quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Meu Novembro Musical


Sigo prestando contas a mim mesma sobre a a minha música em Novembro.

Começo bem o mês, com dois eventos em um dia só.
06 – 11h Theatro Mvnicipal – Orquestra Experimental de repertório.com uma maestrina da qual nunca tinha ouvido falar: Mônica Giardini.  Não foi muito brilhante. Mas, brilhante mesmo foi o pianista Eduardo Monteiro que já conheço bem, com um Brahm em concerto nº 1.  A segunda parte foi a Sinfonia Fantástica de Berlioz. Ainda não consegui  assimilar bem Berlioz e dessa sinfonia gosto de  trechos, Não de tudo, embora a orquestração seja excelente.
Encontrei a amiga Tsu. Recebi de cortesia um ingresso para o programa da tarde, no mesmo Mvnicipal.

06 – 17h  - Só dei uma chegada em casa e voltei de novo ao Theatro. O evento era de elite dado os preços (platéia  R$350,00) “COMEDIA INFERNAL – confissões de um serial killer” com o titulo em inglês uma vez que era falado em inglês, com tradução.
A descriçao  que está toda no programa comprado (R$ 20,00).É um misto de teatro, ópera, concerto; há´uma orquestra de câmara especializada em música barroca, duas cantoras líricas (sopranos) e o ator é o conhecido  John Malkovich.  Baseia-se na história real de Jack, um assassino condenado, aclamado poeta prisioneiro........Condenado  por onze homicidios, suicidou-se na Austria lugar de seu nascimento.
Performance mais do que extraordinária de Malkovichn na cena do suicídio.. Um  espetáculo diferente com um grande ator.

08 – No evento REOUVIR que comemorava a entrega do 10.000º prótese auditiva  através do SUS, tomei conhecimento  de uma orquestra formada por deficientes auditivos, mas não só,  de escola do Jaçanã. Atualmente 60 músicos com idades entre 12 e 26 anos.  Fábio Bonvenuto é responsável pelo projeto.Tenho informações de como funciona, via Internet. A orquestra se apresentou no evento (bem oportunamente).Quem não sabia que eram deficientes auditivos não imaginaria. Dão preferencia à percussão e sopro metais.   A altura dos sons é maior que o convencional mas isso não é problema.
Tocaram músicas conhecidas como La Barca e.............Experiencia diferente.

09 – Sala São Paulo – Encontro de Gerações da USP. Belo local, belas pessoas, muito colorido, muitas vozes......Maria Inês e Tsu foram companheiras inseparáveis. Programa com Beethoven – concerto para piano e orquestra nº 4 com Eduardo Monteiro ao piano. Acompanho suas apresentações. E quando ele no bis toca a “Morte do Amor” do Tristão  e Isolda de Wagner em transcrição de Liszt me emociona demais. Sigo a angustia  do tema com repetições que não se decidem, gerando uma grande ansiedade, para terminar na tranquilidade depois da morte  (ou do final de um orgasmo como dizia uma professora de música que eu tive)

Depois, Carlos Gomes (Fosca), Glinka (Ruslan e Ludmila) e Wagner com seu peso, e toda sua potencialidade na abertura deTannhäuser. Dá para perder o fôlego.

10 – Em casa. Zapeando pelos canais deTV, sem querer encontrei o film que me acompanha durante gerações da minha vida: FANTASIA de Walt Disney. Ouvi tudo  de novo, e fui procurar os meus DVDs para garantir que posso vê-los quando quiser.

O primeiro FANTASIA  de 1940 é fruto da coragem da equipe. Sem a moderna tecnologia de hoje, produziram um milagre. Ja temos o FANTASIA 2000 usando tudo o que tinha na época, mas não se compara em sensibilidade. Engraçadinho, moderno mas não é a “minha” FANTASIA.

Tudo sobre eles é fácil encontrar no Google mas só quem os viu pode realmente entendê-los.

