domingo, 7 de junho de 2009

O BAU DA MEMÓRIA

Há algo que desejamos que permaneça imóvel ao menos na velhice”: o conjunto de objetos que nos rodeiam. (...) eles nos dão um assentimento à nossa posição no mundo, à nossa identidade.(...) são nossos objetos biográficos<.
Ecléa Bosi - O tempo Vivo da memória.


Era uma vez um baú.
Como todo baú que se preza aquele também era de madeira e ocupava um lugar importante, na sala principal da casa.

Um dia, alguém ouviu um zum zum e se aproximando bem pode ouvir uma vozinha esganiçada falando, falando falando. Não dava nem tempo do seu parceiro argumentar ou dialogar.
O alguém foi se aproximando, abriu a tampa do baú e lá dentro encontrou objetos bastante diversos, ajeitados, dividindo um espaço comum. Foi fácil identificar de onde vinha a tal vozinha e de quem era.

- Pois é – dizia a Tesourinha - eu sou a moradora mais velha deste baú. Não a que mora há mais tempo, mas a mais velha em idade. Tenho quase cem anos e você deve andar por aí. Ganhamos o direito de estar aqui porque durante anos servimos a uma certa mocinha – que agora é a Bisa - no seu ofício de bordar a máquina. A máquina de costura e nós dois ajudamos nos belos bordados de rechilieu que se usava na época. Você furava o pano, ela bordava em volta e eu cortava o pano que sobrava para que o buraquinho ficasse bem redondinho e arrematado. Fomos esquecidos muito tempo, sempre estivemos guardados e aqui estamos nós fazendo parte de uma história de vida. Agora, nossa dona, a Bisa, tem 97 anos, mas se lembra que a profissão de bordadeira lhe permitiu sair de casa, trabalhar em lojas que produziam enxovais de noivas e dos bebês que inevitavelmente se seguiam a eles. Enxovais artesanais, característicos de um tempo e de uma classe social de elite.

Mas, olhe só Furador, não estamos sozinhos. Vamos conversar com os nossos vizinhos para ver o que eles têm para nos contar e nos dizer porque estão aqui também.

- Olhe lá que coisa grande. O que será?

- Parece uma mala.

- Não é uma mala não. É uma valise.

- Valise? O que é isso?

- Valise é uma maleta parecida com aquelas que os médicos bêbados de filmes de farwest americanos usavam com seus instrumentos e sua inseparável garrafinha de uísque.

- Dona Valise, porque a senhora está aqui?

- Durante alguns anos fui objeto de desejo de um senhor idoso, que tinha suas próprias manias, e depois de muito procurar alguém me deu de presente para ele. Desde então passei a carregar seus remédios – que não eram poucos - seu medidor de taxa de açúcar no sangue, seringas, insulina - Ele era diabético. Quando em viagem, eu levava também seus objetos pessoais. Hoje, guardo lembranças do que ele foi: as muitas lupas para poder ler, óculos especiais que ele sempre tentou melhorar usando sua criatividade – porque não enxergava bem, seu pincel de barba, o chaveiro preferido, a caneta pessoal sempre com tinta preta, a calculadora com números grandes, fácil de usar, o apito que servia para chamar alguém quando estava acamado, o boné com o nome que ele usava sem o menor constrangimento nas viagens de ônibus e metrô, e até alguns fios de cabelo, seu DNA preservado. Tenho espaço para que sejam guardados também objetos de sua companheira quando ela se for. Compartilhando espaços é como se ainda compartilhassem vidas.

Obrigada, obrigada. Dona Valise. A senhora sabe o que significam aqueles discos, fita e CD?

- Somos a reprodução sonora de um casamento. Os discos, pequenos, como se usava no meio do século XX, de 45rpm, é a gravação original. Foi uma grande surpresa porque ainda não era de uso comum gravar palavras de um casamento. Muitos anos depois, mais de 40, foram transformados em fitas e em um CD uma versão mais moderna. Produto da dedicação de um filho que queria preservar a voz do pai. Reproduzem duas vozes fazendo votos que assim ficaram eternizadas. Em qualquer tempo podem ser ouvidas, trazer lembranças, resgatar emoções e vivências de um momento de felicidade.

]Tesourinha e Furador continuam a bisbilhotar

- Olhe! Lá no fundo, há alguma coisa fofinha, que dá para a gente deitar e tirar um cochilo. Daqui dá para ver que são quatro casaquinhos de lã, bordados com datas: 1984, 1985, 1988. Vamos lá, contem para nós a sua história.

