quinta-feira, 25 de setembro de 2014

BOMBIX MORI (O BICHO DA SEDA)

 Pegando carona com um  e-mail recebido  no dia 24 de setembro de 2014 de um ex aluno de 1971,1972,1973, que me causou emoções indiscritíveis (40 anos depois) e que copio aqui, resolvi reescrever a história do bicho da seda em minha trajetória profissional. 
O e-mail:
Um  novo comentário sobre a sua postagem "TEMPOS DE COLÉGIO CAMPOS SALLES": 
Neuza? 
Vovó Neuza? 
Professora Neuza? 
Eu prefiro Santa Neuza, pela paciência em aturar uma turma de alunos inteligentes, mas danados ao extremo.
Sou José Reinaldo Buchara Martins, seu aluno em 71,72,73.
Recordo como se ontem fosse, da quantidade absurda de ramos de amoreira que eu e meus amigos de classe levamos para alimentar a nossa insaciável tropa de bichos da seda que, com sua orientação, criamos no colégio. Época fantástica. 
Mestra! Obrigado por tudo. Deus te abençoe. 

A História:
Foi em 1970.
Eu dava aulas de Biologia no Colégio Campos Salles da Lapa. Sempre fui inventadeira de moda e desta vez eu resolvi criar bichos da seda (nome científico -Bombix mori) porque acompanhando seu desenvolvimento podemos saber das fases desse inseto desde o ovo até as mariposas  machos e fêmeas que copulam e botam ovos fechando o ciclo. Tudo isso foi visto e acompanhado por alunos dos vários cursos e durou cerca de 40 dias.

Fracassada uma primeira tentativa quando os ovos foram distribuídos aos alunos para que eles acompanhassem o processo em suas próprias casas, desta vez resolvemos preparar um local próprio no colégio e trabalhar com a interatividade de todos.

O primeiro passo foi solicitar do Instituto de Sericicultura de Campinas meio grama de ovos selecionados. 1750 larvas nasceram em 16 de setembro. A partir de então foram alimentados 5 a 8 vezes por dia exclusivamente com folhas de amoreira.

Folhas de amoreira.

As larvas nascidas com 3 a 4 milímetros crescem até mais ou menos 8,5cm. 


                                             Larvas ainda pequenas sobre folhas de amoreira

Para acomoda-las foram construídos cavaletes com bandejas que foram limpas várias vezes por dia e reabastecidas com as folhas de amoreira. Quanto mais crescem mais comem e houve um tempo que as amoreiras da Lapa ficaram depenadas.

Nossas próprias  bandejas  

e as larvas no detalhe


Artigo de jornal sobre nossa criação de bicho da seda

Quase todo o trabalho foi desperdiçado quando um aluno fumou perto das bandejas e perdemos cerca de 250 larvas.

Atingido o tamanho limite de crescimento, as larvas param de comer e procuram pontos de apoio para começar a tecer o casulo


Larva no tamanho limite para fazer o casulo

 A larva do bicho-da-seda produz o fio de seda por meio de uma glândula que fica na boca. Do pequeno órgão sai baba que, em contato com o ar, endurece e forma o fiozinho, Durante dois ou três dias, fabrica a substância e a enrola ao redor de seu corpo, criando o casulo.

Casulos  com os primeiros fios servindo de pontos de apoio


 Não vimos a primeira fase de formação do casulo porque isso aconteceu em um fim de semana .Quando chegamos na segunda feira, todos os cantos da sala e as dobras das cortinas estavam cheios de casulos. Daí para frente a vigilância  foi contínua . 

Separamos os casulos para dois tipos de tratamento: alguns foram usados para retirar o fio, fácil de achar a ponta quando se mergulha em água quente. Enrolado o fio finíssimo em carretéis, juntamos cinco carretéis para um fio mais grosso e mais cinco dos mais grossos para fio mais grosso ainda.  Com o fio obtido conseguimos fazer uma amostrinha de tricô. Beleza – uma amostra com fios de produção própria. Um acontecimento!!!!!

Outros casulos foram deixados para completar o ciclo.
No interior do casulo o corpo da lagarta transforma-se, formando a pupa ou crisálida, continua o processo de transformação até à formação do indivíduo adulto, a mariposa. Este estágio dura cerca de 10 dias

Para sair do casulo a mariposa liberta um líquido alcalino que corrói uma das extremidades do casulo abrindo uma abertura para a sua saída. Neste estágio o inseto não se alimenta e é nesta fase que se dedica à reprodução da espécie. Depois do acasalamento a fêmea faz a postura de 200 a 500 ovos, e tal como o macho morre. Este estágio tem a duração de cerca de 10 a 16 dias
Acasalamento das mariposas macho e fêmea e a postura de ovos pela fêmea


E assim se completa o ciclo e mostrando todas as fases de desenvolvimento dos insetos:  ovo – larva – casulo –pupa -  mariposa

Este foi um dos mais belos trabalhos que fiz durante a minha fase de professora.  E o bicho da seda sempre estará ligado a um dos meus sucessos didáticos.


A criação de bicho da seda que propus aos alunos foi algo que movimentou a comunidade. Foram mais de mil larvas alimentadas, foram todas as amoreiras do bairro desfolhadas, centenas de casulos espalhados pela sala, milhares de metros de fios enrolados e algumas peças tecidas em tricô ou crochê como os fios de bichos da seda criados pelos alunos. Foi em 1970.





Um comentário:

Buc disse...

Fico orgulhoso de ter participado dessa história fantástica.
Uma história de dedicação e de muita alegria.
Forte abraço e um beijo na alma.
Do seu aluno
José Reinaldo Buchara Martins