Monteiro Lobato que era um critico impiedoso (quase acaba com a carreira de Anita Malfatti pelas suas críticas) escreveu sobre o filme um comentário que partindo dele tem que ser respeitado. Não me contive e transcrevo o que Monteiro Lobato escreveu na    Folha da Noite 12/07/1948

Fantasia deixou-me estarrecido. É a expressão. Estarrecido. E embaraçado para definir. Tudo tão novo, tudo tão inédito, que o vocabulário crítico usual torna-se impotente, Disney é um tipo novo de gênio e sua arte é uma arte total e absolutamente nova, jamais prevista nem pelas mais delirantes imaginações. Até o aparecimento de Disney, o cinema não passava de uma conjugação do teatro com a fotografia. Era uma representação teatral fotografada em todos os seus movimentos, cores e sons. Disney criou a grande coisa nova; a conjugação da fotografia com a imaginação.
 O desenho genial de Disney permite que todas as criações da imaginação possam ser fotografadas e projetadas com a riqueza dos sonhos

Uma arte, pois, absolutamente nova e jamais prevista. 

Tudo quanto é absolutamente novo desnorteia a rotina do nosso cérebro. Ficamos sem palavras para julgar. O vocabulário humano é um

 conjunto de convenções que refletem experiências muito repetidas. Quando uma experiência sensorial totalmente nova nos defronta, o velho

 vocabulário existente mostra-se necessariamente inadequado.

Diante da dança dos cogumelos chineses, das manobras da fada do orvalho, da tradução em desenho do pensamento musical dum Stravinski, ou dum Beethoven, da prodigiosa sátira à “Dança das Horas” de Ponchielli, do jogo dos dois extremos, como a bolha e o elefante, da disneyzação da família de Pégaso e do clã dos centauros, a atitude do espectador torna-se cômica. Temos que abrir a boca e conservar-nos mudos. Tudo quanto tentarmos dizer com as convencionais e velhas palavras da admiração, torna-se grotesco.
Um meu vizinho de poltrona tentou comentar o anjinho que cerrou as cortinas quando o casal de centauros amorosos se recolheu para o amor – o anjinho de costas cujo traseirinho nu foi virando coração – e tive de pedir-lhe silêncio
Não fale.  Falar as velhas palavras diante de tal mimo de criação artística é quebrar grosseiramente algo lindo, é furar com ponta de prego enferrujado uma irisada bolha de sabão.
Não fale. Não comente. Não conspurque. Limite-se a extasiar-se. Diante de “disnéias” como o do elefante atrapalhado com a bolha, do anjinho que transforma nádegas em coração, da peixinha que se mantém de rosto impassível de tão consciente da prodigiosa beleza da sua dança aquática, do enlace de caudas quando a mimosa centaura se aninha no peito do seu centauro amoroso, falar é profanar.
Walt Disney é a suprema compensação dos horrores que a guerra está trazendo para a humanidade. Há a guerra, sim. Há o bombardeio aéreo às cegas. Há o estraçoamento dos inocentes. Há o inferno. Mas a humanidade salva-se produzindo neste momento trágico a altíssima compensação de um Disney, o Grande Criador.
Ah, se fosse possível um novo fiat! Recriar o mundo! Com o material que a natureza nos fornece produzir um mundo novo, formas novas de vida

 e se fosse Walt Disney o encarregado da transmutação! Que suprema, que prodigiosamente bela uma nova Criação Cósmica assinada pela

 mais alta expressão do gênio humano – Walt Disney. Inania verba... 


Que impotência a nossa ao tentar dizer de Disney com essa coisa

 grosseira que é a palavra escrita!


Nós, gente de hoje, somos trogloditas da Pedra Lascada diante dessa criatura que nos entremostra maravilhas dum ainda remoto futuro.
Disney, Disney, os trogloditas te saúdam.”

