UM REQUIEM PARA NICOLAU
Com autorização de Dante Pignatari, autor do texto, estou republicando a Homenagem a Nicolau de Figueiredo através do link
http://www.ccsplab.org/maisccsp/homenagem-a-nicolau-de-figueiredo-1960-2016/
e com o texto completo.
http://www.ccsplab.org/
e com o texto completo.
O
espírito do barroco
Conheci
Nicolau de Figueiredo em 2009. Uma primeira curadoria de quatro concertos de
música brasileira para o SESC Paulista levou a uma segunda série, “Fina
Escuta”, de 17 apresentações de música de câmara. Um dos concertos da primeira
série trazia o violoncelista Dimos Goudaroulis e André Mehmari tocando cravo e
improvisando ao piano. Conversando depois do concerto, me disse o Dimos que
tocava com o Nicolau quando ia à Europa.
Dos
meus tempos de estudante, eu lembrava vagamente de um moleque ruivo e sardento
que tocava piano como um demônio, que tinha uma leitura espantosa, transpunha qualquer
peça a primeira vista para qualquer tonalidade... tudo isso mais de ouvir falar
do que de fato presenciar. Eu também era jovem, e logo o tinha perdido de
vista.
Para
a segunda série do SESC, programei um recital do Dimos com o Nicolau. Foi no
dia 9 de Outubro de 2009. O então responsável pelo selo SESC assistiu à
apresentação. Após o concerto, foi ao camarim e ali mesmo convidou a dupla para
gravar um CD. Eu, na plateia, estava embasbacado, e mais ficaria na medida em
que o fui conhecendo.
Depois
do concerto, fumando um cigarro na calçada da Paulista, ele me confidenciou, em
tom conspiratório: “Eu faço ópera”. Eu sabia o que isso queria dizer:
transcrever em notação moderna partituras que em geral só se encontram em
manuscritos de época, escrever as ornamentações e os “da capos” das árias,
preparar as partes, ensaiar cantores e instrumentistas e reger a coisa toda. Um
trabalho insano e que exige conhecimentos musicais francamente esotéricos. Uns
anos depois, veria com meus próprios olhos o trabalho hercúleo, e ouviria o
resultado.
Bolamos
um projeto grandioso, de levar música barroca para as igrejas de São Paulo, com
destaque para a produção brasileira do período colonial. Os pontos altos da
programação seriam o Requiem de 1816 do
Padre José Maurício e uma ópera do Alessandro Scarlatti. Não deu certo, mas desenvolvendo
esse projeto, fui conhecendo o Nicolau e me impressionando cada vez mais com a
vastidão de seus conhecimentos musicais, e quão profundamente tinha mergulhado
no universo barroco.
No
final de 2011 passei a integrar a curadoria de música do Centro Cultural São
Paulo. Foram vários os concertos protagonizados pelo Nicolau na Praça das
Bibliotecas e na Sala Jardel Filho, ao cravo, ao órgão e regendo: recital de
cravo, música sacra para a semana santa, para a quaresma, concerto de natal,
música colonial brasileira. E outros, memoráveis todos, em outros locais: no
órgão da Sé de Mariana com Pergy Grassi, o Orfeu
do Gluck na inauguração da Praça das Artes, uma Paixão de Bach na Igreja da Consolação, uma suíte de Rameau no
Theatro São Pedro...
Dava
gosto ver o Nicolau trabalhar, a entrega e a paixão com que acometia um volume
assombroso de trabalho. Ensaiando cantores e instrumentistas, era tão
incansável como implacável, com os outros e consigo mesmo. Podia ser muito
duro, inclusive com os amigos. Quase sempre, era justo, e não guardava rancor. Nem
sempre era muito coerente, mas não se importava em absoluto. Mudava de ideia, e
pronto. Em geral, uma aura de gentileza o envolvia, e quando estava alegre e
cordial, o que nele era natural, me lembrava sempre um gentil homem do início
do século XVIII. Suas maneiras aristocráticas, a fala, os gestos, tinham algo
de barroco.
Me
disse que tinha estudado teoria dos afetos com uma velha atriz francesa. Um dos
maiores cravistas (e organista, e regente) do mundo aprendeu a expressão e a
retórica barrocas com uma intérprete de Racine e Molière; com a sinceridade e a
convicção que só a verdadeira fé traz, dizia que a música que fazia era não
para si, e sim para maior glória de Deus. Quando penso no sujeito generoso,
divertido, despretensioso, amoroso, gentil e nobre que brevemente nos iluminou
com a sua presença, só posso agradecer a sorte de ter podido compartilhar um
pouco de música e de vida com um homem tão extraordinário.
Perdemos
nós, perde o Brasil, perde a música. No céu, certamente em festa, guirlandas de
querubins e serafins se unirão em coro às milícias dos anjos do Senhor para
receber esse músico que com fé sincera, determinação e rigor, tanto fez pela
música, pelo Brasil e pelos que o admiraram e amaram.
Axé,
Nicolau!
Dante Pignatari - Pianista e curador de música do Centro Cultural São Paulo
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