimento da indústria da banana ajudaram a restabelecer a prosperidade e paz política do Equador.   Depois do regime militar que se instalou no país, o Equador voltou a democracia em 1979, mas passou por vários governos militares.
Em 2003, o Coronel aposentado Lucio Gutiérrez, membro de uma das juntas militares que governou o pais, assumiu a presidência do Equador, mas deixou o poder em 2005 diante da falta de apoio das Forças Armadas e no meio de fortes protestos, o que conduziu a que seu vice-presidente, Alfredo Palacio, assumisse a presidência. Nas eleições seguintes, Rafael Correa foi eleito e assumiu o cargo em 15 de janeiro de 2007, sendo o atual presidente do país. Em 28 de setembro de 2008 foi adotada uma nova Constituição.

E aí chegamos a Owaldo Guayasamin um representante da arte equatoriana no século XX.
Cremilda Medina conheceu Oswaldo Guayasamín em 1972 e ela escreve;
(...) Ninguém passa incólume ao descobrir esse pintor no Brasil, quase desconhecido dos públicos do século XXI. Nem mesmo aqueles que estudam criticamente ou praticam as artes plásticas eximem-se de um contato afeto à carga emotiva dessa força da terra chamada Oswaldo Guayasamin, que tive o privilégio de conhecer em Quito, em 1972.
 (...) Inconformada com a ausência de sua obra no Brasil, onde museus e galerias não o  expunham, voltei a Quito em 1977 e aí, como depoimento do pintor ,publiquei no  jornal O Estado de São Paulo um texto sobre ele.  Na minha ingenuidade, pensava que essa publicação provocaria um rápido aceno para que uma instituição de arte o trouxesse ao Brasil. Não aconteceu. Trinta e um  anos depois, em abril de 2008 O Memorial da América Latina mostra a obra desse artista equatoriano.”

Quem foi Oswaldo Guayasamin? 

De pesquisa em pesquisa fico sabendo que:
Oswaldo Guayasamín nasceu em Quito em 6 de julho de 1919, de pai índio e mãe mestiça. Seu pai trabalhava como carpinteiro e mais tarde como taxista e caminhoneiro. A família vivia na miséria. Oswaldo foi o primeiro de dez filhos.  Morreu em 10 de março de 1999.
Sempre irreverente, Guayasamin, cujo nome quéchua significa “Ave branca voando” contrariando o pai índio que o castigava para que não pintassem -  algo que ele sempre fez desde cedo -  se dedicava a pintar o sofrimento dos povos.
Diz Guayasimin: Mi pintura es de dos mundos. De piel para adentro es un grito contra el racismo y la pobreza; de piel para fuera es la síntesis del tiempo que me ha tocado vivir.

Em agosto de 1932 começou no Equador, “a guerra dos quatro dias.”  Guayasamin era então um adolescente quando presenciou esses acontecimentos. Nessa guerra morre em uma manifestação seu melhor amigo. Preocupado com os problemas humanos, a violência, a pobreza e a injustiça, Guayasamin pinta o que viu em 1932, em seu quadro “Los niños muiertos”, simbolizando com eles todos os inocentes que morreram inutilmente.  

                                                 Los Niños Muertos

Em suas obras sempre retrata temas sociais, refletem a dor e a miséria que há na maior parte da humanidade e denuncia a violência contra o ser humano, as guerras civis, os genocídios, os campos de concentração, as ditaduras, as torturas, a fome, a desigualdade, a não tolerância.  Suas obras representam a luta, a esperança e a reivindicação dos mais humildes, vitimas de humilhação e abuso por parte dos organismos do poder.   Ele foi um expoente da luta contra o colonialismo.

Etapas de sua obra pictórica:
 A primeira grande série pictórica de Guayasamin  Huacayñan . É uma palavra quichua que significa “El Camino Del Llanto” É uma série de 103 quadros pintados depois de percorrer durante dois anos por toda a America latina.


                                            Uma imagem de El Camino Del Llanto

 A segunda grande série pictórica é La  Edad de La Ira. A temática fundamental desta série são as guerras e a violência que o homem faz contra ele mesmo.  (...) “a série nasceu na Espanha , nas viagens que se multiplicaram de Leste a Oeste  para a implacável coleta de irados e vítimas da ira.”


 

A terceira grande série é conhecida como La Edad de La Ternura, e uma série  Madres - que ele dedica à sua mãe e às mães de todo o mundo e em cujos quadros podemos ver cores mais vivas que refletem o amor e a ternura entre mães e filhos, e a inocência das crianças.

La Edad de la ternura

Madre

                             Fez fotos de personalidades como Fidel Castro, Mercedes Sosa

Fidel Castro

Mercedes Sosa

                                                            Juscelino Kubitschek

Agora um recorte do texto que Cremilda Medina escreveu em 1977 para O Estado de São Paulo, tentando sensibilizar alguma instituição de arte para trazer as obras de Guayasamin para São Paulo. 

(...) Para conhecer Guayasamin, basta captar a emoção dos olhos úmidos, um discurso verbal tenso e seu repertório de histórias que se remetem sempre às dores desta vida.