12 De novo no Theatro Mvnicipal (agora com a grafia certa que é como deve ser escrito sempre)  em um evento fechado que depois descobri sero lançamento do “Theatro Mvnicipal 100 anos” Líndissimo livro, nem quis folhear muito porque ficou sendo meu último objeto de desejo. Não mais um “tablet”, mas o livro que aliás, custa muito mais barato (R$ 100,00). Só consegui estar nesse evento pela gentileza do Nelson Rios, do Quarteto, que me disponibilizou dois ingressos.
Além dos quatro componentes, Betina, Nelson, Robert e Marcelo hoje esteve presente um cravista, Nicolau de Figueiredo. Já o tinha visto do curso de Dante Pignatari no SESC  e já conhecia a  história do seu cravo. Ele consegue dar vóz  ao carvo que geralmente fica humilde por trás de conjuntos musicais.
Com o quarteto tocou do catalão Antonio Soler o Quinteto para cravo e cordas, e de Johann Christian Bach  (10º filho dos 12 de Bach com Ana Magalena, sua 2ª esposa)o Concerto nº6 para cravo e cordas.  
De Debussy, agora sem Nicolau,  o  Quarteto tocou um quarteto  já dentro da  modernidade. Não foi muito entusiasmante.
Betina estava linda, “brilhante”  e a cada movimento com o arco os brilhos se sucediam, piscavam como estrelas em um céu limpo e claro. Dava a impressão  que a Via Láctea toda tinha se despejado sobre ela. A tudo isso se somava sua elegancia natural.
Só uma consideração pessoal: Sei que as 8  folhas do “biombo” tem a função de reduzir  o espaço acústico para que a música não se espalhe demais (será?). Mas, precisava ser tão”brega”? Além das flores (flores, flores e flores) uma mistura de imagens sem dúvida exquisita: sereia, cavalo, dama  antiga, casinha, frutas, barquinho, veleiro, musas se banhando......Nada a ver com o meu querido Quarteto. Hora de mudar  para algo mais sugestivo.
Consideração final:    Música ouvida com companhia é sempre melhor sentida, e eu tive boa companhia.
16- Música com Marcos. Durante as aulas de Música e Memória, com as “Cantoras do Rádio”, hoje tivemos Elisete Cardoso (lembrança maior de “Naquela mesa”), Ângela Maria e Dolores Duran. Na década de 50, é com esta última me identifico mais (talvez pela proximidade de Irlei, sua irmã, que pertence ao meu grupo de Semi-Novas) e todas as letras de suas músicas  me tocam fundo. Entre umas e  outras eruditas, tenho vontade de ouvir coisas mais simples e tocantes.
Ouvimos muitas músicas dessa década, antes do advento da Televisão .Algumas sobreviveram e entraram na nova era. Outras sucumbiram.
16 – Saindo da USP, ainda corri via ônibus e metrô para a Praça da Sé, na  Caixa Cultural onde estão  acontecendo  concertos Magda Tagliaferro por ocasião dos 25 anos de sua partida. Na impossibilidade de ir a todos (são todos ótimos como mostra o catálogo) escolhi alguns  e hoje fui ouvir Flavio Varani que tocou Chopin. Depois de uma Fantasia e uma das Polonaises, Flavio tocou os 24 Prelúdios. Haja fôlego até para ouvir. Imagine para ele tocar. E é então que eu vejo  as suas qualidades artisticas.  Nos preludios, que variam de andamento, tonalidade, interpretação, ele pode mostrar toda sua técnica, versatilidade e toda sua interpretação pessoal. É um suceder de música de uma variação muito, muito grande.  E ele ainda tem fôlego para o bis (que ele disse ser o bis habitual da Magda Tagliaferro) para tocar  a Dança de  “La Vida Breve” de Manuel de Falla, onde mostra todo seu talento e técnica.
Ainda deu tempo e oportunidade para cumprimentá-lo e ligá-lo ao seu avô Vincenszo Pastore, um artista da fotografia. Avô  e neto com  duas formas diferentes, mas geniais, de expressão artística.
Foi um dia denso de atividades, mas valeu a pena.
20 - Igreja Beato José de Anchieta -do Páteo do Colégio - Orquestra Arte Barroca, que tem como proposta interpretar  o repertório camerístico e orquestral dos séculos XVII e XVIII, com base na pesquisa de repertório e do estudo de tratados de época, fazendo uso de cópias de instrumentos barrocos.
A Orquestra Arte Barroca é composta por: Paulo Henes (Spala e diretor artístico), Carolina Colepícolo, Renan Vitoriano e  Beatriz Ribeiro (violinos), William coelhho (viola), Pedro Beviláqua (violoncelo), Gilberto Chacurc(contrabaixo), Edilson de Lima (teorba), Milton Castelli (guitarra barroca) e Fernando Cardoso (cravo). Participação especial de Pedro Ribeeiro na flauta doce.
Dando continuidade ao projeto “Música Programática”  hoje o tema  foi “TEMPESTADE”. De  Vivaldi  foram executados “La Tempesta di Mare” e “Verão” das “Quatro Estações”.De Mathew Lockea música dramática “The Tempest”ede henry Purcell, a suite “The Tempest”.
Ambiente bom, capela restaurada, sóbria e de bom gosto, boa acustica. Entre a manhã e a tarde, um interlúdio de músicca equilibrou o dia.
23 - No  encontro com Marcos  para Música e Memória a cantora  de hoje foi Maysa em todos os seus aspectos. Música, música e música durante toda a tarde. A voz e o carisma de Marcos, seus comentários com a sensibilidade de sempre nos levaram para o tempo de  Maysa. O resto é silêncio.
No mesmo dia, horas com Dolores Duran através de sua irmã Irlei. Revisamos um grande repertório de Dolores  em um acervo de oito CDs com muitas músicas inéditas de Dolores e outras pouqíssimo conhecidas.
Separamos muitas para montar um CD de presente para Marcos. Será entregue no dia 30, no encerramento  desses encontros maravilhosos.
27 – Grande auditório do MASP -  OCAM (Orquestra de Câmarada USP. Enquanto espero volto a um tempo, na décadaa de 70, em  que frequentávamos muito esse auditorio. Ele é despojado, em concreto aparente, sem rococós nem enfeites e nem sei de sua acústica. Não entendo e nem tenho ouvido. Não é específico,  pois nele tambémtemos as aulas de História da Arte.
Enquanto espero também olho detalhes como o podium do maestro. Parece feito a martelo, de ultima hora (mas é sempre o mesmo) coberto com o que paarece restos de carpete. E não tem nem o protetoratrás do maestro para previnir quedas quando ele se entusiasma demais. E causa preocupação.
Mas, essesdetalhes, não perturbam a música quando ela atinge sua melhor qualidade e éo que acontece sempre.
Hoje tivemos a site Sertão Veredas ( movimento nº 1) de Egberto Gismonti, interessate na temática da miscigenação.
Depois, o concerto em sol  Maior de Ravel. Harpa dá seu grande toque no primeiro movimento.  Segundo movimento – Adágio assai – lindo com um diálogo do piano com os sopro-metais (oboé, flauta, corne inglês??) que apresentam toda a melodia.  Pianista brasileira  com formação pianística e musical inteiramente no Brasil. Muito aplaudida, deu seu recado com toda a força de tecnica e expressão  ela é Luciana Sayuri.
Final com Villa-Lobos com as Bachianas Brasileiras nº 2, muito muito linda principalmente “O canto da nossa Terra”. O trenzinho do Caipira”sempre encanta. A obra se caracteriza por imitar o movimento de uma locomotiva com os instrumentos da orquestra.
Diz o programa que Ferreira Gullar  escreveu uma letra para esta melodia. Vamos a ela:
 "Lá vai o trem com o menino Lá vai a vida a rodar Lá vai ciranda e destino Cidade noite a girar Lá vai o trem sem destino Pro dia novo encontrar Correndo vai pela terra, vai pela serra, vai pelo mar Cantando pela serra do luar Correndo entre as estrelas a voar No ar, no ar… "

29 –Como sou eclética e gosto música de todos os estilos, porque música é música, passei muitas  horas gravando CDs de Dolores Duran, com gravações  desconhecidas e conhecidas. Gravei cinco CDs com os quais presenteamos o nosso mui amado professor Marcos Ferreira Santos. Para ter certeza das gravações, ouvi todas elas enquanto gravava. Uma over dose de Dolores, com músicas inesqucíveis como “A Noite do meu Bem”

30 - Como TCC (trabalho de conclusão de curso),  dos encontros com Marcos,  cada um dos participantes deve cantar uma música à sua escolha. Como só tenho voz e ouvido muito aquem do absoluto, “saí pela tangente”. Copiei  a letra da música que eu cantaria e pedi a todos que cantassem juntos. A minha música escolhida foi “Valsinha” de Chico Buarque de Holanda e Vinicius de Moraes principalmente pelo que ela tem de mensagem nas entrelinhas.  
Para quem não conhece;

Valsinha            Chico Buarque / Vinicius de Moraes
Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar

E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu, e o dia amanheceu em paz

E assim terminou meu novembro Musical, com 12 contatos pessoais com Música.

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