quarta-feira, 13 de julho de 2016

UM REQUIEM PARA NICOLAU

Com autorização de Dante Pignatari, autor do texto,  estou republicando  a Homenagem a Nicolau de Figueiredo através do  link

http://www.ccsplab.org/maisccsp/homenagem-a-nicolau-de-figueiredo-1960-2016/

e com o texto completo.


O espírito do barroco

            Conheci Nicolau de Figueiredo em 2009. Uma primeira curadoria de quatro concertos de música brasileira para o SESC Paulista levou a uma segunda série, “Fina Escuta”, de 17 apresentações de música de câmara. Um dos concertos da primeira série trazia o violoncelista Dimos Goudaroulis e André Mehmari tocando cravo e improvisando ao piano. Conversando depois do concerto, me disse o Dimos que tocava com o Nicolau quando ia à Europa.
            Dos meus tempos de estudante, eu lembrava vagamente de um moleque ruivo e sardento que tocava piano como um demônio, que tinha uma leitura espantosa, transpunha qualquer peça a primeira vista para qualquer tonalidade... tudo isso mais de ouvir falar do que de fato presenciar. Eu também era jovem, e logo o tinha perdido de vista.
            Para a segunda série do SESC, programei um recital do Dimos com o Nicolau. Foi no dia 9 de Outubro de 2009. O então responsável pelo selo SESC assistiu à apresentação. Após o concerto, foi ao camarim e ali mesmo convidou a dupla para gravar um CD. Eu, na plateia, estava embasbacado, e mais ficaria na medida em que o fui conhecendo.
            Depois do concerto, fumando um cigarro na calçada da Paulista, ele me confidenciou, em tom conspiratório: “Eu faço ópera”. Eu sabia o que isso queria dizer: transcrever em notação moderna partituras que em geral só se encontram em manuscritos de época, escrever as ornamentações e os “da capos” das árias, preparar as partes, ensaiar cantores e instrumentistas e reger a coisa toda. Um trabalho insano e que exige conhecimentos musicais francamente esotéricos. Uns anos depois, veria com meus próprios olhos o trabalho hercúleo, e ouviria o resultado.
            Bolamos um projeto grandioso, de levar música barroca para as igrejas de São Paulo, com destaque para a produção brasileira do período colonial. Os pontos altos da programação seriam o Requiem de 1816 do Padre José Maurício e uma ópera do Alessandro Scarlatti. Não deu certo, mas desenvolvendo esse projeto, fui conhecendo o Nicolau e me impressionando cada vez mais com a vastidão de seus conhecimentos musicais, e quão profundamente tinha mergulhado no universo barroco.
            No final de 2011 passei a integrar a curadoria de música do Centro Cultural São Paulo. Foram vários os concertos protagonizados pelo Nicolau na Praça das Bibliotecas e na Sala Jardel Filho, ao cravo, ao órgão e regendo: recital de cravo, música sacra para a semana santa, para a quaresma, concerto de natal, música colonial brasileira. E outros, memoráveis todos, em outros locais: no órgão da Sé de Mariana com Pergy Grassi, o Orfeu do Gluck na inauguração da Praça das Artes, uma Paixão de Bach na Igreja da Consolação, uma suíte de Rameau no Theatro São Pedro...
            Dava gosto ver o Nicolau trabalhar, a entrega e a paixão com que acometia um volume assombroso de trabalho. Ensaiando cantores e instrumentistas, era tão incansável como implacável, com os outros e consigo mesmo. Podia ser muito duro, inclusive com os amigos. Quase sempre, era justo, e não guardava rancor. Nem sempre era muito coerente, mas não se importava em absoluto. Mudava de ideia, e pronto. Em geral, uma aura de gentileza o envolvia, e quando estava alegre e cordial, o que nele era natural, me lembrava sempre um gentil homem do início do século XVIII. Suas maneiras aristocráticas, a fala, os gestos, tinham algo de barroco.    
            Me disse que tinha estudado teoria dos afetos com uma velha atriz francesa. Um dos maiores cravistas (e organista, e regente) do mundo aprendeu a expressão e a retórica barrocas com uma intérprete de Racine e Molière; com a sinceridade e a convicção que só a verdadeira fé traz, dizia que a música que fazia era não para si, e sim para maior glória de Deus. Quando penso no sujeito generoso, divertido, despretensioso, amoroso, gentil e nobre que brevemente nos iluminou com a sua presença, só posso agradecer a sorte de ter podido compartilhar um pouco de música e de vida com um homem tão extraordinário.
            Perdemos nós, perde o Brasil, perde a música. No céu, certamente em festa, guirlandas de querubins e serafins se unirão em coro às milícias dos anjos do Senhor para receber esse músico que com fé sincera, determinação e rigor, tanto fez pela música, pelo Brasil e pelos que o admiraram e amaram.
            Axé, Nicolau!
Dante Pignatari - Pianista e curador de música do Centro Cultural São Paulo

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