(...) Terminou há pouco, obra importante – Os Mutilados - seis quadros móveis podem compor “n” combinações em um conjunto que chega ás dimensões de um mural.  Este trabalho custou-lhe três décadas de estudos, de liberação da imagem vivida intensamente. Estava ele num campo de futebol na Espanha em 1947 quando se deparou com um espetáculo insólito: Franco reservara um lugar de destaque no campo pra que, em todos os jogos, ali se acomodassem gratuitamente os mutilados da Guerra Civil.  O jovem índio, nascido na marginalidade, muito consciente, portanto, da condição humana e, além de tudo, artista sensível, engoliu em seco essas imagens de um exibicionismo que ultrapassa qualquer limite.  Foi tão difícil a assimilação do que via, quanto criar os quadros que resultaram dessa vivência. Em seus arquivos há milhares e milhares de desenhos, tentativas que só o satisfizeram na versão que terminou em 1977.

                                                                 Os Mutilados

 (...) Em depoimentos, Guayasamin diz que na sua obra maior La Edad dela Ira, está o seu sangue. O conjunto é um total de 250 quadros em que trabalha há 15 anos, praticamente todos os dias de manhã. Ainda se impõe dois outros ritmos: ora descansa nos retratos, (...)  ora se entrega integralmente aos rostos míticos,  ora faz concessões aos pedidos dos clientes. As joias e o artesanato significam, para ele, a pesquisa das raízes equatorianas.

(...) Quando se pergunta a Guayasamin das origens do profeta da “Idade da Ira”, ele logo lembra uma infância dramática: num quarto mínimo dormiam dez crianças das quase ele era o mais velho, e os pais.  Outro lado que não esquece: “usei sapatos pela primeira vez aos 7 anos.” (...) costuma explicar pela natureza tremenda e insólita do ambiente geográfico a fatal adesão dos equatorianos às artes plásticas. A serra, os nevados, o verde, o casario espalhado nas faldas da montanha, os contrastes históricos - a Quito de 500 anos e a quito americanizada – a cor dos ponchos, o frio e o sol equatorial, tudo altera a química da sensibilidade artística. E Guayasamin definiu muito cedo, contra todas as limitações sociais, que sua vida seria a pintura.

(...) em sua história de vida fico sabendo que já em 1929 (com apenas 10 anos) começou a viver de sua arte: pinta então para os turistas a dois sucres o quadro.  

(...) Na Escola de Belas Artes de Quito, Guayasamin se disciplinou com a seriedade nos estudos levada ás últimas consequências. Ao terminar a escola em 1940, a primeira responsabilidade familiar: o casamento. Mas, continua a viver da pintura.

(...)  Explicando como é possível que esse índio de... se tenha tornado um milionário?
Guayasamin é realista: saiu da miséria, organizou-se para viver da Arte e diz que não tem culpa de a sociedade de consumo estabelecer regras do mercado artístico.  Além disso, na colmeia que é sua casa – os filhos dos três casamentos, mais os filhos da última esposa, uma francesa muito eficiente na administração de bens – a azáfama é constante. Guayasamin,  muito tranquilo, a posição de chefe do clã assegurada e o tempo livre para criar, diz que os Ateliês Guayasamin S.A. são “coisas da família”e que ele não se mete.

(...) Quito, ponto de encontro, linha de muitos cruzamentos importantes – da diplomacia à espionagem, da política  à economia – oferece certas oportunidades de trânsito.  E Nelson Rockefeller  passando por lá, comprou quadros de Guayasamin e o convidou a uma visita a Nova York. Lá tomou contato com obras de El Greco, Cézanne e a desilusão com Gauguin.  Passa pelo México e entra em contato com Orosco.
Nota de pesquisa: José Clemente Orozco  1883 - 1949) foi um dos maiores pintores mexicanos e um dos protagonistas do muralismo Mexicano, juntamente com Rivera. A temática central da sua obra é a revolução, a luta do povo para atingir os seus ideais e uma nova sociedade. A representação formal na sua obra reflete uma mistura de influências estéticas que vão do realismo ao expressionismo e passam pela arte renascentista italiana dos séculos XV e XVI.
(...) A opção pelo humanismo do século XX foi consciente e Guayasamin se lançou numa pesquisa sistemática por intermédio de suas viagens. No Peru e na Bolívia “o terrível espetáculo das populações indígenas.” No Chile e na Argentina, outra América... Dessas experiências saem 100 quadros em três ciclos: “Mestiços” – “Índios” e “Negros”.

                                                          El  Mestiço                                            

 (...) em 1976, por conta dessa consciência de identidade ancestral cria a Fundação Guayasamin, doando ao estado equatoriano todo o seu patrimônio.

Diz Cremilda:
(... Em tempos que não o acompanhei diretamente, já na fase final de sua vida – ele morreu em 10 de março de 1999- iniciou a criação de outro espaço a Capilla Del Hombre., onde iria concentrar a homenagem superlativa ao povo latino-americano, ao sofrimento e às conquistas do mundo pré-colombiano  à colonização e á mestiçagem. A transcendência mestiça da cultura latino-americana aí foi reconhecida por todos os que contribuíram para que a utopia da arte se concretizasse.

 Definido por críticos de sua época,

 (...) Pablo Neruda já o definiu de forma majestosa: “ Guayasamin realizou em sua obra, o Juízo Final que exigíamos aos solitários do renascimento.  Poucos pintores da nossa América são tão poderosos como esse equatoriano intransferível: tem o toque da força; é o anfitrião de raízes, cotidiano á tempestade, á violência, á inexatidão.  E com tudo isso a visão e paciência de nossos olhos são inundados de luz.”


Uma frase que atribuída a Guayasimin o caracteriza.

Yo llore porque no tenia zapatos,hasta que vi aun niño que no tenia pies.









































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