sábado, 18 de julho de 2009

PELOS, CORES, AMORES E...

Que me desculpem as feias, mas beleza é fundamental
(Vinicius de Moraes)

Anfostofolia era uma felina chic, da alta sociedade, que compõe o visual perua da madame na casa de quem mora. Da raça pixie bob, descendente do lince americano, tem rabo curto (5cm). Pedigree documentado. Tem direito o coleira de ametistas que combina com o reflexo que mandaram fazer em seus pelos. As pedras só não são brilhantes porque atrairiam seqüestradores e o resgate por ela, Anfostofolia, seria até maior do que o valor das pedras. Suas roupas são de grife e comprada na Daslu bichos; custam mais do que um salário mínimo as peças mais recentes. Come ração importada e para variar quitutes da Cat Bakery, feitos sem conservantes. Tem até plano de saúde especial. Anfostofolia já esteve na ilha de Caras, tirou fotos para um book e participou de um desfile para eleger a mais bela “gatosa” (gatona gostosa). Ganhou é claro.

Mas, aproveitando um descuido de madame, deu uma escapada e “namorou” o gatão da favela vizinha. Como ainda não se tinha inventado camisinha para felinos e os anticoncepcionais próprios eram daquele lote que o laboratório lançou errado – farinha pura – não deu outra: gravidez não desejada só descoberta quando da visita mensal ao veterinário que acompanhava sua saúde.

E aí a corrida: reserva de acomodações no Felinoeinstein, o hospital ISO 9000 e no momento certo Anfostofolia foi para a ala Vip. Apartamento privativo, com direito à acompanhante, madame naturalmente.

O veterinário teve que convocar, em regime de urgência, três assistentes e um anestesista para o “parto”. Para que Anfostofolia não sofresse, a equipe discutia: anestesia geral ou peridural? A natureza foi mais rápida e enquanto eles discutiam, os “bebês” começaram a nascer.

Como é natural nos felinos, sempre nascem vários “felininhos” e isso certamente aconteceu, mas, para que o (a) herdeiro fosse único e recebesse o mesmo tratamento da mãe sem direto a ciúmes entre irmãos, deu-se um “jeitinho” e só uma sobreviveu. E Anfostofolia ficou naturalmente frustrada porque nem a deixaram seguir sua natureza: cortar o cordão umbilical e romper o saco envolvente com os próprios dentes, gesto com que assumia a condição de mãe. Com tesouras esterilizadas e usando luvas próprias, os assistentes fizeram o serviço. Mesmo assim, Anfostofolia curtiu o nascimento. Já tinha sentido a emoção única dos movimentos da vida dentro de si, aquela sensação especial de ser fêmea; e agora se tornava “mãe”, um status “nunca dantes conseguido”. E logo quis ver sua obra prima. Nome já tinha: Filastolfa. Era lindinha, pelo azul de bolinhas pretas, cor herdada do pai um “gatão” pretinho.

No berçário foi a sensação. A revista Veja fez uma reportagem e a rede Globo mandou uma equipe para matéria do Fantástico. Madame orgulhosa exibia mãe e filha – Anfostofolia e Filastolfa.


Anfostofolia e Filastolfa continuaram na casa em que moravam com as mesmas mordomias. Na primeira consulta ao veterinário e por recomendação deste voltou ao Felinoeinstein para uma esterilização completa. Maternidade, nunca mais. Vigiada agora por um personal security, não pode mais dar as escapadas para suas noites de amor. Entristeceu, foi ficando depressiva e morreu antes de Filastolfa completar um ano.

Filastolfa herdou o personal security da mãe e não conseguiu dar nenhuma escapada, não conheceu o amor, não deu seus gemidos pelos telhados, não acordou casais pelo meio da noite para o amor da madrugada.
Virgem triste foi também definhando, seu pelo de um azul celeste foi clareando, clareando, clareando e ficou branco. Ela se tornou uma gatinha magrinha, anêmica branca de bolinhas pretas. Fantasmagórica.

