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segunda-feira, 16 de julho de 2012
REGISTRO DE MINHA PARTICIPAÇÃO NA VISITA AO CENTRO
Registrando a minha participação na vida do poeta paulistano Guilherme de Almeida e sua passagem pelo centro da cidade. Estamos noo metrô Sumaré em direção à Sé para começar o passeio pelo Triângulo. A segunda à esquerda é a neta de Guilherme de Almeida
Fico muito brava quando me chamam de Neuza Guerreiro ou Neuza de Carvalho. Não sou eu. Questão de identidade.
Estou, aos 80, anos saudável, integra o quanto se pode ser nessa idade, ativa, ainda entusiasmada e motivada a procurar novos projetos, novas atividades.
Não me chamo velha, não estou na Terceira Idade – a vida não se conta pelo número de anos vividos; não estou na Melho/ridade – porque podemos encontrar coisas boas em qualquer etapa da vida; não gosto de Feliz/idade porque soa artificial. Abomino todos esses nomes inventados. Mas Esther Alves Martirani propôs Longev/idade, Divers/idade, Oportun/idade e gostei. Na verdade me agradou mais a definição dada por um ex-reitor da USP, Jacques Marcovitch que chamou a nós de idade da “Juventude Acumulada”.
Prefiro dizer, mais poeticamente parafraseando Machado de Assis:
Estou naquela idade inquieta e duvidosa
que é um fim de tarde
e começa a anoitecer
Tenho uma idade cronológica, uma idade fisiológica, uma idade mental (cabeça sempre funcionando a mil por hora) uma idade cultural, outra comportamental. Sou como um camaleão e me comporto conforme a situação. Tenho “jogo de cintura”. Juntar tudo isso em um termo só é no mínimo muita pretensão.
Então, vou me colocar em uma faixa etária, numa idade cronológica – 80 anos – por questão de identificação temporal.
Não sou uma. Sou “várias”, sou múltipla.
O meu lado filial não existe mais. Fui filha de alguém que aos 97 anos se foi, lúcida até o fim, mas inválida, presa a uma cama há vários anos. E em função disso, todo um mundo de responsabilidades se despejou em cima de mim. E felizmente, outra faceta de minha personalidade aflorou com os anos: tolerância, paciência e empatia.
Tenho a minha porção doméstica que eu chamaria de Administradora do Lar, onde sozinha tenho que cuidar de comida, manutenção de eletrodomésticos que estão envelhecendo, precisando de cuidados maiores. Cuido principalmente do equilíbrio financeiro que é o mais difícil.
Alterno minha cabeça com Platão, Sócrates, com conhecimentos do pensamento de um Lèvi Strauss, com providenciar suprimento de sabão, papel higiênico, bananas, mamões, arroz... Uma transição nada fácil.
Meu lado profissional é necessário, uma vez que não se vive apenas com pensão e benefício de um INSS. Reservas? Não mais. E tenho minhas necessidades culturais que custam caro. Amo livros, sei das novidades, dos lançamentos, mas não posso ter meus livros preferidos e necessários para me dar mais bagagem cultural. O dinheiro não dá.
Administração financeira tenho que conhecer. Sou eu quem compra, quem usa racionalmente luz, água. Quem orienta possíveis auxiliares no uso também racional de comidas e tudo o que se usa numa casa. Tenho que dividir meus gastos com coisas essenciais e não essenciais. Entra aí uma escala de valores que é minha, pessoal. Não abdico de um jornal (ou mais de um quando posso), de livros. Não dá para viver sem telefone, sem celular (contatos profissionais e onde meu filho me encontra nas minhas muitas andanças), sem computador, porque é nele que todo o meu trabalho se desenrola, sem Internet, que me liga ao mundo, sem uma TV à cabo para assistir coisas boas e não só TV comercial nitidamente dirigida.
Moro bem por contingências da vida. Já estava aqui quando tinha melhores condições e agora é mais difícil sair do que continuar.
Tenho um carro de 14 anos, mas é um a questão de auto estima. Sinto-me mais gente quando dirijo, quando tenho autonomia, mesmo que não faça grande uso dele. Desloco-me muito bem de ônibus e metrô. Não tenho preguiça de andar e por isso vou a qualquer lugar. Se tiver que dispor desse carrinho vai ser penoso. Vai me tirar uma raiz secundária, fincada lá no fundo de minha vida.