- Somos as lembranças de quatro bebês, quatro elos genéticos que são a esperança de imortalidade dos avós e dos pais. Agasalharam quatro meninos recém nascidos nas datas que os identificam e os situam num tempo real: André vestiu o que tem bordado -1984. Ele foi o primeiro neto, aquele que inaugurou o estado de avó da dona do Baú. Bruno e Tiago, os gêmeos, vestiram os de 1985.São as duas obras primas de um casal, ou, parodiando Machado de Assis em Esaú e Jacó , uma só em dois volumes. O casaquinho de 1988 foi do caçula Victor, que fechou com chave de ouro a coleção de netos dessa avó.
Representantes materiais de infantes que chegaram, encantaram e realizaram sonhos esquecidos de avós ansiosos. Merecemos viver neste Baú.

Eles continuam seu passeio xeretando a vida de seus vizinhos. Lá no cantinho, aproveitando um espacinho pequeno está uma caixinha feia, escura, velha.

- Por que será que ela está aqui?

- Conte para nós sua história - diz o Furador para a caixinha

- Tenho 80 anos. Fui de um tempo em que se tomava chá inglês e ele vinha de longe. Está escrito aqui: do Ceilão. A marca? Te Sol. Uma vez vazia, me usaram para guardar certas penas de aço que serviam para escrever letras todas rebuscadas de livros de contabilidade. O dono delas era guarda-livros- que hoje chamamos contabilistas. Não havia máquinas de escrever, era tudo manuscrito. Para que as penas não enferrujassem, misturou talco e ainda é o mesmo de mais de 70 anos. Felizmente talco não apodrece. Sou lembranças de um pai, de uma profissão, de uma época.

Deitados no fofinho dos casaquinhos de lã, Tesourinha e Furador não conseguem cochilar porque perto deles há duas velhinhas muito charmosas lembrando seus tempos de gloria:

- Você se lembra como nós nascemos?

- Claro que lembro. Fomos feitas para o aniversário de 80 anos daquela tia querida, sempre lembrada carregando uma trouxa de roupa na cabeça e cruzando a cidade para buscar roupa suja, que lavava e trazia de volta a roupa já limpa e passada. Em vez de 80 velas foram feitas 80 de nós, no capricho. Todas de vestidos diferentes, óculos, cabelinhos brancos e até calcinhas. Como fomos apreciadas e disputadas. Onde estarão as outras 78? Pelo menos nos deixaram juntas para matraquear. É um orgulho e um sossego participar deste Baú.

Desistindo de cochilar, Tesourinha e Furador continuam a falar de seus vizinhos.
Encontram duas caixinhas lindas, douradas e marchetadas como só se encontram em Toledo na Espanha. E o bate papo continua.

- Fomos presentes de um aluno distante, muito querido e escolhidas para abrigar objetos importantes. Eu aqui guardo um anelzinho simples, símbolo de um amor nascente. Um primeiro presente, uma primeira demonstração de carinho. E eu tenho um medalhão, restos de pilhagem em uma revolução que atingiu São Paulo de maneira violenta em 1924. Esquecido na devolução passou a fazer parte das jóias da família. Acho que nem de ouro é. Representa um contexto social conturbado, lembra uma cidade destruída e um povo apavorado, fugindo sem rumo. Vocês sabem alguma coisa sobre a revolução de 1924? Provavelmente não porque a que causou maior sensação na cidade foi a revolução de 1932. Mas, a de 24 foi muito mais agressiva para a cidade, que foi bombardeada, teve suas ruas transformadas em trincheiras, e muitos civis morreram. A Bisa sempre conta de uma mocinha que ao fechar uma janela foi atingida por uma bomba, morrendo na hora. O revoltoso comandante era Isidoro Dias Lopes e o povo, sem saber bem porque o elevou a herói. E no ano seguinte apareceram muitas crianças Isidoros homenageando o tenente revoltoso.

E a prosa continua.
- Lembra que eu falei que ajudamos a bordar os famosos rechilieus. Pois olha lá um bordado que nós ajudamos a fazer. Quando a nossa dona ia se casar, lá pelos idos de 1929, ela bordou todo seu enxoval à noite, quando voltava do trabalho. Bordou uma colcha e duas fronhas. Um primor e uma obra de arte. Só ficou a fronha, mas ela é uma prova de trabalho, habilidade, paciência, e foi também um ato de amor, quando junto com os pontos se misturavam os sonhos de moça, as expectativas de futuro. Com mais de 70 anos ainda está perfeita e vive com direitos de antiguidade e significação neste baú de memórias.

