A HISTÓRIA DE ISABEL
Por conta deste Blog, ganhei muitos seguidores que continuaram o contato. Uma foi Isabel que mora em Lisboa, Portugal. Nas mensagens, é encantador o jeito lusitano de escrever.Quando ela citou um objeto que eu não conhecia "tábua de Colo" pedi a ela que me explicasse o que era e escrevesse algo sobre o objeto. Daí saiu uma história simples gostosa de ler.
"Tabua de Colo"era uma peça que as modistas usavam para alinhavar (passar a linha) nos tecidos para confeccionar as roupas.
TABUA DE COLO
Na época em que fui fabricada, havia muitas modistas que me utilizavam no seu trabalho.
Certo dia (1948) fui oferecida como prenda de casamento à linda jovem “Conceição” que sua profissão era modista e abajureira.
Tive ao longo de vários anos muito trabalho; vestidos, calças, blusas, saias, casacos, vestidos de noiva, um sem número de peças de vestuário e ainda lindos abajoures.
Passados seis anos, nasce uma linda bébé de seu nome Isabel: aí passou por mim lindas roupinhas; vestidinhos, casacos, chapéus, enfim, a minha Conceição tinha umas mãos de ouro.
Quando esta menina tinha 4 anos, partimos os três (Conceição, Isabel e eu), rumo a África – Angola para nos juntar ao pai de Isabel que se encontrava a trabalhar na construção da barragem de Cambambe.
Aí, continuei a dar o meu apoio à Conceição, que, além das roupas confecionadas para a família, começou a ser conhecida e as clientes foram aparecendo.
Decorrido 3 anos nasce outro lindo bébé de seu Paulo .
Mais um elemento na familia e mais trabalho para mim. Era uma familia feliz.
No ano que este bébé nasceu , começou a guerra colonial e houve dias, semanas, meses muito dificéis, mas tudo foi superado.
Com o fim da construção da barragem , o chefe desta familia (Severino) rumou até Luanda. Mais uma viagem de longo curso, (fui embrulhada com todo o cuidado para não partir e lá fui até Luanda).
Esta familia recomeçou de novo o seu percurso de vida, e aos poucos encontraram estabilidade e os anos seguiram com trabalho, alguns atropelos naturais da vida, mas uma familia unida e feliz.
Quando a vida estava equilibrada, ora chegou a descolonização, veio os confrontos dos partidos políticos e em 1979 regressei a Portugal, país de onde tinha partido há 22 anos.
Aí não foi fácil a adaptação desta familia. A minha Conceição não arranjava clientes e começou a minha degradação. Passei a estar muito tempo guardada, raramente havia trabalho e o pronto a vestir veio colocar-me na prateleira.
Assim fui ficando ano após ano. A minha Conceição raramente precisava de mim e em 2001 ela partiu. Agora estou guardada como recordação pela sua filha Isabel, mas não tendo seguido os passos de sua mãe, ainda me vai utilizando para os seus pequenos trabalhos.
Hoje já ninguém me conhece, nem sabem que um dia existi e que tanto ajudei as modistas . Estou ficando danificada , cheia de buraquinhos, muito polidinha , mas estou estimada e bem guardada. Até um dia....
Nasci em Lisboa, tenho 55 anos e com 4 anos fui para Angola. Meu pai foi trabalhar na construção da barragem de Cambambe, estivemos lá 3 anos, nasceu meu irmão e depois fomos para Luanda onde vivemos até 1979, regressando a Portugal "infelizmente". Luanda é a minha terra de paixão, cresci, fiz os meus estudos, iniciei a minha vida profissional e estava a construindo o meu futuro. Uma vida feliz, a minha mãe, meu pai, meu irmão, uma casa cheia, não esquecendo os vizinhos, amigos, colegas de escola e de trabalho. Só depois que perdemos tudo é que reconhecemos como fomos ricos sem saber.
Regressando a Portugal, aí começou os problemas, um atrás do outro e lá vão continuando até aos dias de hoje.