Com esse visual não pode mais “enfeitar” a madame que tinha vergonha de desfilar com ela no colo. Encomendou ao veterinário outra gatinha. Desta vez escolheu uma de pelo verde com listas amarelas produzidas por reflexos. Já tinha então um adorno diferente para seguir para a Europa no tempo dos jogos da copa. Exibiria sua prenda brasileira nos desfiles do jet set internacional. E deu a ela o nome de Lady Di que certamente todos conheceriam. Nomes tupiniquins, nunca mais. Já então Filastolfa definhava como Anfostofolia e morreu mansinho, “como um passarinho”.

Moral da história: no mundo dos ricos a perenidade depende da aparência: Enfeiou, dançou.

11 comentários:

dollystar disse...

Essa moral da história é a maior verdade que poucos aceitam..
bjs e parabéns por seu blog
bom final de semana

Cristin disse...

Verdade mesmoOO,
gostei mto do seu post...
Profundamente real.
Bjus lind@

Joice Worm disse...

Beijos de saudades, Neuza! Estás a escrever cada vez melhor.
Muac!!!

Rosana Bonalume disse...

Adoro seus textos e comentários.
Adoro seu blog e por isso tem um selinho no meu pra vc.

beijocas

Adriano disse...

Vovó Neuza, parabéns pelo blob. Vi no perfil que gosta de literatura. Gostaria de lhe enviar um livro. Se tiver interesse, é só me enviar seu endereço. Meu e-mail é: adrianmcendo@hotmail.com . Um abraço, Adriano Macedo.

Tiana de Souza disse...

Vovó Neuza, Adorei seu blog.
Assisti sua entrevista no programa
da Ana Maria Braga, fiquei imprecionada com suas palavras.
Um Abraço

carla viana disse...

Vovó Neuza, adorei seu blog.
Assisti sua entrevista hoje a tarde no programa da Tv Aparecida, sou da Bahia e é muito gratificante encontrar um blog com texto para se refletir, aprender e viajar na literastura e na arte.
Um abraço
Carla Patrícia

Solange disse...

Te conheci hoje, através da reportagem da TV Aparecida. Fiquei encantada com a tua lucidez, pela disposição para aprender sempre e pela alegria de viver. Vejo muitos jovens desanimados com tudo, com a vida que ainda tem pela frente. Eles parecem ter preguiça de fazer qualquer coisa, não tem esperança. Minha filha(hoje com 17 anos) aos 12 anos, dizia: "Tenho que crescer, estudar, me formar, pra quê? Não tem emprego pra ninguem...." Graças a Deus hoje ela mudou bastante, passou a fase da preguiça de viver. Mudando de assunto, adorei teu blog, gostei do teu jeito de ser, acho que tenho gostos parecido com os teus: tenho 51 anos, ainda estou na época de minha vida que cuido de casa, marido, filha, sogra( cuidei do sogro doente, mas ele foi pra outra vida em maio), 3 cachorros, muitas plantas e nas horas vagas dou aulas de pintura em tela e tecido, bordado arraiolo e outros, e o que mais alguem quiser aprender e eu souber pra ensinar, "to nessa". Me formei técnica quimica(odiei pois odeio cozinhar), engenheira eletrica(trabalhei em Sampa por 10 anos), mas agora sou "artista". Gosto de aprender coisas novas, de assistir uns videos educativos sobre qualquer assunto(minha filha fica tirando sarro quando é sobre Física Quântica), tambem detesto futebol, pagode(prefiro samba mesmo). Gosto de musicas de quase todos os tipo, mas prefiro as classica e livros espíritas. Sinto falta de ter com quem conversar tambem sobre essas coisas, as mulheres com quem convivo so falam de comida,casa, problemas familiares....sabe aquele mundinho pequenininho...Bom acho que pro hoje é só. Outro dia volto por aqui, quero ficar antenada como voce. Seguirei teu blog. Espero que o meu tico e teco estejam sempre espertinhos. Beijos
Solange

Cíntia Maciel disse...

Olá !

Estou passando para te desjar um ótimo dia ... repleto de alegrias !

Beijos no ♥

Espero a tua visitinha, ok \o/

seu gordo disse...

vovo parabens seu blog como sempre bombando

Fábio disse...

Só no mundo dos ricos?

Belo conto.