A HISTÓRIA REAL DE UM SOFÁ E SUAS TRÊS "ESPOSAS" - AS POLTRONAS-VERSÃO 2009
Esta história foi publicada em abril de 2008 neste mesmo blog. Já passou por modificações, acrescentei as fotos e como o meu publico leitor agora já é outro, resolvi republicá-la. É uma historia que eu gosto muito porque é um testemunho de vida.
Esse sofá da história tem agora, em 2009, 59 anos. Foi comprado na casa Pekelman, por volta de 1949-1950, quando mobiliamos com todo o capricho a "mansão" da Avenida D. Pedro I, no Ipiranga.
Na sua forma original, era revestido de adamascado vermelho escuro, como dá para imaginar nas primeiras fotos (ainda em preto e branco porque não existia fotografia em cores). Assim, nessa sua versão primeira, foi testemunha do nosso namoro e depois do noivado. Foi nele que nos conhecemos melhor, que aparamos nossas arestas, que construímos nossos sonhos e que vivemos um amor romântico acompanhado por muita música da época. E a clássica fotografia de casamento também foi nele, como tinha sido a foto da minha “paramentação” para o baile de formatura.
Primeira foto do sofá em minha formatura - fevereiro de 1952
Dia do meu casamento - 26 de dezembro de 1953
Depois, quando nos casamos ele nos acompanhou em nossa nova vida.
Ficou com sua primeira aparência uns cinco ou seis anos, agüentando a nós, ao Flavio criança e ao Geraldo meu cunhado, quando morou em casa e dormia nele.
Quando Jurema ia nascer, ele ganhou nova aparência, agora cinza mesclado de branco, reformado na Sears e que valeu muito choro da Flavio quando o retiraram pela janela do apartamento (com 3 anos tinha muito sentido de posse).
Nessa aparência ficou uns quatro anos, com as crianças, agora duas, usando e abusando dele porque era na sala que elas ficavam mais tempo.
Quando nos mudamos para a rua Caativa,, em uma casa já nossa que havíamos construído tijolo a tijolo e que tinha a nossa cara, ele foi mudado de novo, agora em plástico branco (horroroso). Era mais fácil de limpar, mas acabou encardido e logo sofreu nova "operação plástica", agora em tom marrom claro (café com leite escuro), com listras da mesma cor. Ficou mal feito, as listras do assento e do encosto não coincidiam, mas tivemos que conviver com essa "plástica", porque não dava para fazer tudo de novo.
Na década de 70, reformamos drasticamente nossa sala (tinha 40 metros quadrados, de estar e jantar), e tudo foi em tom azul: a parede azul médio, o detalhe em relevo em azulão e o teto azul mais claro. Flavio um tempo até colou estrelinhas. Aí o sofá foi azulão, combinando bem com o ambiente que tinha também a cortina com listras horizontais em vários tons de azul. Ficou bonito.
Com esse aspecto suportou Jurema e Flavio já adolescentes, seus muitos amigos, o namoro único de Jurema e Oscar, e as muitas namoradas do Flavio.
Depois que Jurema casou, e para esperar a chegada do primeiro neto, André, pintamos toda a casa, trocamos cortina e demos mais uma reformada no sofá (e naturalmente nas poltronas que o acompanham). Voltou a um tom cinza mesclado (parecido com seu segundo aspecto).
Teve suas férias de uns três ou quatro anos, e então recomeçou sua atividade com os netos. Agora quatro, desde recém nascidos o usaram, deitando, derrubando mamadeira, "regando" com xixi e quando mais moleques, pulando sobre ele.
Quando nos mudamos para o apartamento, nova "plástica". Foi cor de mel e assim ficou por 10 anos. Todo o movimento dos netos se percebeu em sua aparência gasta.
Quando não deu mais, e quando achamos que os meninos estavam maiores e mais cuidadosos, foi de novo ao "hospital" para nova "plástica", agora em gobelin, como eu sempre quis. Desta vez teve que ser recuperado em sua estrutura de madeira e ficou novo, lindo, e forte.
Mas, os meninos continuam sua trajetória sobre ele e foi até preciso usar capas para protegê-lo: adolescentes, são mais pesados, mais descuidados e o usam muito porque estão sempre aqui.
Até 2000 foi testemunha da doença do Ayrton, que passava as tardes e parte das noites "espichado" nele, porque aí que se sentia confortável, ao mesmo tempo que ficava mais perto de mim, participando mais da vida familiar.
Junto com ele, o sofá, sempre fieis, estão as 3 poltronas que passam pelas mesmas "plásticas" que ele. E foram 8 plásticas
Agora, observe as pessoas que convivem com esse sofá: em 1952, estávamos quatro sobre ele, ainda novinho: meus pais com 46 e 43 anos, jovens adultos. Ayrton com 25 anos e eu com 22, em plena mocidade.

