segunda-feira, 16 de março de 2009

IL VERO TEMPERO ITALIANO

Temperos especiais sempre foram o diferencial da macarronada da nona Gema aos domingos da casa de Vittorio.
- Gio, Enrico, ta na hora do futebol do campinho.
- Tamo indo pai. Estou acabando de amarrar a chuteira. Sei não. É nova e acho que vai machucar.
- - Não vem com desculpa não Gio. Não põe a culpa na chuteira de engolir algum “frango”
E lá se vão os três, pai e filhos, para o programa das manhãs de domingo.

Enquanto isso...

A nona Gemma já levantou cedo e começou logo a preparar a “macarronada”. Hoje não vai usar músculo, como faz nos domingos normais. Hoje é um domingo especial, festejam o aniversário do Vittorio, o filho italiano que imigrou para o Brasil trazendo a mãe, a nona Gemma.
Hoje ela vai fazer “bracciola” e no capricho. Muitas, porque como bons napolitanos eles comem bem e devem precisam ficar satisfeitos.
Ela usa seus temperos habituais, mistura que só ela conhece e que não conta pra ninguém pra não passar o segredo da Macarronada da nona Gemma que é o seu orgulho. Todos vêm da Itália e ela tem o seu estoque. Mas hoje, vai usar um especial que chegou na semana. Deve ser coisa fina porque uma ânfora dourada é a embalagem e a quantidade é pequena.

- Meno male. Io no volho condimento de qüi .

Coloca as “bracciolas” para fritar, em fogo baixo, virando sempre para não passar do ponto. Só se dá por satisfeita quando a carne já está dourada. Desliga o fogo e vai cuidar dos tomates. Tem que ser maduros, no ponto. Ferve-os um tempo (se recusa a usar panela de pressão. Acha que esses modernismos mudam o gosto dos alimentos) Quando estão moles, passa-os em uma peneira onde só ficam as peles. Junta então o creme de tomates às “bracciolas” e vai cozinhando o molho devagar, muito devagar, sempre em fogo baixo. Vai mantendo a “grossura” que só ela sabe. Nem que use a manhã inteira, mas o “ponto” é importante.

A filha de Dona Gemma, a Giuseppina (Pina para os de casa) nem se preocupa com o almoço de domingo. Já se aprontou com suas melhores roupas, embonecou as filhas que já são mocinhas - a Rosa e a Teresa - e foram à missa. O casal tem quatro filhos. Depois das duas meninas, não houve jeito de convencer Vittorio a parar. Queria porque queria tentar um filho homem e para garantia vieram os gêmeos Giovanni e Enrico.
As mulheres puseram em dia as fofocas da região em conversa com as “comadres”.

Meio dia, Uma hora. Todos em casa. Pai e meninos, frustrados pela perda do time em que jogam no campinho de várzea, tomam banho para lavar o desgosto e o suor conseguido nos 90 minutos de jogo. E estão mortos de fome.

Mesa arrumada por Giuseppina e as mocinhas, salada bem colorida para completar o vermelho da macarronada. Mas, só será comida depois do macarrão. Senão, ele esfria e perde a graça. Garrafa de vinho indispensável. E tem que ser italiano mesmo que isso pese bastante no bolso.
Dona Gemma está vigiando o macarrão para que fique “al dente”.

Os seis a postos na mesa e eis que chega a matriarca, aplaudida pela bela travessa da Macarronada da nona

- Nunca esteve tão boa Mama - comenta Vittorio.
Acho que a senhora caprichou mais por ser o meu aniversário.
- No!!! Io só usó questo condimento che arrivò la semana passata.
- Está bom mesmo – confirmam Gio e Enrico, sempre com as mesmas opiniões como bons gêmeos.
E a nora Pina não pode deixar de agradar a “sogra” embora com uma pontinha de ciúmes pelos dotes culinários daquela.

- Está mesmo especial, Signora Gemma.

Não sobra um fio de macarrão e ainda todos enxugam o molho do prato com o miolo do - claro – pão italiano. Garrafa de vinho está vazia. Ainda bem que os pequenos só tomam sangria e os três adultos têm mais vinho para eles.

Bolo de aniversário também especial. É uma “crostata”, uma torta com geléia.

O casal vai fazer seu descanso dominical, quem sabe comemorar a dois o aniversário, e nona Gemma com as meninas vão para a cozinha colocar tudo em ordem. Os meninos – herdando o machismo do pai – nem pensam em ajudar.

A noite termina com um café com “sfogliatella” só para fechar a semana, porque todos estavam mais do que satisfeitos.

Durante a semana, Dona Gemma estranha que chega carta da Itália. A encomenda já tinha chegado na ânfora dourada, é verdade que sem carta junto, mas isso ela não estranhou. Ela deixa para ler quando todos estiverem em casa.

Vittorio começa a ler, vai ficando pálido, assusta a família e dá a eles a notícia de que a Mama de Pina morreu na Itália. Fora “incinerata” e a família de lá estava mandando para a daqui um pouco de suas cinzas. A ânfora era igual a todas da família para que fosse colocada em lugar de honra da casa.

Então, Giovanni gritou:

- Mangiamo la nona!! Mangiamo la nona!!

Imagine o leitor a reação da família.
Agora estava explicado porque a macarronada do aniversário era tão especial.

Novembro de 2005

3 comentários:

lilaemarcelo disse...

Adorei, vovó Neusa! Primeiro que criei o cenário na cabeça, senti o cheiro da comida, fiquei com a boca cheia d'água; ao final, me senti estarrecida e meio culpada.
Imagine eles, que comeram a "nona"!
Abraços soteropolitanos.

RONALDO DERLY RODRIGUES disse...

genial,lembrei da minha infância,sempre tinha a macarronada da minha avó,parabéns pelo blog,abraços,ronaldo.

Anônimo disse...

Nossa viajei para a minha infância na casa da nona aos domingos a família toda reunida para a macarronada...
Parabéns por ser essa pessoa maravilhosa, e exemplo de vida para a turma da terceira idade. Sou coordenadora de um grupo de terceira idade e dou aula de informática para alunas na faixa de 58 a 83 anos.