Outra vozinha se faz ouvir;
- Vocês não me viram aqui? Vejam como eu sou bonita. Branquinha, toda bordada e com laços de fitas, eu represento também uma época, costumes de então. Chamavam-me liseuse num francês muito pedante da época. Eu era especial porque acompanhava a camisola do dia. Vocês sabem o que isso significava? Naquela época –1953 - o costume era casar virgem e a noite de núpcias era realmente a primeira noite de um casal. A preparação era todo um ritual, a camisola tinha que ser branca – símbolo da virgindade, pureza e inocência Sobre a camisola ainda uma capinha, eu, para complementar o traje. E, num arroubo de praticidade, a liseuse servia para, nove meses depois cobrir os pudores de uma recém mãe quando amamentava seu primeiro filho. Tive ainda mais valor porque fui toda bordada à mão por uma amiga da família, uma baiana muito querida, extrovertida, alegre e sempre lembrada. Fui guardada como recordação de amores descobertos, intimidades aprendidas. Não se espantem. Casava-se virgem sim. Não havia ainda a pílula e o risco de uma gravidez fora do casamento marginalizava a mulher e o filho nascido fora dele era registrado como “natural” e considerado ilegítimo.

Agora é o Furador quem se assusta com uma velhona. É uma boneca agora muito grande,miniatura de uma velha ainda maior. Pergunta à boneca com quem ela se parece.

- Eu represento a Bisa. É como me chamam meus bisnetos. Participei de sua festa de 90 anos. Fui a decoração mais vistosa da festa porque fui bem feita e me parecia com a Bisa, então com 90 anos. Meus cabelos são tão brancos quando eram os dela e tenho até do meu lado uma cestinha com os tricôs e crochês que ela então fazia. Quem me fez foi a mesma que fez as ”velhinhas” . Foi uma festa muito bonita, emocionante e de surpresa. A dona da festa tem agora 97 anos e espero participar de sua festa de 100 anos.

Ainda curiosos querem saber que canudo de papel é aquele que está lá no canto. Desenrolado, já começa a contar sua história:

- Sou uma mensagem que cheguei lá do outro lado do mundo, da gelada Suécia e vim pela Internet. Quem me escreveu foi um senhor que lembrou seus tempos de escola e de uma professora meio maluca – a dona do Baú - que para explicar melhor seus temas, fazia corridas de baratas, dissecava sapos e minhocas, criava bicho da seda. Ele nunca se esqueceu dela e daquilo que aprendeu. Feliz ficou quem recebeu a mensagem porque lhe deu satisfação profissional e se sentiu lembrada. Guardou-me como um símbolo.

Satisfeitos com a explicação, Tesourinha e Furador, já apresentando sinais de cansaço, ainda querem saber o que são aqueles três pequenos livros feiosos com muita coisa escrita. Já motivado por ouvir as histórias dos outros vizinhos, um deles começa a falar:

- Somos diários, testemunhos escritos de um namoro e noivado, de um tempo vivido há 50 anos. Havia uma diferença bem nítida entre namoro (escondido, no portão e oficial) e noivado – quando já se começava a cuidar do enxoval com compromisso de casamento. Nestes diários, há o relato sincero de acertos e desacertos, descobertas e encantamentos. O dia-a-dia de uma mulher apaixonada, suas sensações, emoções e sentimentos.

E Tesourinha e Furador descansam agora até uma nova excursão pelo Baú para ouvir novas histórias e completar uma História de vida.

Chega por hoje diz Tesourinha. Há mais vizinhos aqui, mas vamos deixar para outro dia. Você percebeu Furador, que se nós pararmos para pensar, podemos conhecer uma história de vida, com os depoimentos desses objetos?

É, a vida se constitui de pequenos pedaços, pedrinhas de um mosaico que reunidas formam uma história.

O Baú existe, ocupa um cantinho privilegiado em minha casa e contem além dos objetos personagens da historia, muitos outros igualmente significativos.


13 comentários:

Aninha disse...

Vovó Neuza, seu texto é lindo e muito, muito envolvente. Muito emocionante estar ouvindo esse bate-papo da Tesourinha e afins. Amei esse cantinho. Remeteu-me às minhas saudosas avós: uma, Neusa, e outra, costurava e bordava!
Tudo de bom para a senhora.
Hoje, domingo, o post no 7x7 é meu. Apareça lá, onde sempre é bem-vindo!
Abraço.

Anônimo disse...

Vovo Neuza, realmente seu texto é muito lindo mesmo.
Eu entrei no blog depois de uma pesquisa que a professora tinha nos passado na aula, sobre relatos, cartas, etc, então eu fui pesquisar. Confesso que, no início, pensei que não fosse legal, afinal, pesquisa de escola né?! Mas depois que li o seu texto não me arrempendi! Eu lembro que a minha amiga, que leu o texto antes, disse que quase chorou, porque é muito triste, mas é muito lindo e a senhora escreve muito, muito bem. Adorei mesmo!
Leticia Gomes Cremasco

Sabrina Davanzo disse...

Que lindo texto! Que lindo seu blog vovó Neuza!

RONALDO DERLY RODRIGUES disse...

sensacional vovó neuza,como sempre né,parabéns,um abraço,ronaldo.