Ao fim de um ano arranjei trabalho , estive 5 anos, mas passado 2 anos o patrão começou a não pagar os vencimentos. Só via os meses passar mas nunca sabia quando era fim do mês. A minha mãe começou a tomar conta de crianças, e assim equilibrávamos a situação.
Passado os 5 anos fiquei desempregada, não dava para aguentar mais aquela situação e fiquei em casa ajudando minha mãe. Estive 3 anos sem trabalho. Depois voltei a arranjar emprego e aí estive 16 anos e fui equilibrando a vida.
Depois de mais uns trambulhões no decorrer do tempo, em 2001 fiquei sem a minha mãe. nunca esperei perdê-la tão cedo. Já não andava bem devido a outros problemas e então fiquei mesmo no fundo do poço. Passado um ano, com a reestruturação da empresa, a nova administração entendeu despensar os funcionários mais antigos, para assim não ter obrigações para com os mesmos e deram indemnizações e claro bateu-me à porta. Se estava mal .....
Depois de procurar em vão trabalho, pois já tinha o rótulo da idade, levava sempre o não. Fiquei em casa péssimamente mal.
A minha mãe partiu, mas tinha o meu pai que por ele ganhava força para podê-lo ajudar. Então começei a tomar conta de crianças e assim fui superando muita coisa e ajudam -me a não pensar. Passado três anos vejo partir também meu pai.
Agora tenho meu irmão que está a morar comigo e tenho os pequeninos que sou tia de todos eles. Os que já estão na escola, por vezes vêm passar o fim de semana comigo.
No intervalo destes anos ainda houve um casamento de 25 anos que ajudou a dar cabo da minha saúde.
Tabua de colo da mãe de Isabel
Mãe de Isabel usando a tabua de colo
Para quem quiser, o e-mail de ISABEL é resende.isabel123@gmail.com
"Tabua de Colo"era uma peça que as modistas usavam para alinhavar (passar a linha) nos tecidos para confeccionar as roupas.
TABUA DE COLO
Na época em que fui fabricada, havia muitas modistas que me utilizavam no seu trabalho.
Certo dia (1948) fui oferecida como prenda de casamento à linda jovem “Conceição” que sua profissão era modista e abajureira.
Tive ao longo de vários anos muito trabalho; vestidos, calças, blusas, saias, casacos, vestidos de noiva, um sem número de peças de vestuário e ainda lindos abajoures.
Passados seis anos, nasce uma linda bébé de seu nome Isabel: aí passou por mim lindas roupinhas; vestidinhos, casacos, chapéus, enfim, a minha Conceição tinha umas mãos de ouro.
Quando esta menina tinha 4 anos, partimos os três (Conceição, Isabel e eu), rumo a África – Angola para nos juntar ao pai de Isabel que se encontrava a trabalhar na construção da barragem de Cambambe.
Aí, continuei a dar o meu apoio à Conceição, que, além das roupas confecionadas para a família, começou a ser conhecida e as clientes foram aparecendo.
Decorrido 3 anos nasce outro lindo bébé de seu Paulo .
Mais um elemento na familia e mais trabalho para mim. Era uma familia feliz.
No ano que este bébé nasceu , começou a guerra colonial e houve dias, semanas, meses muito dificéis, mas tudo foi superado.
Com o fim da construção da barragem , o chefe desta familia (Severino) rumou até Luanda. Mais uma viagem de longo curso, (fui embrulhada com todo o cuidado para não partir e lá fui até Luanda).
Esta familia recomeçou de novo o seu percurso de vida, e aos poucos encontraram estabilidade e os anos seguiram com trabalho, alguns atropelos naturais da vida, mas uma familia unida e feliz.
Quando a vida estava equilibrada, ora chegou a descolonização, veio os confrontos dos partidos políticos e em 1979 regressei a Portugal, país de onde tinha partido há 22 anos.
Aí não foi fácil a adaptação desta familia. A minha Conceição não arranjava clientes e começou a minha degradação. Passei a estar muito tempo guardada, raramente havia trabalho e o pronto a vestir veio colocar-me na prateleira.
Assim fui ficando ano após ano. A minha Conceição raramente precisava de mim e em 2001 ela partiu. Agora estou guardada como recordação pela sua filha Isabel, mas não tendo seguido os passos de sua mãe, ainda me vai utilizando para os seus pequenos trabalhos.
