quarta-feira, 26 de novembro de 2008

UM CASAMENTO EM 1953 - RETRATO DE UMA ÉPOCA E DE UM CONTEXTO SOCIAL

NOSSO CASAMENTO (DE AYRTON E NEUZA)

O casamento civil foi em casa mesmo, no mesmo dia do religioso, logo depois do almoço, para dar tempo para os preparativos para a cerimônia religiosa. Também a roupa usada marcou minha lembrança. Era um vestido amarelinho, com delicados aneizinhos estampados em relevo, sobre um “nylon” recém aparecido, transparente e com certo volume. Mesmo com a natural consistência do tecido, as saias eram amplas, godês, franzidas e volumosas pelo uso de inúmeros saiotes, em várias camadas.

O casamento religioso foi na Igreja N.SRA. do Carmo na rua Martiniano de Carvalho. Para nós, não teve significado maior do que o social. Ainda não tínhamos sedimentado nossa filosofia de vida nem nos dirigido para nenhuma religião ou negação delas. Íamos no “arrasto” da família, e nos dizíamos católicos, mas na verdade nunca fomos praticantes e muito menos conhecedores do assunto. Assim, escolhemos uma igreja bonita, majestosa, para que a lembrança fosse boa. Era longe de casa, não a nossa paróquia, mas isso não significava nada para nós.

Como era uso na época, nossos padrinhos de casamento eram escolhidos entre amigos dos pais e não amigos dos noivos como é agora.

No civil, por minha parte, um amigo de meu pai, que nem apareceu. Eu pouco o conhecia. Só mandou como presente um jogo de jantar inglês, de muito bom gosto, mas pouco prático para nós, que iniciávamos a vida de uma maneira bem simples. Quase não foi usado nesses 45 anos e ainda o tenho, com algumas falhas e alguns defeitos na louça, exclusivamente devidos ao tempo.  

No religioso, foi um casal, também amigo de meus pais mais do que meus. Torres e Vera Eles haviam perdido o único filho que tiveram, com menos de um ano, e achamos que poderíamos agrada-los com essa gentileza. Recebemos de presente um jogo de cristal com balde de gelo, para Whisky, do qual não resta mais nada.

Por parte do Ayrton no civil foram padrinhos seus tios Jordão e Mariinha, de Santos. Recebemos deles uma enceradeira elétrica, porque ele sempre trabalhou com a Eletrolux. De há muito não existe mais (principalmente depois do advento do sinteco e do hábito de usar carpetes). No religioso, como não podia deixar de ser, foram padrinhos o guru do Ayrton, tio Chico e tia Nenza. Fomos presenteados com dinheiro (não me lembro quanto) para ajudar na viagem de lua de mel.

De Lita, a baiana amiga da família do Ayrton ganhei a “camisola do dia” de cetim branco, ricamente bordada à mão por ela, complementada por uma espécie de capinha, o “liseuse” que ainda está comigo até hoje e mora no Baú da Memória. E mais um relógio de mesa, com base de alabastro e dois cavalos dourados apoiando o mostrador.

Dos presentes de casamento ganhos, três ainda restam: Um prato de bolo de muito bom gosto, da Bohemia, que ainda uso em ocasiões especiais. Sempre é elogiado. Não tenho a menor idéia de quem nos deu. Outro foi uma panela de pressão grande, da marca Marmicoc, dada pelo s. Max e D. Ana, os locadores do primeiro consultório do Ayrton. Ainda existe, funciona muito bem e foi usada nestes 45 anos, quando há bastante gente.

Analisando essa discrição, faço a análise de um tempo

- Não era hábito ter, para o casamento, muitos padrinhos, como acontece hoje. Atualmente vemos casamentos em que o altar fica cheio (cinco ou mais casais), todos com vestimentas planejadas, para que o conjunto fique equilibrado em relação à cor e estilo. No meu tempo (não é saudosismo não. É só uma constatação) havia só um casal de padrinhos por noivo e no altar ficam só os noivos, os quatro padrinhos e os quatro pais.

- Hoje, parece que é “obrigação” dos padrinhos dar presentes caros: geladeiras, fogões, microondas, freezer, TV, som. E quanto mais padrinhos, mais presentes de categoria.
Os padrinhos de então, eram mais ligados aos pais dos noivos, enquanto que hoje, eles são divididos com gente mais jovens, ligados aos noivos (talvez seja essa a razão da quantidade de padrinhos). Davam os presentes que “eles” achavam úteis.

- Devido a problemas familiares com minhas tias Chiquinha e Nena, elas e maridos, que deveriam ser meus padrinhos por laços afetivos e de convivência, só estiveram como convidados.

- Tivemos a cerimônia gravada em áudio, o que era raro na época. Meus pais nos presentearam com o disco (fitas, ainda não tinham aparecido, nem as grandonas - pelo menos para nós - quanto mais os pequenos cassetes de hoje), de surpresa, no fim do ano. Era um disco de 45 rpm e o Flavio com a ajuda de um especialista do Rio, “limpou-o” e passou para fita. Em novembro de 1999, transformado em uma fita especial foi passado para um CD e Flavio já colocou o miolo desse disco (editou-o, deixando só o essencial) no computador. Foi poucos meses antes de Ayrton partir e quando quero ouvir sua voz, uso o CD e o sinto mais perto de mim.

- De resto, o casamento foi o convencional: pequena e simples reunião com a família, um bolo de noiva, champanhe para brindar e aparecer nas clássicas fotos de braços entrelaçados, alguns salgadinhos e a tradicional “fuga” com latas amarradas no carro.

Mudei de estado civil, mudei de estado físico e mudei de comportamento. Mudei de uma individualidade para uma duplicidade que duraria 46 anos.

4 comentários:

JOICE WORM disse...

Que delícia de texto, Neuza.
Que sensação agradável tu me deste...
Bem haja, minha querida. Suas mudanças também foram todas para melhor.
Adoro-te!!

Thaís disse...

Concordo com a Joice!
Que delícia de texto!
Adorei conhecer o blog, visitarei sempre!
Um beijo Vovó Neuza!

PS: também quero as latas atrás do carro no meu casamento!

Anônimo disse...

Oi neuza!!! muito legal seu blog, visitarei sempre!!!! beijo grande!
mayra

Fabio Santos disse...

De emocionar vó neuza.
Em meio há tantos valores perdidos, me encho de alegria quando me deparo com histórias tão bonitas com a sua e de Ayrton.
Lembranças (boas) são sempre boas, e tenho a certeza ABSOLUTA que Ayrton foi muito feliz em ter esta fiel esposa ao seu lado.

Como já disse, te admiro muito !