46 anos depois, sobre o mesmo sofá, em sua última "plástica", falta um que já se foi - meu pai. Minha mãe com 90 anos (na quarta idade) e nós com 71 e 68 anos, já na terceira idade.

Nós, pessoas, não fizemos nenhuma plástica (contra oito que o sofá sofreu), mas mesmo que tivéssemos feito, não estaríamos muito diferentes do que estamos. O sinal do tempo é evidente e passa muito mais rápido e impiedosamente nos seres vivos que nos corpos brutos.
Nós envelhecemos, "ele" (o sofá) e “elas”, as poltronas, não.
A primeira versão dessa história foi escrita em fevereiro de 2000. Oito anos se passaram e muita coisa aconteceu.
Logo depois do registro da história do sofá, em março, já não havia mais Ayrton. Ele partiu para outros mundos (ou não). E o sofá perdeu mais um ocupante.

Durante um tempo - 2 anos precisamente - ele continuou sendo bem ocupado por minha mãe e eu, porque ficávamos muito tempo em casa e certamente ela assistia TV e eu fazia companhia. Nos quatro anos seguintes minha mãe ficou inválida, nunca mais chegou perto do sofá e em 2006 partiu definitivamente.
Agora só estou eu, não sei até quando. Mas ainda cuido dele. De vez em quando ele tem a visibilidade recuperada porque é a demonstração de um objeto biográfico por excelência. É uma testemunha de TEMPO, VIDA. E MORTE.

Agora, o aspecto do sofá continua o mesmo, sua “roupa” é o mesmo gobelin, mas ele anda apresentando sinais de “osteoporose” porque sua estrutura de madeira já dá mostras de que está chegando ao fim de seu prazo de validade
Qual será o destino da família sofá + poltronas quando eu não estiver mais aqui para cuidar dela? Não tenho a mínima idéia.
Esse sofá da história tem agora, em 2009, 59 anos. Foi comprado na casa Pekelman, por volta de 1949-1950, quando mobiliamos com todo o capricho a "mansão" da Avenida D. Pedro I, no Ipiranga.
Na sua forma original, era revestido de adamascado vermelho escuro, como dá para imaginar nas primeiras fotos (ainda em preto e branco porque não existia fotografia em cores). Assim, nessa sua versão primeira, foi testemunha do nosso namoro e depois do noivado. Foi nele que nos conhecemos melhor, que aparamos nossas arestas, que construímos nossos sonhos e que vivemos um amor romântico acompanhado por muita música da época. E a clássica fotografia de casamento também foi nele, como tinha sido a foto da minha “paramentação” para o baile de formatura.