Todas as emoções amorosas vivi plenamente e as esgotei em 46 anos de convivência e compartilhamento com a minha outra metade perfeita. Tudo o que sou hoje é a somatória, a mistura desses anos todos. Aprendi a viver a dois, aparar arestas, ser tolerante e respeitar a individualidade de cada um. E isso fica para toda vida. E tenho orgulho de dizer que fui uma esposa-amante, como todo homem deseja.
Com os filhos tenho relações biológicas e emoções maternais que duram enquanto eu durar. Com os netos, tudo isso em dose dupla. Amores diferentes, não roubam nada às emoções amorosas.
Hoje, dizem meus netos que sou empolgada demais com o que gosto, e faço questão de dividir com amigos tudo o que sei, o que aprendo e do que tomo conhecimento como coisa boa.
Sou IMPACIENTE, por conta talvez de minha deficiência auditiva. Mesmo ajudada por próteses auditivas nem sempre ouço o suficiente. Muitas vezes tenho que deduzir o final de uma frase para captar o sentido. Barulho ou muita gente falando junto me irrita e não ouço nada. Tenho que administrar melhor esse problema.
GOSTO DE:
- Musica – principalmente a erudita que ouço há mais de 30 anos, partilhada e comentada com aquele que me completou. É fundamental para mim. Vibro, me emociono, me empolgo e chego a sentir impacto orgânico quando a musica me evoca lembranças e emoções já vividas. Por isso curto demais. Óperas, concertos, recitais, pequenas peças. E conheço mais ou menos bem, não em teoria e instrumento, mas na vivencia.
- Literatura – gostaria de ter mais tempo para ler e mais dinheiro para comprar livros. Sou eclética. Leio de tudo e não gosto de ler livros emprestados. Rabisco, marco, anoto, comento e sempre preciso de uma ou outra informação do livro em questão. E fico frustrada quando não o tenho. Best-sellers eu dispenso.
- Artes Visuais – assunto que só há muito pouco tempo tomei conhecimento, estou entrando devagar nesse mundo, procurando entender para não ficar apenas nos Leonardo da Vinci, Michelangelo e Cézanne da vida. Hoje conheço alguma coisa de Picasso, Tomie Ohtake, Du Champ... Ainda não é prioridade.
Amo a minha cidade. Amo São Paulo de paixão. Estudo e conheço muita coisa sobre a cidade. Vou juntando matéria que disponibilizo para quem quiser.
Tenho uma grande ANSIEDADE EM TRANSMITIR AOS OUTROS AQUILO QUE SEI. Não tem sentido acumular conhecimentos. Não na minha idade. Parece que quero aproveitar ao máximo o tempo que ainda tenho e que não sei quanto é.
GOSTO de flores, por do sol, chuva, de certo perfume de qual alguém gostava, um vinho para acompanhar uma conversa, um chopinho em um fim de tarde quente.
NÃO GOSTO
ode quiabo, jiló e mocotó.
ode Futebol
ode TV aos domingos
ode conversa fiada, “abobrinhas”.
De resto, tudo está muito bem comigo. Sou MUITO FELIZ com o que tenho e não fico desejando o difícil e impossível.
Como diria meu pai: ESTÁ TUDO AZUL COM BOLINHAS BRANCAS. Ou TÃO BOM QUANTO CHANTILLI COM MORANGO.
Neuza Guerreiro de Carvalho
Maio de 2010
“QUEM SOU EU” TEXTO REPAGINADO
VERSÃO 2009
Faz mais de um ao que eu comecei a usar um novo sistema de comunicação – o blog. Gostei e venho mantendo até então o meu blog pessoal da VOVONEUZA e desde março ultimo um Blog mais sério em que tenho responsabilidades e que escrevo só sobre São Paulo. Progresso. Também, tenho mais um ano de vida.
No Blog da VOVONEUZA tracei o meu perfil procurando me auto avaliar e dizendo sinceramente quem sou eu. Como tudo muda inclusive contextos, pessoas, devo ter mudado também e pensando nisso procurei rever o “Quem sou Eu” vendo o que continua, o que mudou e o que tinha sido esquecido e deve ser acrescentado.
O cerne, o eixo de “quem sou eu” ficou mantido. Mas há coisas a constatar e acrescentar.
Primeira constatação deste ano: estudei mais, tenho mais conhecimentos, me valorizo mais. Não me intimido com pessoas, sei o que quero, o que penso e estou segura na minha filosofia de vida.
