segunda-feira, 6 de julho de 2009

UMA AVENTURA BIOLÓGICA

Escrita por Neuza Guerreiro de Carvalho (LFFCLUSP-HN)
a sigla já é um mistério. Decifre se for capaz

Era uma vez...
Há bilhões de anos, a “bola” que é o nosso planta ainda tinha a superfície mole mole, derretida, querendo esfriar e endurecer. E nesse processo se formaram “bolhas” no meio da rocha.

Segue o tempo, ventos e água vão desmanchando rochas, formando “terra” e as “bolhas” viram grutas.

Se a terra de cima da gruta tiver carbonato de cálcio, as rachaduras do teto deixam passar água e o carbonato. Vão pingando e formando as estalactites e estalagmites (1) que quando se juntam formam colunas : a gruta fica parecendo um paliteiro de lindas formas brancas.
Esse é o cenário da nossa história e nos a chamamos de A GRUTA DOS DIFERENTES.

A Arca de Noé que trouxera para as proximidades um casal de cada bicho, deixou abandonados os que sobraram da elite, os mal feitos, defeituosos ou feios demais. Foram se refugiar na gruta e assim ela também recebeu o nome de MANSÃO DOS EXCLUIDOS.

Aí ficaram lesmas, sapos, lagartos, um peixe elétrico ou poraquê (esse sim esquecido porque era importante na Arca), lagartixas, escorpiões, camarões, morcegos, ratos, pererecas, urubus, moscas, borboletas, minhocas, aranhas, centopéias e até um tatu que logo cavou sua toca e não se misturou;e um urubu que dava suas escapadas para seus vôos de exploração. Nem sempre casais.

E aí correu solto o “amor livre”, as “amizades coloridas” porque ninguém é de ferro. Nem os bichos.

As leis da Biologia de que animais diferentes não podem cruzar foi ignorada. Afinal aquela bicharada não tinha que dar satisfação à ninguém, nem a Darwin nem a Mendel.
E um olhar lânguido de cá, outro de lá; um sorriso estranho, mas sorriso, um rebolado sensual, ferohormonios se produzindo e circulando e novos casais foram se formando. Amores difíceis, transas complicadas, mas a Natureza dominando.

Passam os anos e um dia um cientista xereta chegou sem querer à gruta e se espantou. Encontrou sapocegos, cascatixas, morpiões, camarecas, perebu, mornhocas, barbanhas, araletas, urucamas sagartos, lesmaquê, sapotixas, sagartos, talvos, poltus, arapeias....
Dá para perceber que o mais assanhado era o sapo que namorou e casou com fêmeas de várias espécies.

Às vezes as transas foram até engraçadas: imagine uma centopéia com todas aquelas patas com o “aranho” com outras tantas. Uma confusão de patas. Mas, sempre deram um jeitinho e muitas arapéias foram geradas.

As pererecas viviam pulando pela gruta assustando um tranqüilo camarão acostumado às águas mansas. Tanto fez que o conquistou e as camarecas resultantes viviam o inverno na terra e o verão na água contentando o gosto de cada um dos pais.

O sapocego custou a aceitar dormir dependurado e a sapocega teimava em botar ovos (reprodução mais cômoda) do que parir bichinhos.

Já imaginaram uma cascavel presa por ventosas no teto da gruta? Era assim que ficava a cascatixa fruto da cascavel com a lagartixa.

O morpião macho sempre vivia apreensivo porque qualquer escorregão, qualquer olhar mais sensual para fêmeas da gruta, desencadeava a fúria de sua metade escorpião e a cauda empinava, o veneno se concentrava e a picada era uma ameaça para a outra metade.

Os perebus oscilavam entre uns míseros pulinhos pererecos e os vôos altos e elegantes da porção urubu.

Mornhocas eram esquisitas: os gens da minhoca predominaram e eram tubos anelados com asas e cara de rato. No inverno viviam em tubos cavados no solo e no verão procuram um lugar mais arejado se dependurando nas estalactites porque o teto estava congestionado pelas colunas calcarias e não deixava muito espaço.

Barbanhas eram lindas. Tinham asas coloridas, gostavam de espaços para voar e às vezes pediam carona para o urubu. Na gruta viviam trombando com as colunas. Tinham apenas oito patas porque por seleção natural a borboleta tinha perdido suas seis patas. Também 14 seriam demais. A natureza sabe o que faz (será que soube?). Se por azar a parte aranha da borbanha fosse de uma “viúva negra”, não adiantaria a beleza da parte borboleta porque depois da transa e da reprodução assegurada , a borbanha era literalmente assassinada.

Lesmaquê vinha de um poraquê que é um peixe elétrico e uma lesma já meio frustrada porque todos os seus irmãos moluscos tinham casa própria (as conchas) e ela não. Além disso, era lerda, rastejante e sem graça. Nem colorido tinha. Não sei o que o poraquê viu nela!!!!! Ele era ágil, “elétrico” e vivia dando choques nela para ver se ela se “ligava”

E por preconceito ou não, alguns ficaram do lado de fora da gruta: umas amebas chegadas com as grandes chuvas, umas pulgazinhas saltitantes que queriam mais espaço, carrapatos desesperançados de encontrar sangue quente...