Depois, quando nos casamos ele nos acompanhou em nossa nova vida.
Ficou com sua primeira aparência uns cinco ou seis anos, agüentando a nós, ao Flavio criança e ao Geraldo meu cunhado, quando morou em casa e dormia nele.
Quando Jurema ia nascer, ele ganhou nova aparência, agora cinza mesclado de branco, reformado na Sears e que valeu muito choro da Flavio quando o retiraram pela janela do apartamento (com 3 anos tinha muito sentido de posse).
Nessa aparência ficou uns quatro anos, com as crianças, agora duas, usando e abusando dele porque era na sala que elas ficavam mais tempo.
Quando nos mudamos para a rua Caativa,, em uma casa já nossa que havíamos construído tijolo a tijolo e que tinha a nossa cara, ele foi mudado de novo, agora em plástico branco (horroroso). Era mais fácil de limpar, mas acabou encardido e logo sofreu nova "operação plástica", agora em tom marrom claro (café com leite escuro), com listras da mesma cor. Ficou mal feito, as listras do assento e do encosto não coincidiam, mas tivemos que conviver com essa "plástica", porque não dava para fazer tudo de novo.
Na década de 70, reformamos drasticamente nossa sala (tinha 40 metros quadrados, de estar e jantar), e tudo foi em tom azul: a parede azul médio, o detalhe em relevo em azulão e o teto azul mais claro. Flavio um tempo até colou estrelinhas. Aí o sofá foi azulão, combinando bem com o ambiente que tinha também a cortina com listras horizontais em vários tons de azul. Ficou bonito.
Com esse aspecto suportou Jurema e Flavio já adolescentes, seus muitos amigos, o namoro único de Jurema e Oscar, e as muitas namoradas do Flavio.
Depois que Jurema casou, e para esperar a chegada do primeiro neto, André, pintamos toda a casa, trocamos cortina e demos mais uma reformada no sofá (e naturalmente nas poltronas que o acompanham). Voltou a um tom cinza mesclado (parecido com seu segundo aspecto).
Teve suas férias de uns três ou quatro anos, e então recomeçou sua atividade com os netos. Agora quatro, desde recém nascidos o usaram, deitando, derrubando mamadeira, "regando" com xixi e quando mais moleques, pulando sobre ele.
Quando nos mudamos para o apartamento, nova "plástica". Foi cor de mel e assim ficou por 10 anos. Todo o movimento dos netos se percebeu em sua aparência gasta.
Quando não deu mais, e quando achamos que os meninos estavam maiores e mais cuidadosos, foi de novo ao "hospital" para nova "plástica", agora em gobelin, como eu sempre quis. Desta vez teve que ser recuperado em sua estrutura de madeira e ficou novo, lindo, e forte.
Mas, os meninos continuam sua trajetória sobre ele e foi até preciso usar capas para protegê-lo: adolescentes, são mais pesados, mais descuidados e o usam muito porque estão sempre aqui.
Até 2000 foi testemunha da doença do Ayrton, que passava as tardes e parte das noites "espichado" nele, porque aí que se sentia confortável, ao mesmo tempo que ficava mais perto de mim, participando mais da vida familiar.
Junto com ele, o sofá, sempre fieis, estão as 3 poltronas que passam pelas mesmas "plásticas" que ele. E foram 8 plásticas
Agora, observe as pessoas que convivem com esse sofá: em 1952, estávamos quatro sobre ele, ainda novinho: meus pais com 46 e 43 anos, jovens adultos. Ayrton com 25 anos e eu com 22, em plena mocidade.

46 anos depois, sobre o mesmo sofá, em sua última "plástica", falta um que já se foi - meu pai. Minha mãe com 90 anos (na quarta idade) e nós com 71 e 68 anos, já na terceira idade.

Nós, pessoas, não fizemos nenhuma plástica (contra oito que o sofá sofreu), mas mesmo que tivéssemos feito, não estaríamos muito diferentes do que estamos. O sinal do tempo é evidente e passa muito mais rápido e impiedosamente nos seres vivos que nos corpos brutos.
Nós envelhecemos, "ele" (o sofá) e “elas”, as poltronas, não.
A primeira versão dessa história foi escrita em fevereiro de 2000. Oito anos se passaram e muita coisa aconteceu.
Logo depois do registro da história do sofá, em março, já não havia mais Ayrton. Ele partiu para outros mundos (ou não). E o sofá perdeu mais um ocupante.

Durante um tempo - 2 anos precisamente - ele continuou sendo bem ocupado por minha mãe e eu, porque ficávamos muito tempo em casa e certamente ela assistia TV e eu fazia companhia. Nos quatro anos seguintes minha mãe ficou inválida, nunca mais chegou perto do sofá e em 2006 partiu definitivamente.
Agora só estou eu, não sei até quando. Mas ainda cuido dele. De vez em quando ele tem a visibilidade recuperada porque é a demonstração de um objeto biográfico por excelência. É uma testemunha de TEMPO, VIDA. E MORTE.