Considerava três os caminhos que mais me interessavam: a MUSICA, a LITERATURA e as ARTES VISUAIS. Na verdade esqueci de citar uma vertente cultural importantíssima para mim que é o estudo da MEMÓRIA.
Trabalho com Memória há vários anos, estudo-a sob os mais variados aspectos e uso esses conhecimentos em trabalhos de vários tipos: historias de vida, historias de família, historias coletivas, resgates de Memória pessoal.
Desde 1997 escrevo a história da família de maneira mais sistemática graças à minha chegada ao Museu da Pessoa que trabalha esse assunto em termos profissionais. Durante anos convivi com a pratica e trabalho do Museu, entrevistando, transcrevendo, editando Histórias. E então, MEMORIA ficou sendo meu outro centro de interesse. Às vezes paro um pouco, entram outros interesses, mas trabalhar a MEMÓRIA continua prioridade.
E então agora são quatro os meus caminhos.
A Literatura está meio esquecida. Leio muitos textos que preciso para tarefas de aulas, seminários, mas não leio o suficiente para um lazer maior. E uma das razões é não ter com quem dividir os prazeres da leitura, as criticas e as considerações sobre um bom ou um mau livro. Acabo até falando sozinha.
Com a musica sinto a mesma falta de dividir emoções, mas já me acostumei a ouvir e sentir sozinha, saindo de mim mesma para dividir entre o eu e o outro eu o prazer da boa musica.
Em artes visuais também não divido opiniões. Não as tenho formadas e o compartilhar seria para aprender mais.
Em Memória sim eu consigo me realizar completamente. Nos Encontros de Resgate de Memória a realização é plena quando consigo clima para depoimentos que saem sinceros e completos. Conseguir ir buscar lá no fundo as memórias de infância, de juventude, escrever sobre elas, traçar sem querer um contexto social da época, constatar mudanças de vida no tempo e no espaço é uma realização daqueles a quem eu levo a encontrar um mundo que já foi seu e que acreditavam perdido. E logicamente minha realização também.
Alguém já me disse que esses encontros funcionam até como terapia.
Outro aspecto que tem tomado força na minha vida somando-se a MUSICA, LITERATURA, ARTES VISUAIS e MEMÓRIA, é a ânsia de ensinar, de passar para os outros aquilo que aprendo. Faço isso informalmente quando solicitada. De maneira formal fiz durante quase 30 anos de magistério, até 1980. Nos quase 30 anos seguintes não me liguei a jovens ou a cursos fundamentais, mas foi o que acabei fazendo neste semestre por conta da entrada no Instituto de Biomédicas e departamento de Anatomia da USP.
O grupo a que pertenço projeta modelos anatômicos com material simples (sucata mesmo) para ensinar Anatomia a jovens alunos. E aí a minha experiência entra e pode ser usada. Mesmo assim, aprendo muito.. E me vejo fazendo esquemas de ensino, como fazia há 30 anos passados.
Agora, 40 anos depois volto ao contato com alunos do curso fundamental mostrando e explicando como são esses aparelhos e sistemas reprodutores que tantos problemas me trouxeram. Mas, é muito diferente. A meninada sabe muito e é preciso saber muito mais para acrescentar ao que eles já sabem. É preciso ter muita segurança, uma linguagem própria, realismo sem fantasia.
Volto a fazer esquemas, proponho estratégias interativas, com liberdade e de novo com prazer. E a outra vertente acaba sendo CIÊNCIA.
E já são cinco os meus caminhos. Não tem o mais importante. Todos têm igual importância.
E na minha vida continua “tudo azul com bolinhas brancas”
como dizia meu pai.
Neuza Guerreiro de Carvalho – julho de 2009
"QUEM SOU EU" - VERSÃO 2010
Na vida tudo muda. Mudam as pessoas, muda o ambiente, mudam os comportamentos, mudam os interesses, mudam os conceitos, mudam os sentimentos........Mudanças sempre acontecem.
Quando eu comecei a me auto avaliar, a escrever “Quem sou eu?” em 2008, eu era uma. Sou outra em 2010. Já em 2009 me repaginei, mantive algumas caracteristicas imutáveis mas mudanças já acaonteceram e eu aprendi a conviver com elas. Mas não foram muito “mudanças” e foi fácil a adaptação.
A Vovó Neuza de 2010 está diferente.
Muitas coisas se mantiveram, mas o perfil já está diferente e a vida também.