Hoje já ninguém me conhece, nem sabem que um dia existi e que tanto ajudei as modistas . Estou ficando danificada , cheia de buraquinhos, muito polidinha , mas estou estimada e bem guardada. Até um dia....
QUEM É ISABEL RESENDE?
Ela mesma escreveu:Nasci em Lisboa, tenho 55 anos e com 4 anos fui para Angola. Meu pai foi trabalhar na construção da barragem de Cambambe, estivemos lá 3 anos, nasceu meu irmão e depois fomos para Luanda onde vivemos até 1979, regressando a Portugal "infelizmente". Luanda é a minha terra de paixão, cresci, fiz os meus estudos, iniciei a minha vida profissional e estava a construindo o meu futuro. Uma vida feliz, a minha mãe, meu pai, meu irmão, uma casa cheia, não esquecendo os vizinhos, amigos, colegas de escola e de trabalho. Só depois que perdemos tudo é que reconhecemos como fomos ricos sem saber.
Regressando a Portugal, aí começou os problemas, um atrás do outro e lá vão continuando até aos dias de hoje.
Ao fim de um ano arranjei trabalho , estive 5 anos, mas passado 2 anos o patrão começou a não pagar os vencimentos. Só via os meses passar mas nunca sabia quando era fim do mês. A minha mãe começou a tomar conta de crianças, e assim equilibrávamos a situação.
Passado os 5 anos fiquei desempregada, não dava para aguentar mais aquela situação e fiquei em casa ajudando minha mãe. Estive 3 anos sem trabalho. Depois voltei a arranjar emprego e aí estive 16 anos e fui equilibrando a vida.
Depois de mais uns trambulhões no decorrer do tempo, em 2001 fiquei sem a minha mãe. nunca esperei perdê-la tão cedo. Já não andava bem devido a outros problemas e então fiquei mesmo no fundo do poço. Passado um ano, com a reestruturação da empresa, a nova administração entendeu despensar os funcionários mais antigos, para assim não ter obrigações para com os mesmos e deram indemnizações e claro bateu-me à porta. Se estava mal .....
Depois de procurar em vão trabalho, pois já tinha o rótulo da idade, levava sempre o não. Fiquei em casa péssimamente mal.
A minha mãe partiu, mas tinha o meu pai que por ele ganhava força para podê-lo ajudar. Então começei a tomar conta de crianças e assim fui superando muita coisa e ajudam -me a não pensar. Passado três anos vejo partir também meu pai.
Agora tenho meu irmão que está a morar comigo e tenho os pequeninos que sou tia de todos eles. Os que já estão na escola, por vezes vêm passar o fim de semana comigo.
No intervalo destes anos ainda houve um casamento de 25 anos que ajudou a dar cabo da minha saúde.

Para quem quiser, o e-mail de ISABEL é resende.isabel123@gmail.com
Comentários
Aqui estou devido ao seu contato com a pessoa com quem trabalho, para quem a senhora enviou um lindo e-mail. Eudóxia.
Voltarei para ler o restante dos posts, mas A Tabua de Colo, foi um aperitivo delicioso.
Parabéns!
Rosana
fica bem .., de sua miga meio irma, meio filha, meio alma gemea.. que muito te gosta... bjos... yara!!!
Grande beijo, vovó Neuza. Marcio Hoffmann
Andei lendo aqui suas postagens e adorei. Na verdade, tem a idade cronologica do meu pai, mas me trouxe as memórias afetivas de minha avó. Deve ser delicioso ouvir seus causos paulistanos tomando um chá. Tive avós maravilhosos, a minha avó paterna tem 99 anos e está super bem e lúcida. A materna me criou. Ser criada por avó nos dá um plus de doçura e calmaria. Talvez por isto me sinta, desde sempre,em ritmo de adágio (internamente, claro) e gosto disto. Voltarei mais vezes. beijo meu, Veroca
"Uma vela nada perde quando, com sua chama, acende uma outra que está apagada. "
Abraços forte
Voltarei sempre
bjos
Drica