Agora, o aspecto do sofá continua o mesmo, sua “roupa” é o mesmo gobelin, mas ele anda apresentando sinais de “osteoporose” porque sua estrutura de madeira já dá mostras de que está chegando ao fim de seu prazo de validade
Qual será o destino da família sofá + poltronas quando eu não estiver mais aqui para cuidar dela? Não tenho a mínima idéia.
Comentários
Bju, vovó.
Andréa
Aliás a senhora é uma coisa linda! a senhora me dá a esperança de que ainda se pode viver muito e bem, com lucidez e cultura! Parabéns por ser como é!
Vou favoritar no caderno.
http://cadernodecabeceira.wordpress.com
caí aqui não sei como.
mas adorei
vou ler seu blog todo
uma estória bonita e triste.
vc fica por muito tempo por aqui ensinando a gente, não se preocupe.
e se quiser...cuido do sofá pra vc.
bjo no coração
Beijão!
Rosi
Também cheguei aqui através do coisadelilly!
Já passei pelo seu blog em outras oportunidades e me emocionei tantas outras vezes como faço agora. Parabéns pela história e quero lhe fazer um convite. Sei que você já deu entrevistas para vários grupos de mídia, mas não consigo ver a estreia do programa que farei em setembro, sem a sua presença. Quero lhe convidar para falar da sua história e sobre todos os assuntos que você desejar no Talk Show, o The Eduardo Freire Show, que começo a apresentar no dia 19 de setembro, na NTVC, canal 96 e 9 digital da NET, em Mogi das Cruzes, Grande São Paulo. O blog do programa é www.theeduardofreireshow.blogspot.com. Como faço para entrar em contato com e marcarmos o melhor dia para gravação? Aguardo seu retorno e desejo ainda mais sucesso, saúde e prosperidade. um grande abraço do Eduardo Freire.
Já venho pensando há algum tempo em lhe escrever e acabei adiando.
Em primeiro lugar, parabéns pelo blog e por ser essa pessoa dinâmica e inspiradora.
Assisti sua participação no programa da Ana Maria e, desde então, venho acompanhando seu blog.
Este seu artigo foi, para mim, ao mesmo lindo e triste. Revi em minha mente (em meu sofá particular) as fotos na mesma sequência das suas e lembrei-me emocionado dos meus queridos avós que já se foram.
Tenho vivos meus pais e espero poder tê-los em meu sofá por muitos anos ainda.
Continue assim. Sempre que puder passarei por aqui para uma espiadinha.
Quando tiver tempo dá uma olhada no meu blog também.
http://blogdopontes.blogspot.com/
Preciso atualizar meu perfil e falar um pouco mais de mim mesmo.
Grande abraço,
Um admirador distante,
Edson Pontes
Lembrei-me das cadeiras do terraço de meus pais, onde eu e minha irmã namoravamos e eles( meuspais) de lado observando.
Abraçãaao!!!
de Ana Maria Braga, fiquei sua fã.
Você contribuiu para que eu fizesse uma feflexão de minha vida
e, a partir de então, comecei a escrever passagens da minha vida.
Ainda não divulguei pra ninguem. São rascunhos meus. Essa História
do sofá é sensacional!!!! Parabéns!!!!!! Abraços!!!
Comigo tenho a tábua de colo de minha mãe "era modista" que lhe ofereceram qd. casou em 1948. Tem 61 anos, já passou mts. peças de roupa por ela e agora raramente é utilizada, mt. polidinha, a madeira com alguns buraquinhos mas às vezes ainda me ajuda.
Bjs Isabel
Portugal
Saude é paz pra vc vovó,continue escrevendo suas histórias pois são lindas.
Ficou uma história repleta de vida bem vivida, de afetos (e porque não "desafetos"), de amores, de alegrias, de peraltices... vidas que se cruzaram, sentaram, curtiram, viveram.
Parabéns, Vovó por esta belíssima história!!
Admiro-a por continuar a viver ativamente e fazendo coisas absolutamente novas.
Oxalá chegar assim em breve!
Um forte a carinhoso abraço
Rute Favero
Me desculpe ocupar seu tempo e ficar relatando tudo isso, mas é pra senhora ver como quando eu a vi na tv e lendo essa história do sofá me emocionei muito, me passou vida vivida intensamente cada minuto, que me fizeram chegar as lágrimas, meditei em que a vida passa como um vento, e tudo que pudermos fazer para ajudar os nossos semelhantes é sinal de VIDA.
E isso eu vejo na sua história.
Muito prazer em te conheçer e agradeço por nos passar suas histórias, conhecimentos e lições de vida...me alegrou muito o meu dia e minha vida!!!
Fique na graça e paz do Senhor Jesus Cristo.
Sarita
obrigada por dividir conosco
(super emocionada)