As amebas ficaram se multiplicando tranqüilamente porque não precisavam de nenhum macho. Era só se dividir e dividir e dividir...

E ao ar livre, formaram-se rapidamente liquens que se estenderam pelo solo servindo de base a uns musgos que já eram vegetais melhorados. Aproveitavam a luz solar, faziam fotossíntese, geravam energia e formaram o seu ecossistema próprio.

Um dia...
As “crianças” dos novos bichos brincando pela gruta e curiosas como toda criança, foram remexer num cantinho esquecido da gruta. E acharam um OVO. Não um ovinho como o da sapa, mas um OVÃO. Chutaram o OVÃO como se fosse uma bola, brincaram tanto que acabaram por quebrar sua casca até bem dura. E, o “bebê” que nasceu ainda nem estava pronto e não sobreviveu. Ainda bem porque era horrível (como se os outros não fossem!!!!) Era o resultado do “amor” entre um Dinossauro e uma Pterodáctilus (2). Seria grande e pesado como o DINO e asas para voar, coisa que jamais faria pelo peso. Não era ainda um avião.

E aí, perdidos por esse mundo ainda árido, chegaram espécies também esquisitas, dois casais:
O Chipahomo com sua mulher homoleta e o homopangé com sua mulher homonhoca.
Eram o resultado de um cruzamento possível. Dois Homens recém chegados à espécie Homo sapiens estavam sós no seu espaço e só encontraram chipanzés para companhia; “namoraram” e deu o que deu.

Um deles achou a chipanzé fêmea bem ajeitada, “namorou” e “casou” dando muitos homopanzés. O segundo homem também “casou” com uma chipanzé, mas os genes se misturaram de maneira diferente e deu com resultado os chipahomos. Esses “monstrinhos” na busca de companheiras encontraram homonhocas e homoletas. Formaram casais felizes porque podiam andar livremente (ainda não tinha árvores) nus, com um rabo para ajudar no “namoro” porque além de mãos dadas tinham rabos entrelaçados. A homoleta é claro, era mais bonita que a homonhoca porque suas asas coloridas eram atrações sexuais e as cenas de ciúmes eram freqüentes. Como bons amigos às vezes eles trocavam de fêmea para variar. Não havia leis morais, só as da natureza. E eles viviam “tarados” com muitos hormônios circulando.

Os dois casais que se achavam mais evoluídos começara a querer mandar na comunidade da gruta e colocar restrições e comportamentos.

- Não pode isso...Não pode aquilo.... Se fizer isso vai ser castigado.... Imposições vindas de sua porção humana.

Não demorou muito virou bagunça, formaram-se partidos, partiram para a briga e acabaram se destruindo uns aos outros.

Os casais intrometidos ainda usaram amebas e bactérias para fazer a “guerra biológica” e aí o fim foi completo.

E a GRUTA DOS DIFERENTES ou MANSÃO DOS EXCLUIDOS ficou vazia, só com uma aguinha no fundo, bem transparente. Contaminada pelas toxinas das amebas traidoras, as águas não receberam mais nenhum ser vivo. E as brancas colunas eram fantasmagóricas.

FIM

1 – Estalactites são formações calcárias em grutas .Formam-se de cima para baixo com a forma determinada pela escorrer da água. Ficam como um cone pontiagudo porque o cálcio vai se solidificando de cima para baixo. Estalagmites são formações calcarias que se formam na direção da estalactite só que com formatos diferentes porque tem seu centro côncavo pelo pingo de água. Quando as duas se juntam forma-se uma coluna.

2 – Pterodáctilus –São seres intermediários entre Répteis e Aves. Tem corpo mais semelhante aos répteis (lagartos) e asas. São grandes e ilustram sempre figuras
de fosseis.

Procura-se alguém com habilidades artísticas para desenhar esses “belos” bichos. E aí o conto fica completo, ilustrado e tudo.


3 comentários:

Cristiane disse...

Neuza, vi o seu vídeo da Ana Maria Braga, que história linda!!! Estou encantada. É lindo ver esta empolgação com a vida. É inspirador.

Quando for a São Paulo, vou lá na Casa das Rosas só para te ver.

Um grande beijo!

Blog do Fer disse...

Neuzinha, você escreve demais literalmente... eheheheh :)

Fico impressionado com sua vontade, afinal é ele que nos move.

Grande beijo!

krisvasques disse...

Vovó Neusa, estou estudando para ser uma contadora de histórias profissional e fuçando na internet achei o seu blog e pude ver a sua entrevista na Ana Maria Braga. Gostaria de parabenizá-la pelo blog e por sua história de vida. Quero ter a oportunidade de chegar a sua idade com essa força e vitalidade e ocupando os meus neurônios...
Muito obrigada pelo exemplo e por disponibilizar suas histórias.
Que Deus abençõe a senhora com muita paz, alegria, sucesso e saúde.

Beijocas
Cris Freire
krisvasques@hotmail.com