quarta-feira, 14 de abril de 2010

TEMPOS DE GINÁSIO PAULISTANO - parte 2

No ano de 2008 postei um texto sobre meus tempos de Ginásio Paulistano. Mais de um ano depois, alguem leu o texto, se encontrou no espaço e resolveu complementar o meu texto. Assim, com a autorização de Rubens Sewaybricker estou postando hoje o texto dele que complementa o meu. Aqui vai ele.


Meus tempos de Colégio Paulistano – 1941 – 1947
Rubens Sewaybricker (81 anos) Vinhedo SP

Exatamente o mesmo período da Vovó Neuza, com exceção do ano de 1945 que cursei no Colégio Bandeirantes.
Eu morava num sobrado, na Rua Fagundes, de onde se avistava o Paulistano e se conseguia ouvir, às vezes, a voz de um professor dando aula quando se aproximava de uma janela.

1941 a 1944 Ginásio

Como a Vovó Neuza já descreveu havia uma quadra de esportes separando os dois prédios do estabelecimento.
Nesse local os alunos tiveram a chamada “Instrução pré-militar”, uma criação do governo de Getúlio Vargas. O instrutor era um sargento do Exército (ordem unida, basicamente).
Quando o Brasil declarou guerra ao Eixo, em 31/08/1942, os alunos foram reunidos no gramado, muito bem descrito pela Vovó Neuza, na frente do prédio, receberam a notícia, hastearam a bandeira, houve um pequeno discurso e cantaram o hino.

Diretores –
Carlos Pasquale, que foi Secretário de Educação do Estado.
Luiz Pasquale que foi meu primeiro professor de matemática.
A inspetora federal era a dona Felicíssima. Uma figuraça!

Professores –
Rafael Pero Sobrinho, morava na Rua Taguá, quase em frente à escola, e era encarregado da supervisão da disciplina em geral.
Ficava em pontos estratégicos das escadas e corredores para inibir qualquer tropelia. Parecia muito bravo mas era uma excelente pessoa. Num Carnaval ele me viu sambando no Centro do Professorado Paulista e mexeu comigo: “Aí, seu Rubens!”
Orestes Rosolia, também morava na Rua Taguá, tinha uma porção de filhos, dava História com o apelido carinhoso de “Mamute” entre os alunos, porque era grandalhão. Cobrava de nós, semanalmente, as respostas por escrito dos questionários do livro do Joaquim Silva. Foi o professor mais culto que já conheci mas nós, estouvados, não usufruímos disso como deveríamos.
Dr. Bresser, de francês, gostava de contar que era barão e descendente dos Bourbon. Era poliglota, ofereceu-se para me dar aulas particulares de graça, nos intervalos das aulas, da língua que eu escolhesse. Escolhi alemão que não tinha no curso. Tive umas duas aulas mas não pudemos ir adiante.
Celestino Correia Pina, de latim, bem descrito pela Vovó Neuza com suas silabadas. Mandava um aluno de boa letra (o Virgilio na minha classe) escrever no quadro. Silêncio absoluto em suas aulas. Se um lápis caísse ninguém podia apanhá-lo: “Deixai-o em paz!”.
Detalhe – pegamos o começo da reforma Capanema que valorizava o conteúdo clássico da educação. O número de aulas por semana era assim: Português e Matemática, três; História e Geografia, duas; outras disciplinas, uma; Latim, quatro!
Armando Tonioli, de latim e português. Sua esposa tocava piano nas aulas de canto orfeônico do prof. Domingos Bentivegna.
Uma vez o Tonioli deu uma tremenda bronca na classe por achar que a turma não estava estudando o suficiente. “Existe alguém aqui que saiba toda a matéria dada?”. Levantei a mão. Chamou-me lá na frente e perguntou tudo. Eu sabia! Turbinou meu ego.
Detalhe sobre o canto orfeônico – a separação entre meninos e meninas não era só no recreio por um alto muro. No auditório havia três grandes conjuntos de poltronas. O espaço dos meninos e o das meninas ficavam separados por um mar morto de poltronas vazias, a uma distância cruelmente intransponível.
Tive vários professores de português no ginásio. Todos bons.
Um, cujo nome não consigo lembrar, mandava eu fazer exame na sua mesa para ninguém colar de mim ( desculpem, pois a pequena modéstia não foi capaz de me impedir de contar isto).
Os professores de geografia que eu mais lembro são o Moisés Gikovate e o Deusdá M. Mota. Na cadeira deste último puseram uma minhoca esperando que ele sentasse. Deusdá percebeu a tempo e levou numa boa: “Alguém esqueceu o lanche aqui!”

Alunos –
As lembranças mais marcantes são de Nelson Antonio Morse, José Rotemberg, Geraldo Carpinelli e Shizuo Aki, que sentava ao meu lado, pois éramos numerados e distribuidos na sala de aula por ordem alfabética.

1946 e 1947 Científico
A nossa sala, ampla, era a mais à esquerda na frente do prédio.

Professores –
Português – Felipe Jorge, que os alunos, maldosamente, chamavam de “Fifi”.
Silveira Bueno, que me mimoseou com um “ponha-se lá fora” em 1947, expulsando-me da classe.
Ele tinha nos passado uma redação com o tema: “O que você acha do interventor Macedo Soares?”
Com a deposição de Getúlio Vargas em 1945, José Linhares, do STF, assumiu a presidência e nomeou José Carlos de Macedo Soares interventor em S. Paulo, cargo que exerceu até 1948 quando passou o governo ao eleito Adhemar de Barros.
Reconheço que usei uma linguagem grosseira e desabrida nas minhas críticas ao interventor e em comentários até de natureza religiosa (eu já era ateu e um adolescente desequilibrado).
Silveira Bueno avisou a classe que ia ler uma redação estapafúrdia de um dos alunos. Mas não aguentou até o fim.
Enquanto eu me encaminhava à porta para sair ele exclamou:
“Ele é meu amigo!”
Um dos nossos colegas, o Sergio Andrade, que se tornou o jornalista de humor Arapuã, e que já era um gozador, brincou comigo: “É o que dá acreditar na liberdade de opinião.”