Faça ou Desfaça disse...

BELA POR FORA E DE CONTEÚDO, DOCE VOVÓ NEUZA!
Envolvida pela história transportei-me leve e emocionada para perto desse bau que tantas lembranças me trouxeram.
São pertences que só quem os guarda, sabe a importância que eles têm.
Lindo é pouco..é deslumbrante seu jeito suave de expor sua história. Por acaso..."se bem que nada na vida é por acaso", vim conhecer seu blog que me emocionou de verdade.
Amei seu perfil e me encontrei em várias coisas suas também.
Sou uma vovó também que tem memórias lindas de vida e curto internet como ninguém. Gente como você (permita-me chamá-la assim porque como citou,temos a juventude acumulada),ilumina nossa vida também.
Veja conhecer meu blog e espero ter sua amizade também.
Beijocas hiper carinhosas

Rita Andrade disse...

Oi Neuza,
Desculpe-me mas não gosto de vovó, não pra vc.Acabei de ver sua visita ao programa Mais Voce e devo confessar que fiquei mto feliz por saber q vc existe.Isso foi pq me indentifiquei mto com sua pessoa, história e opiniões. Desculpe tb a forma como escrevo (abreviando) mas já q vc é da net, deve estar acostumada. Realmente quero mto poder trocar idéias com vc, espero q me aceite e possa ter um tempinho pra mim.Não quero ser intrusa por isso deixo meu e-mail aki q assim q for possivel entre em contato, por favor. Tenho mtos sonhos e desejos q gostaria mto de conquistar e sei q com sua experiencia vou ganhar tempo, além do q, certamente é maravilhoso poder ter amizade com alguém como vc, tão cheia de vida e inteligencia.
Um grande abraço
Rita - ritauberaba@terra.com.br

Marli Izabel Ramos disse...

Vovó Neusa.
Te vi hoje no "Mais Você".
Conferi seus textos aqui no blog e amei!
Por isso compartilho com você um dos meus poemas, que tem identidade com a sua personalidade.

RECOMEÇO
Começar de novo
é o pão de cada dia.
É o pão nutritivo,
do qual antes não sabia.
O tempo não passa;
passa, é o jeito de pensar.
Pensar no começo,
é uma forma de pensar,
que não tem preço.
Paga-se muito pelo que passou,
por muito ou por pouco ter pensado.
Começar de novo
é nascer a cada dia.
É pôr em prática a vida eterna,
da qual antes não sabia.
É mudar da água para o vinho.
É ter sempre outro começo
ao longo do caminho.

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Conheça alguns outros meus poemas. Esse é o meu site: www.kharisma.barrasa.com.br

carlosverdao. salvador ba. disse...

muito interessante vovó´, sua historia de vida , que sirva de ex:, pra muitos , independente da idade, afinal ninguem nace velho... vi sua intrevista hoje com ana maria... que deus continue te abençoando, tenha um bom dia

jesse disse...

bom dia dona neuza adorei te conhecer hoje pela manha em ana maria braga e passei a ler suas histórias,puxa vida uma liçao de vida tenho um pai de 74 anos e ele tambem adora ler muito ele toca cavaco até hoje e compoe musicas muito inteligente mas na parte da internet nao temos condiçoes para dar um computador a ele mas sei que vou conseguir e voltando ao assunto adorei mesmo eu sempre sabia que ainda existe pessoas tao exepleres assim como a senhora praser jessé,jesse_sha123@hotmail.com

Maria Ramos (Tia Zeca) disse...

Salve, Neuzinha! Após sua entrevista no Mais Você, apresei-me a visitar seu blog: Apaioxonante! Viajei com você no Ping-Pong SP/RJ/SP (amei essa analogia!) ... Decerto que você é um exemplo. Doravante serei visita assídua ao seu blog. E, espelhando-me em você, PRECISO ANTENAR-ME! Estou às vésperas dos 57 aninhos (9 de agosto de 1952). Tornei-me su fã!!! Beijos, Neuzinha

sonia dorea disse...

Parabéns vovó Neuza,fique sua fã

Liz Dantas disse...

Parabén pelo blog,nos BAÚS da nossa memoria,podemos guardar tesouros inatingivéis não é verdade?
Beijos

Anônimo disse...

Oi, boa noite, Vó...
Foi muito bom vê-la na TV se expressando de maneira tão autêntica... Não conhecia nada sobre a senhora e fiquei encantada com sua pessoa. Gostaria que, quando a senhora tivesse um tempinho, pudesse dá uma olhadinha no blog da comunidade que faço parte. Quem assina o blog é o Almir, líder da comunidade e outra pessoa também expressiva e autêntica, tal como é a senhora.
beijos!! Fica com Deus!
Kedma