Em 2009 estudei e produzi muito. Quem mostra isso é a minha retrospectiva anual. Quando fui fazer o necessário backup o material não cabia em pendrive comum e nem em um CD. Tinha 3,24 gigabites e tive que usar um DVD. E aí é que me dei conta de quanto tinha estudado, trabalhado, escrito. Consequentemente aprendi muito. Quando consigo tempo para pensar, aparece aquela velha ansiedade de querer passar para frente o que sei ou a pergunta “para que estudar tanto, nessas alturas da vida?” Pelo prazer, pelo simples prazer. E para me dar segurança nas minhas atitudes.
O que continua igual são meus cinco campos de interesse – MUSICA, ARTE VISUAL, LITERATURA, CIENCIA E MEMÓRIA - Estou procurando me dedicar um pouco mais à Literatura. Procuro algum curso de Arte, de musica ainda não consegui, Ciencia só perspectivas, e Memória continuo lutando para trabalhar porque é algo em que acredito e batalho para motivar pessoas, principalmente idosos. Tive problemas com atividades fisicas mas já resolvidos. Continuo participante de pesquisas.
Mas, minha vida pessoal mudou muito. Para melhor? Pior? Mudou.
Durante os meus 46 anos de casamento, embora atendendo marido, mãe, pai, sogro, sogra, filhos e “anexos”, quem resolvia problemas domesticos era eu. Só eu. Quando Ayrton foi embora, eramos eu e minha mãe e eu assumi todas as respondabilidades. E aí ela também foi e eu ainda mais sozinha tinha tudo a resolver da minha vida. Raramente pedia um conselho.E isso criou um perfil de independencia pessoal muito acentuado.
De repente acontecem mudanças materiais. Elas teriam que acontecer mais cedo ou mais tarde e muito melhor se foram consensuais e não compulsórias. Estou envelhecendo, causo mais preocupações á familia proxima e seria egoismo querer me manter sozinha à custa de trabalho e pensar de outros.
As mudanças chegaram na figura de um filho em seu segundo casamento e que voltou para cá. Também veio o seu amor de outono e por isso mesmo muito intenso.
E a “população” da minha casa triplicou. São três agora as pessoas interagindo. Duas mulheres a cuidar da casa. Duas mulheres com idades diferentes, conceitos diferentes, costumes diferentes, energias diferentes, noções de tempo diferente, cada uma marcando um espaço seu. E um homem para interferir, ainda bem que filho.
Arestas tem que ser aparadas, mas isso leva um tempo. O que vale é a cabeça de cada um, uma inteligencia atuante e sempre atenta, um “jogo de cintura” que às vezes cansa. O importante é o respeito que cada um deve ter para com o outro.
Os acertos vão acontecendo, os espaços de cada um delimitados e de minha parte a tolerançia não quer dizer submissão. É saber viver.
Falta muito? Acho que nem tanto. Estou ainda me reeducando para essa nova vida. Estou chegando na “universidade”. Depois, um “doutorado” e até “pos-doc” deixarão tudo “quase” perfeito. Perfeito, nunca.
Colocando na balança: Estou mais desobrigada de uma série de atividades (uma delicia chegar para as refeições sem saber o que esperar. Pura surpresa), tenho mais tempo para minhas atividades de prazer, mais folga financeira (dividimos gastos domesticos) e sobretudo tenho companhia, tenho com quem conversar, trocar idéias e até “brigar” com filho. Perdi um pouco da independencia domestica, mas isso é tão pouco importante que não chega a mexer o fiel da balança.. Ganhei mais do que perdi. Muito mais.
Ao que tudo indica, as pedras vão se assentando, problemas sendo resolvidos e logo logo tudo se torna rotina outra vez.
O que mais pode desejar uma pessoa aos 80 anos? Só esperar que possa registrar as mudanças em 2011.
Usando Fernando Teixeira (não Fernando Pessoa):
“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”
Vovó Neuza – Abril de 2010
Meus melhores locais, livros, música e filmes
A CASA DE VIDRO – Ivan Ângelo
Casa das Rosas
Centro Brasileiro Britânico
Cidade Universitária
CRIME E CASTIGO - Dostoiewski
Garcia Marques-todos
GERMINAL de Zola
Livros de Crônicas em geral
Mario Vargas Llosa -todos
MASP
Negócios e Ócios-Boris Fausto
O Físico -Noha Gordon
O SÉCULO DOS CIRURGIÕES - para quem se interessa pela história da Medicina
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