Matemática – Osvaldo Sangiorgi que com sua Matemática Moderna tentou revolucionar o ensino dessa matéria. Inovador muito corajoso.
Benedito Castrucci, que tinha o apelido de “Detefon”, de origem obscura. Ele defendia a “elegância” na Matemática, que consistia em usar o mínimo de axiomas possível.
Sugeriu a mim que esquecesse a Medicina e “criasse coragem para tentar a FFCL”.

Física e Química –
Max Gevertz o incansável. Dava aulas nos três períodos do dia.
Entre a tarde e a noite, dava cursinho para os vestibulandos.
Era querido e admirado por todos. Ao ponto de eu, por exemplo, comprar o sabonete Derso porque era o que ele dizia usar.

Biologia – Ernestino Lopes, que era também médico legista.

Inglês – dona Margarida

Francês – Tancredi, no fim do curso mandou cada aluno ler um livro qualquer em francês sobre o qual faria perguntas no exame oral. Na minha vez chamou a dona Felicíssima para assistir. Pediu que eu resumisse, em francês, o que tinha lido: Zadig, de Voltaire.

História – O prof. Otacílio era divertido e desbocado para a época.
“Nossos índios não são como os índios americanos do cinema.
No Brasil eles são baixinhos, barrigudinhos e feínhos.”
“Vocês pensam que o grande Julio César era muito machão?
Nada disso. Ele era...” O resto não dá para reproduzir aqui.

Psicologia – (apenas no último ano)
Infelizmente não me recordo do nome daquele professor.
Não era fácil abordar os delicados temas dessa matéria para uma turma de adolescentes que pertenciam à geração mais reprimida sexualmente, entre as últimas.
A guerra havia terminado com a rendição do Japão após a bomba em Hiroshima (desnecessária pois o país já estava derrotado).
Talvez por sentimento de culpa dos governantes responsáveis pelos 50 milhões de mortos, baixou-se no mundo uma onda de moralismo. E nós, como adolescentes, fomos as vítimas.
Mas aquele professor administrou bem as coisas. Excetuando algumas risadinhas maliciosas de uns poucos alunos
(a Vovó Neuza deve se lembrar disto) o assunto fluiu bem.
Esse professor disse uma frase que tenho repetido até hoje com frequência: “O que nos distingue dos irracionais é que o ser humano pensa e sabe que pensa.”

Alunos –
Neuza Guerreiro,Osvaldo Benvenutti, Milton Pânico, Emílio H. Ribeiro, Renato Borghi, Sergio Andrade, Aisse de Faria.
O Rubino era tão extrovertido e irreverente que, como calouro da Medicina, os veteranos é que fugiam dele.
Dois colegas, além de muito amigos, se tornaram meus compadres, Luiz Baccalá, médico, e Jacy Montenegro, dentista.

Conclusão
Pedindo antecipadamente desculpas por qualquer omissão ou confusão que tenha feito, depois de tantos anos, quero ressaltar um aspecto.
Por que estão vivas tantas e tão marcantes lembranças?
Pela atitude de todos os envolvidos naquele ambiente – diretores, professores, alunos e até funcionários do estabelecimento.
Todos levávamos a sério o que estávamos fazendo. Com respeito.
O prof. Rosolia, numa reunião comemorativa de nossa formatura no científico, com a presença do prof. Max Gevertz e do prof. Benedito Castrucci, comentando esses tempos, lembrou a importância da “aplicação” por parte dos alunos.
O livro “L´Éducation de la Volonté”, de Jules Payot, trata disto.

Quem tenha feito parte do universo PAULISTANO por favor entre em contato para a história ser aumentada.






5 comentários:

Margarete Barbosa disse...

Olá, Neuza!
Que beleza o relato do senhor Rubens!Achei muito importante a complementação que ele fez, nos ajuda a compreender um pouco mais um passado que, talvez, somente alguns lembrem.
O seu Blog está ficando interativo e acho isso muito bom. Espero que outros também participem.
Um super abraço !
Margarete Barbosa

Elaine Secundo disse...

M uito lindo seu cantinho
Muito bons seus textos
Esse de complemento de hoje , do Rubens, me fez entrar no túnel do tempo e chegar na minha época de colegial, e lembrar com carinho, de tudo que vivi no Colégio Belisário dos Santos.
Muito bem
Bjs
Elaine

jefhcardoso disse...

Olá Vovó Neuza! Hoje é sexta-feira, uma correria. Não repare em minha visita relâmpago, mas venho lhe convidar para ler o novo capítulo de “O Diário de Bronson (O Chamado)” e deixar o seu comentário.

Retornarei com melhores modos e mais tempo. Tenha uma ótima semana. Abraço do Jefhcardoso!

Anônimo disse...

QUE BOM PODER VER UMA PESSOA COM MAIS IDADE NAVEGANDO NA INTERNET .... PARABÉNS .. BLOG DA SCHENA.....PENA QUE ANDO MEIO PARADA.....SEM TEMPO.....DA SCHENA, CARAMELOS

Anônimo disse...

Rubens Sewaybricker foi meu professor de cálculo I na FEI, em 1979.
Me lembro bem dele, principalmente quando chegava em seu reluzente karmann-Ghia vermelho, uma jóia de carro.