segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A VOZ DOS OBJETOS - A HISTÓRIA DE UMA PANELA DE PRESSÃO DE 61 ANOS


Foi presente de casamento do Sr. Max e D.Ana, donos do espaço do consultório que Ayrton tinha antes de nos casarmos e onde ele “morou” precariamente durante dois anos.
 Foi em 1953 quando eu, Neuza e Ayrton nos casamos.
A panela de pressão era da marca MARMICOC, de 7 litros, marca que achei que não existisse mais.
Google me diz que existem sim, mais modernas ante aderentes e as mais procuradas são de 4,5l.

Achamos engraçado receber de presente uma panela tão grande para um casal que estava iniciando a vida a dois.
Mas, sábios eram eles prevendo que no futuro não seriamos apenas dois e precisaríamos de uma panela maior. 

Realmente de dois viramos quatro com os filhos, depois seis com meus pais junto e nos ajudando com os filhos e trabalho. Durante um tempo fomos oito com os outros pais junto para agora cuidarmos deles. E nossas ajudantes que sempre foram consideradas da família porque ficavam conosco, 10, 12 ou mais anos.

Afora hóspedes temporários (nem tão temporários assim) durante algum tempo fomos oito.
Os filhos crescem, procuram seus pares e logo logo fomos dez fixos, mais do que isso variáveis porque sempre os filhos traziam amigos, colegas ou namoradas(o)
E aí sim a panela grande prestava seu serviço. Usada sempre para o feijão gostoso nossos ou de nossas ajudantes. Sempre firme, nunca precisou de manutenção. Só a troca de borrachas que não davam conta do grande uso.

Passa o tempo, mais quatro chegam à nossa família como netos. Não moravam conosco mas viviam sempre conosco.  Vez por outra somos catorze quase que para o dia a dia.

E aí entra o tempo da diminuição. Vão para outros mundos os pais de Ayrton, depois meu pai, o Ayrton, minha mãe também.
Acabei ficando sozinha porque cada um tem sua família própria. Os nove do núcleo mais próximo às vezes ainda se reúnem, mas cada vez menos.
E a panela foi perdendo sua função. Outras menores tomaram seu lugar, mas nunca quis dispor dela. Ficou guardada, esquecida, descansando em um armário de difícil acesso.

Me lembro de uma vez, por volta de 2004 quando Neide Duarte fazia uma matéria sobre São Paulo e me entrevistou aqui em casa, ao saber da existência dessa panela me fez subir na escada (bons tempos em que eu ainda subia firmemente em escadas até altas) pegar a panela para gravar minha fala sobre ela.  Ela, a panela, saiu do anonimato e teve seus cinco minutos de fama.

Agora estou de novo em uma época de transição de vida, revendo objetos e fazendo triagem necessária, e lembrei dela. Precisei pedir ao faxineiro do prédio para pegá-la. Não subo mais em escadas, nem baixas. Ela continua “quase” perfeita e vai de herança para André meu neto que está montando uma pousada em Cunha. E vai servir sim para cozinhar um feijão gostoso em um fogão a lenha. Ainda vai ter uma sobrevida que acredito bastante longa.

Eis a imagem da panela que acabou sendo um objeto biográfico meu, acompanhando minha vida durante 61 anos.  Falta o apoio em direção ao cabo que já pedi à fábrica que ainda existe e funciona bem. 








2 comentários:

Célia Rangel disse...

Inventariarmos coisas e objetos pessoais contextualizando-as no tempo amoroso que vivenciamos, é uma arte para poucos! Parabéns, Neuza!
Abraço.

Baldoino Soares Badu disse...

É uma grande amiga blogueira das boas.
Simplesmente agradeço por estar entre nós escrevendo essas lindas narrativas cheias de muito amor.
Parabéns