segunda-feira, 24 de junho de 2013

QUANDO SÃO PAULO PAROU (HÁ 96 ANOS)



Considerando que a ideia de uma greve geral para o dia 1º de julho está tomando conta do país, as várias manifestações iniciadas já neste mês de junho, é interessante saber um pouco da história da cidade no que se refere à greves.

Acho que a primeira grande greve na cidade de são Paulo foi há 96 anos, quando a cidade de são Paulo teve manifestações populares reivindicatórias.

São Paulo começava a se industrializar, tinha muitos operários, geralmente imigrantes italianos e espanhóis. Mas, com os imigrantes chegavam militantes anarquistas que plantavam ideias de mobilizar trabalhadores para protesto  Criaram sindicatos , organismos de resistência e de luta dos interesses do trabalhador. Eram organizados, orientados e mantidos pelos trabalhadores. Basicamente pretendiam melhores condições de trabalho e de vida.  Carestia da vida e crise no trabalho foram os temas da greve.
As primeiras tentativas de uma greve maior já tinham ocorrido em 1907 e novamente em 1912. Mas, foi em 1917 que um movimento grevista inédito foi deflagrado e durante três dias pararam as atividades industriais, comerciais de serviço e de  transporte.
Além do aumento contínuo nos preços dos produtos alimentícios, os paulistanos se viam às voltas com a adulteração e a falsificação de alimentos que atingiu, no ano de 1917 proporções jamais alcançadas. Areia era adicionada ao açúcar, caulim à farinha de trigo e serragem de madeira á farinha de mandioca.  O leite recebia água e polvilho Para aumentar a quantidade o sal recebia vidro moído e areia. Acido acético diluído em água era vendido como vinagre. O preço do feijão subiu de uma vez de 200 réis o litro para 500 réis o litro. E o salário não aumentava.  Os jornais e revistam se manifestavam á sua maneira e as charges apareciam com frequência.



Outro problema trabalhista foi a mão de obra feminina e infantil.  À mulher pagava-se a metade do salário pago ao homem. À criança, pagava-se 10%. Havia crianças com menos de 12 anos em trabalhos noturnos.
Com essas reivindicações básicas, os grupos organizados se chegaram aos trabalhadores que já no mês de maio de 1917 começavam a participar de manifestações públicas de protesto. O movimento grevista foi se alastrando no começo de julho e o estopim para a explosão do movimento foi a morte de um jovem sapateiro espanhol de 21 anos.




Os grevistas exigiam aumento de 20% no salário, mas a proposta encontrou  posição inflexível  do comendador Crespi  dono   de fábricas . O único que concordou com o aumento de 20% foi Jorge Street presidente da Companhia Nacional de Tecidos de Juta.
Com a liderança de um jornalista libertário, de grande capacidade oratória e o clima de emotividade no acompanhamento do enterro do jovem sapateiro, foi proposta a greve geral. Comícios e manifestações pipocaram por toda a cidade e foram  reprimidas pela polícia como sempre com violência.
No dia 12 de julho padeiros, leiteiros, trabalhadores da Companhia de Gás e da Light aderiram ao movimento grevista. A cidade amanheceu sem pão, sem leite, sem gás, sem luz, sem transporte. Atividade industrial paralisada., comércio com as portas fechadas, tráfego de bondes  interrompido. Nenhum “tilbury” circulou.  Uma convulsão social sem precedentes.



De 9 a 16 de julho tecelões, marceneiros, pedreiros, marmoristas, cocheiros, , motoristas,  motorneiros eletricistas, telegrafistas, chapeleiros, sapateiros, alfaiates, costureiras, lavadeiras, cozinheiras, padeiros, leiteiros, açougueiros.........beirando os cem mil, pararam as atividades.
A multidão agitada povoou as ruas da cidade.  E depredações aconteceram: lampiões de gás foram destruídos, rolhas colocadas nos trilhos dos bondes para evitar a circulação e a ação repressiva da polícia entrou em ação. Até uma bala perdida matou uma menina durante o conflito entre policiais e grevistas.

Negociações demoradas aconteceram e os industriais acabaram por ceder às reivindicações dos trabalhadores e em 16 de julho a greve terminou.
 Largo da Concórdia no dia em que a greve terminou – 16 de julho de 1917

Foi uma semana trágica,quando São Paulo parou.

E a greve se alastrou por cidades do interior como Campinas, Jundiaí, Sorocaba.... Com o mesmo objetivo.
Livro consulta – A Greve Geral Anarquista de 1917  com resumo “A Semana Trágica” de Christina Roquette Lopreato

Em uma observação rápida: em uma época de pouca tecnologia, com meios de comunicação mínimos, toda uma população foi capaz de se mobilizar e defender seus direitos. Imagine agora com redes sociais, tecnologia avançada de comunicação, o que se pode fazer.
Mutatis mutantis é uma situação bem parecida. Procurem fazer comparações.



Já nos mobilizamos na ocasião do impeachment, já reagíamos como o possível na ditadura. Portanto temos sim, fôlego para mostrar quem somos e a que viemos. Se já fomos capazes de reunir uma multidão na Sé, local tradicional de manifestações (diretas já), temos força sim. Principalmente se tivermos em mente que os objetivos são muito mais sociais do que políticos. Independem de partidos.
Veja a Praça da Sé totalmente tomada e fazendo corredor a rua Benjamim Constant para chegar à Faculdade de Direito, lugar também de concentrações




E, PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES, leiam a publicação  seguinte.



Nenhum comentário: