domingo, 25 de abril de 2010

ENTRE BOLAS, BONECAS E SOLDADINHOS DE CHUMBO

Hoje me surpreendi quando preparando textos para um encontro de Resgate de Memórias em Idosos, encontrei perdido no Desktop o que escrevi em 2006. Quatro anos são passados, havia me esquecido do texto que escrevi para um dos muitos cursos da Universidade Aberta à Terceira idade, Narrativas da Contemporaneidade da profa. Cremilda, A criação da história, a pesquisa e as muitas versões feitas e refeitas acabaram por gerar uma narrativa em que aparece a minha porção professora, ensinando sempre que possível. E achei que devia postá-lo porque tem muito contudo didático E aqui vai ele.

O Homo ludens, o homem que brinca, não substitui o Homo sapiens – homem que sabe e raciocina, mas se coloca ao lado e um pouco abaixo deste, mais ou menos na mesma categoria do Homo faber – homem que faz. (Johan Huizinga - 1872-1945)

Ruas ainda são espaços de brincadeiras coletivas. Com terra batida, calçadas com paralelepípedos, ou asfaltadas, são cenários de brincadeiras de roda ou jogos de pelada.

Ainda se ouve: “ O cravo, brigou com a rosa

Debaixo de uma sacada

O cravo ficou ferido

E a rosa despedaçada “.

ou então

“Ciranda cirandinha

Vamos todos cirandar

Uma volta meia volta

Volta e meia vamos dar”

Quem não gosta de cantar ou já se cansou, brinca de Lenço atrás, Passa anel, Passa passa três vezes ou outra das muitas brincadeiras que fazem parte do mundo encantado da infância e que passam de geração a geração. Há o grupo das “comadres” que com suas bonecas constroem o seu mundo de relações, de atividades domesticas usando mais do que tudo, a imaginação. Brigam por elas como Olavo Bilac escreveu em um singelo poema A BONECA

Deixando a bola e a peteca

Com que inda há pouco brincavam

Por causa de uma boneca

Duas meninas brigaram.

Dizia a primeira “É minha”

- “É minha” a outra gritava;

e nenhuma se continha

nem a boneca largava

Quem mais sofria (coitada!)

Era a boneca. Já tinha

Toda roupa estraçalhada

E amarrotada a carinha

Tanto puxaram por ela

Que a pobre rasgou-se ao meio

Perdendo a estopa amarela

Que lhe formava o recheio.

E, ao fim de tanta fadiga

Voltando à bola e à peteca

Ambas, por causa da briga

Ficaram sem a boneca...

Na mesma rua, dividindo o espaço, levantando a poeira da rua, um grupo de meninos descalços chuta uma bola de meia já esfarrapada, mostrando suas entranhas de papel, ou pano picado, em um “campo” minúsculo com tijolos demarcando o gol. Quando dá, colocam varas verticais como traves, mais visíveis. Não há numero certo de participantes, não há regras muitas bem definidas, mas a disputa à posse da bola é acirrada e vez por outra se ouve, misturando-se aos cantos das meninas um GOLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL

Em uma das casas, um menino doente que se cansou de assistir a pelada na janela, vai dar asas à sua imaginação com o seu batalhão de soldadinhos de chumbo. Vai imaginar batalhas, ataques e defesas. Também vai brincar como pode. E, não tenha ele soldadinhos de chumbo, vai usar a imaginação.

Aquele abajur amarelo é a donzela vestida de dourado, amarrada com o fio elétrico à parede. A vassoura vai servir de espada. A cadeira é um cavalo, A samambaia presa ao teto representa a feiticeira, mulher sinistra com uma horripilante cabeleira. O menino é um espadachim. O tapete, um riacho. O sofá, uma carruagem, os lustres, dragões voadores... (Prof. José Moura Gonçalves Filho- Doze lições sobre os humanos como animais simbólicos))

Era assim que Maria Lúcia pretendia começar a matéria que tem que escrever para uma revista. Já é idosa, recomeçou a estudar, e na Universidade tenta aprender a escrever com mais desenvoltura, e encontrar caminhos para as suas narrativas. Escolheu o tema Brinquedos e Brincadeiras, mas agora está assustada. É muito assunto para pouco espaço e o desafio é dizer muito no espaço disponível.

Mas, ainda tinha dúvidas. Enquanto isso estava organizando a parte teórica.Sabe que isso é importante e pesquisou muito. O assunto é abrangente e muita gente boa escreveu sobre isso.

O francês “jouer” e o inglês “play” significam: brincar, jogar, mas na nossa linguagem Jogar e Brincar são usados para atividades diferentes. Por questões operacionais vamos delimitar o texto e falaremos apenas de Brinquedos e Brincadeira, deixando o jogo para uma outra oportunidade.

A criança tem uma imaginação fértil e usa o brinquedo para representar sua realidade e construir seu mundo. É o suporte de suas brincadeiras. Os brinquedos e brincadeiras têm papel relevante na educação contribuindo para a aprendizagem e desenvolvimento infantil.

Diz Johan Huizinga*:

Se considerarmos que brincar é a ação do “homo ludens”, que é parte do ser humano integral, além do desenvolvimento físico e intelectual, o brincar favorece o desenvolvimento dos vínculos afetivos e sociais positivos, condição única para que possamos viver em grupo. Brincar ultrapassa os limites de atividade física ou biológica, supera as imediatas necessidades da vida e implica a presença de um elemento não material – uma alegria que vem não pelo consumo de objetos, mas pelo alegre jogo com eles. É fato mais velho que a cultura.

O ato de brincar é importante, é terapêutico, é prazeroso, e o prazer é ponto fundamental da essência do equilíbrio humano. No brincar, ocorre um processo de troca, partilha, confronto e negociação, gerando momentos de desequilíbrio e equilíbrio, e propiciando novas conquistas individuais e coletivas. Constatamos, então, que a ação de brincar é fonte de prazer e ao mesmo tempo, de conhecimento.

Maria Lucia já escreveu, reescreveu, cortou frases, mudou conteúdos, mas ainda não está satisfeita. Escrever é um trabalho que nem sempre é simples.

Parando um pouco com sua matéria da revista, Maria Lúcia contatou sua família e os convocou para um fim de semana na chácara, que além de reunir a família toda, serviria como relaxamento do dia-a-dia estressante. Planejaram os banhos de piscina, o futebol dos meninos, o churrasco... Afinal, era um fim de semana prolongado.

Toda uma família resolveu passá-lo juntos e dar às crianças a oportunidade de convivências mais próximas do que o cotidiano permite. Maria Lúcia e Raul tem dois filhos, Júlia e Paulo que afortunadamente se casaram com outros dois irmãos Lia e Pedro. Júlia e Pedro têm três filhos: dois meninos, Bruno e Tiago e uma menina, Laura. Lia e Paulo também tem três filhos, duas meninas Lívia e Lucia e um menino, André. As idades são as, mais variadas, de quatro a quinze anos.

E vai também a Cida, a “santa” Cida. Ela está com a família há anos sempre bem humorada, sempre participando de tudo, sempre colaborando.Com os outros avós das crianças, estão na casa 15 pessoas.

O dia amanhece com chuva torrencial e ao que parece vai cair durante todo o dia. Adeus piscina, adeus futebol, adeus churrasco ao ar livre. Com a chuva, acabou a força e nem usarão a televisão nem os videogames que trouxeram. E agora, o que fazer? Lia e Júlia são professoras, estão acostumadas a entreter crianças e resolvem: vamos contar histórias.

Não se tem mais o costume de fazer isso. Só na escola é que as crianças ouvem histórias. Foi-se o tempo em que sem televisão, os pais liam livros de histórias, dramatizavam. Quantas Brancas de Neve, Belas Adormecidas, Aladins, Pequenos Polegares, povoaram os sonhos das crianças de então.

Ninguém trouxe livros,mas Lia e Júlia sabem de muita coisa e resolvem contar a história dos Brinquedos e das Brincadeiras. Assim podem dividir com Pedro e Paulo a tarefa porque muitas das brincadeiras são mais masculinas. E ajudam a avó Lucia a dar maior veracidade à sua matéria.

Na sala grande, sentados em roda com os pais e os avós participando, as necessárias pipocas distribuídas, os bolinhos de chuva que as avós fizeram, começam o que poderíamos chamar de atividade lúdica.

- Meninas – diz Júlia – de que brincadeiras vocês se lembram?

Laura, a mais falante diz: Amarelinha, Lenço atrás, Passa anel, brincar de boneca, brincar de casinha...

Lívia completa – Peteca, Cama de gato, Cinco pedrinhas, Pegador, Comadre...

E os meninos: Empinar pipa, Chicote queimado, Pular sela, Pé de lata...

Então, vamos contar a história de algumas dessas brincadeiras ::

- Vocês sabiam que os brinquedos e brincadeiras tem nomes diferentes em lugares diferentes? A amarelinha também é chamada de pula macaca, riscadinha, e que há gravuras com idade de mais de 200 anos com pessoas pulando a figura que se risca no chão. Os chineses e ingleses de hoje também sabem brincar de Amarelinha.

Lia agora quer contar a história das cinco pedrinhas, também chamadas de cinco Marias, saquinhos, almofadinhas.

- As cinco Marias são pedras ou saquinhos cheios de areia, feijão ou arroz, substitutos de uma brincadeira de antigos gregos que usavam ossinhos de carneiro. Joga-se uma pedra ou saquinho para cima e enquanto ele está no ar procura-se recolher as que ficaram no chão. Quem pegar as quatro já ganhou. No Amazonas as peças são 12 e são pedaços de tijolos ou telhas.

- O que é cama de gato – pergunta Tiago

- A gente usa um barbante com as pontas amarradas. Segurando-o com as duas mãos, trança o fio entre os dedos para formar desenho. Pegue um barbante Bruno que eu ensino. Soube que quem o inventou foram as meninas esquimós que tem que passar todo o inverno dentro do Iglu.

- O que é um Iglu, mãe?

- É a casa de gelo dos esquimós, gente que mora no pólo da terra, no cucuruto do mundo. O gelo é a coisa mais quente que eles tem por lá. A vida deles é uma boa história para se contar em um outro dia de chuva.

Pedro e Paulo resolvem intercalar brincadeiras e brinquedos de meninos para que eles também participem

- André, de que brinquedos você se lembra?

- Pião, iô-iô , papagaio, bolinhas de gude, bibloque, estilingue, queimada, peteca, pé de lata, diabolô. E bola é claro.

- Vamos lá, diz Pedro. Vou contar a história do Pião. É um dos brinquedos mais antigos. Tem pelo menos cinco mil anos de idade. .Eram de argila e hoje são de madeira, em forma de cone com um prego atravessando deixando uma ponta metálica e um pino. Não é assim? Vocês já tiveram piões, não? Lembram? A gente enrola um barbante, a fieira , e o pião sai rodando quando se puxa a fieira. É uma arte ser um bom jogador de pião porque ele precisa girar com velocidade até “cantar” ou “dormir”. Ouvi dizer que o som produzido é devido linhas mais fundas no corpo do pião; foram os japoneses que fizeram essas linhas pela primeira vez. (Na Amazônia meninos de quinze, dezesseis anos fazem piões para vender, lixando a madeira com língua de pirarucu que é muito dura e tem dentes em toda ela) .

- Eu quero saber das bolinhas de gude – diz Tiago

Paulo então diz o que sabe:

- As bolinhas de gude devem ter sido inventadas junto com os piões porque tem também de mais de 5 mil anos. Na Grécia antiga, castanhas e azeitonas substituíam as bolinhas de vidro. No Brasil chegou com os portugueses. Posso falar também das pipas ou quadrados, ou pandorgas, ou papagaio. Lembram-se quantas nós fizemos principalmente nos meses de agosto quando os ventos ajudam a empinar? É um brinquedo barato e com uma folha de papel de seda e varetas de bambu, temos um papagaio pronto. Antigamente usava-se cola feita com farinha de trigo cozida em água fervendo. Ou goma arábica. Ambas fediam muito. A gente punha a rabiola ou cauda, feita com tiras de papel de seda ou de pano. Era uma arte fazer rabiolas diferentes. Além de brinquedo era um jogo quando os meninos procuravam derrubar o papagaio do outro por meio de manobras muito pessoais. Mas, deve-se ter cuidado. Alguns meninos colocam cerol na cauda e isso pode ser perigoso. Se enrolam no pescoço de alguém, pode até matar. Dizem que os portugueses aprenderam a fazer e usar pipas com os chineses por volta do ano de 1500.

Pedro retoma a palavra .

- O estilingue todo mundo conhece não? É um brinquedo fácil de fazer. Um galho de árvore em V, elásticos que podem ser tiras de pneus e um pedaço de couro. Usam-se pedras que se pode atirar bem longe. Moleques de roça usam para matar passarinhos. Mas, se não for usado com cuidado é perigoso. Eu fiz muitos estilingues quando era menino e morava no interior.

Tem também o Bilboquê (ou bibloquê ou boloque) um brinquedo de treino. Agora são feitos de uma bola de madeira com um furo por onde passa um barbante tendo na ponta um pino mais fino do que o furo. É difícil de encontrar e às vezes se encontra nos camelôs, feitos por artezãos. Outro dia quase comprei um, mas me distrai e quando quis pegá-lo outro já o tinha comprado. Para jogar, você tem que colocar o pino dentro do furo com um impulso da bola. Vocês podem fazer um bibloquê com latas vazias e até pedaços de garrafas de plásticos.

André, o mais velho, interrompe dizendo: soldadinhos de chumbo não têm mais. Alguns apareceram em plástico, mas logo deram lugar aos bonecos maiores de super heróis. Eu tive muitos. Eram fáceis de segurar, coloridos e dava para inventar muitas aventuras com eles.

Uma das avós interfere e pergunta:

- E Peteca? Vcs nunca jogaram peteca? No meu tempo elas eram tão lindas, com penas coloridas. É um brinquedo brasileiro que os índios já jogavam antes mesmo do Pedro Álvares Cabral ter chegado aqui. Faziam petecas com palha de milho, areia e penas de galinha.

– Mãe, diz Paulo, desde 1985 as petecas são feitas de couro ou rodelas de borracha e com quatro penas de peru. Hoje é esporte oficial e é uma competição que segue regras. A peteca oficial deve ser de couro maciço, cheia serragem medindo o seu corpo 8cm com peso de 75 a 80 gramas. Os jogos têm cinco elementos de cada lado de uma rede. É muito parecido com o vôlei. Qualquer dia destes vou comprar uma peteca para podermos jogar. Agora há petecas modernas, coloridas e com novo designer .

Avós trazem mais bolinhos, mais pipocas e agora o grupo das meninas ficam com as mães e avós e o dos meninos com os pais e avôs. Porque agora vão falar de bonecas e bolas que são assuntos que mais interessam a uns e outros. Meninos não gostam de bonecas, mas embora bola seja sinônimo de menino, algumas meninas arriscam os seus chutes.

Pedro e Paulo se alternam para falar das bolas.

Mas antes que eles comecem e que os meninos sabem que se empolgarão Bruno pede: - Pai, fala um pouco do Lego. E também você não falou nada das Bicicletas nem do Autorama que vc guarda no seu armário e que nunca me deixou brincar.

- Bem, como ele é vocês sabem porque sempre brincaram muito com ele. Quem inventou foi um dinamarquês Ole Christiansen e apaareceu no mercado em 1950. O seu nome vem de Leg = brincar e Godt = jogar bem. Crianças, jovens, adultos ou até velhos gostam de Lego porque é muito criativo. É usado nas escolas e agora usam em hospitais para distrair crianças doentes. No mundo interio há verdadeira curiosidades feitas com Lego. Na Dinamarca há a Cidade do Lego feita com 5,5 milhões de peças e tem tudo o que uma cidade tem. Deve ser lindo.

E as bicicletas, já o mais famoso dos sábios do mundo, Leonardo da Vinci tinha desenhos de alguma coisa parecida com a bicicleta atual . Mas, foi na França que foi lançado um modelo simples, o celífero. A Bicicleta chegou ao Brasil em 1898, eram todas importadas e a elite começou a praticar o esporte de correr de bicicleta. Havia até um Velódormo (onde se corre de bicicleta) perto da rua da Consolação.

E sobre o meu Autorama, só vamos brincar com ele quando você tiver idade suficiente para entender de carros e souber competir. Foi meu objeto de desejo no fim da infância e eu curti até adulto. Guardo para quando me aposentar e tiver tempo de brincar novamente. No Autorama a gente controla o carrinho com um acelerador de mão, mas precisa uma pista especial: comprada e montada. Como são muito caras, podem ser alugadas. Foi uma febre nos anos 1960-1970. Existiam e existem até hoje os clubes de Autorama.

Pedro assume para falar de bola, de futebol

- A bola é o brinquedo mais antigo do mundo. Acho que tem mais de seis mil anos. Puxa, apareceu antes do pião e das bolinhas de gude. Há bolas de muitos materiais e é um brinquedo tipicamente masculino. (Acho que está inserido no DNA do cromossomo Y dos meninos - pensa mas não diz. Eles ainda não entenderiam)

Há muitos jogos com bola, mas o futebol o mais popular, o mais espalhado pelo mundo inteiro e é jogado por todas as raças, cores, idades. e classes sociais. É um esporte universal.

Mas, não vamos falar nada sobre ele. Afinal tudo o que tinha que ser dito jornais e televisões disseram. Faz pouco tempo aconteceu a Copa Mundial de Futebol. Vocês já sabem de tudo.

Mas, vou falar um pouco dos álbuns de figurinhas. No tempo dos vovôs, as figurinhas vinham embrulhadas em balas de péssima qualidade. Mas, ninguém importava com elas O que a molecada queria eram as figurinhas para completar o álbum. E se colava com cola de farinha de trigo (a mesma com que fa gente fazia balões e pipas). Os álbuns ficavam altos, grossos, pesados e acabavam cheirando mal. Não é mesmo papai?

- É mesmo, responde Raul, um dos avós. Hoje é uma moleza. As figurinhas são autocolantes e não dão trabalho. E são muito mais bonitas. Além de coloridas, são brilhantes.

Pedro complementa:

- E com as figurinhas nasceu outra brincadeira de moleques; o bafo. Com a mão em concha sobre um monte de figurinhas, procurava-se conseguir algumas levantando a mão rapidamente. O ar se desloca e vira algumas figurinhas que ficam para quem bateu o bafo Acho que vocês ainda hoje fazem isso no intervalo das aulas, não é?

E tem mais o Futebol de Botão ou Futebol de Mesa. Verdadeira febre que formou clubes. É o esporte que mais títulos deu ao Palmeiras nos últimos 19 anos.

É o esporte que atazanava a vida de mães que viam seus pirralhos (entre eles o pirralho-pai) riscarem os tampos de suas mesas de jantar, fazendo as marcas do campo. Usavam botões de camisa, calças, cuecas ou tampas de relógios de pulso.

- Vó – diz Bruno interessado – você que está fazendo a matéria para a tua revista deve ter pesquisado sobre isso. Como surgiu? Onde? Quem inventou?

Orgulhosa de poder compartilhar com os netos aquilo que pesquisou e aprendeu, Maria Lucia logo responde:

- Oficialmente considera-se que o Futebol de Botão foi criado no Brasil entre 1922 e 1929 por Geraldo Carneiro Dècourt estudante do Colégio Albridge em Niterói (Rio de Janeiro) . A garotada usava botões que tirava de seus uniformes de colégio e era comum andarem segurando as calças. O jogo foi proibido dentro do colégio, mas continuou a ser praticado em casa e as cuecas e calças eram as atacadas. Hoje é um jogo de regras, mas não há juiz. Se há uma regra especifica para a saída da bola pela linha de fundo, não há necessidade de juiz. .

Em outro espaço, meninas, mamães e vovós se deliciam falando de Bonecas.

Lia conta

- As primeiras estatuetas de barro podem ter sido feitas pelo homem há 40 mil anos, e serviam em acontecimentos religiosos. Podiam ser feitas de barro ou de madeira. Passaram de ídolos religiosos para brinquedos no Egito, há cinco mil anos. A primeira fábrica de bonecas foi na Alemanha de 1413 . A Alemanha, onde se realizou a copa mundial de futebol deste ano.

As bonecas, até 1930, eram feitas de pano com enchimento de serragem, massa de papel maché, papelão, eram muito pesadas e desmanchavam; ou eram de porcelana, e quebravam com facilidade.

Cida, sempre atenta, sempre participante, entra na conversa : - Eu tinha mais ou menos uns 7 anos - acho que era 1957 - quando ganhei uma boneca de papelão. Grande, bonita, como um bebê de plástico. Esqueci na chuva e só ficou um monte de papel molhado e esparramado no chão.

Depois, foi o tempo das bonecas de celulóide. A vovó deve ter tido o seu bebê de celulóide. Pergunte a ela.

A avó toda emocionada se lembra:

- Eram lindas. Pareciam uma criança de verdade. Até a cor, meio rosada lembrava uma criança. Mas eram duras.Era só apertar forte que elas amassavam e ficavam feias. Nisso não se pareciam com os de hoje, em que o plástico é flexível e permite muitos movimentos. Havia bebês de todos os tamanhos, mas os preferidos eram aqueles que tinham o tamanho de um bebê mesmo. E nós fazíamos roupinhas ou então usávamos fraldas, cueiros, camisinhas, macacões, casaquinhos e toucas das crianças novas da família. E os embalávamos cantando canções de ninar. Era como um preparativo para a nossa maternidade futura. Hoje, as bonecas são muito sofisticadas. Feitas de plástico, cabelos enraizados, falam, cantam, dançam, andam de patins e bicicleta, choram, dormem...

- Quem conhece a Bárbie? - pergunta Júlia

- Eu tenho várias, diz Laura.

- Você sabia que ela é uma boneca diferente porque tem o corpo com que toda adolescente sonha? A primeira apareceu em 1959, vai mudando com o tempo e com a moda. Já foi vestida pelos mais famosos estilistas. Já teve 80 profissões diferentes, sempre com roupas típicas da profissão. Tem Barbie de cadeira de rodas, Barbie bailarina, Barbie princesa da África, Barbie Rainha da Inglaterra...São quase sempre lançadas nas versões loura e morena. Já até lhe deram um namorado, Ken. Há fanáticos colecionadores de Barbies. Mas, Barbie está perdendo terreno para Samanta lançada em 1986. Seja Barbie ou Samanta, sabiam que em Nova York, na Quinta Avenida um salão de beleza de três andares, para bonecas terem seus cabelos penteados em trancinhas (US$10,00) ou rabos de cavalo (US$20,00). Há filas de meninas para serem atendidas.

No Brasil a Estrela lançou a Suzi em 1960 e ela é a nossa Barbie,. Sua roupa é como nos vestimos; suas profissões são daqui. É também vestida por grandes nomes da moda. Eu já falei muito. Agora vocês meninas falem de suas bonecas preferidas.

Maria Lúcia, agora expert no assunto reforça:

Bonecas não devem vir com nome próprio, deixando em aberto a imaginação da criança colocar-lhe seu nome preferido. Conheci uma menina que tinha uma boneca de pano negrinha, sua preferida a quem ela chamava de Penhinha porque era da cor de sua babá Penha.

Mãe – diz Laura - você esqueceu de falar nos bichinhos de pelúcia que fazem a nossa alegria. Dormem conosco como companhia e até os namorados dão pras namoradas. São gostosuras. Eu tenho tantos, uma coleção. E Lívia também.

E os vídeos games? Perguntam as crianças, porque esses brinquedos eles conhecem bem.

- Eu acho que os videogames são passagem do brincar ao jogar. Mas, ainda é a imaginação pessoal que tem mais força. Um adolescente que joga com games, escolhe aquelas histórias e personagens que tenham relação com seus desejos e fantasias.

E Maria Lucia atenta faz a si mesma uma pergunta: como esses jogos novos, que usam muita tecnologia vão influenciar as crianças de agora? O brincar está mudando de função? Ou muda só a forma de expressão? Sem dúvida, brinquedos e brincadeiras são diferentes hoje, como é diferente todo o contexto social. É um assunto que lhe desperta a curiosidade e ela promete que vai pesquisar mais.

Inesperadamente a chuva passou, os mais novos correram para fora para aproveitar o que sobrou do dia e pais e avós foram cuidar do transferido churrasco porque logo, logo as crianças estariam tinindo de fome reclamando comida.


4 comentários:

Leca disse...

Oi vovó Neuza...
parabéns pelo blog e pelo post...
beijos
Leca

Amapola disse...

Boa noite, vovó Neuza.
Adorei seu blog.
É uma nostalgia gostosa, lembrar-me de uma das músicas que mais cantei, quando criança: O CRAVO BRIGOU COM A ROSA...
DEBAIXO, DE UMA ROSEIRA...
O CRAVO SAIU FERIDO...

A brincadeira de passar o anel também, é de dar um nó na garganta!

Um grande abraço, amiga.

Cláudia Santiago de Abreu disse...

Adoro seus textos!

Anônimo disse...

ola tu blz segue o meu blog ai ocrik.blogspot.com beijos t++ FICO GRATO SE VC SEGUILO