sábado, 7 de junho de 2008

MAIO MUSICAL - SEGUNDA QUINZENA


E como sou eclética, na sexta feira 16, comecei o dia com a “musica” dos pregões da feira, que não deixam de ter sua musicalidade, sua criatividade.

Mais Wagner com filme sobre Tristão e Isolda, cinematográfico, nada fiel ao enredo operístico. Apenas mais um filme épico, com muita luta medieval, muito sangue, traições, gente artificialmente bonita, mas no final nem o trecho “A morte do Amor” musicalmente mais envolvente e emocionante e por isso mesmo mais conhecido, foi aproveitado. Esperei por ele e fiquei frustrada. E Isolda nem morre!!!!!

E ainda tive gás para prestigiar amigos. Ivanilson, marido da querida Margarete ia se apresentar às 21h em um espaço em Perdizes. Fui até lá (felizmente de carona). Um espaço simples ao qual se chega por lances de escada estreitos e penosos. Auditório amplo, escurinho, com almofadões para os ouvintes. Ainda bem que tinha uma poltrona para mim. Sentada nos almofadões não me levantaria tão fácil.

Musica Popular Brasileira legitima com letra e musica de Ivanilson. Acompanhei o trabalho real dele, sei que isso representa muito tempo de reflexão, estudo e dedicação. O tempo foi só dele e ele teve a oportunidade de mostrar a que veio. Pena que, seja por minha deficiência auditiva, seja por uma dicção e projeção de voz que ainda precisam ser lapidados, não consegui acompanhar a letra que sei, era fundamental. Ivanilson é além de tudo um poeta. Foi também o comentário de outro musico.

Fôlego no sábado só com oficina de literatura.

No domingo não quis ir ver programas ligados ao centenário da imigração japonesa. Deixei para aqueles que têm raízes no Japão. Eu não entenderia as manifestações culturais, nem os mitos. E, além disso, não me identifico muito com o maestro de origem japonesa porque em minha opinião é muito frio na regência. Não entro no mérito da competência.

Como há tempo não ia ao SESI, foi para lá que me desloquei. O programa era uma apresentação do grupo de percussão da ECA. Programa diferente, com toda a parafernália instrumental a que a percussão tem direito, muito colorido (não sei se de propósito ou não, os instrumentos tinham cores vivas – vermelho, azul, amarelo, verde, marrom...) Praticamente todos representados: xilofones, marimbas, tan-tan, caixa, tambor, pratos.... Jovens dominando a técnica e executando obras difíceis. Interessante porque é uma maneira de dar visibilidade aos percussionistas que em uma orquestra sempre ocupam o fundo, quase não são vistos e quase ninguém sabe que eles existem. Mas, no conjunto fazem a diferença.

Duas peças me agradaram mais:
- musica de mesa: três executantes fazendo ruídos e movimentos com as mãos. Um balê de seis mãos expressivas movimentando-se ritmicamente. Espetáculo sonoro-visual surpreendente.
- Bolero - seguindo a construção do Bolero de Ravel, poucos compassos executados por diferentes instrumentos num crescendo. Ritmo acentuado, com diferente seqüência do Bolero de Ravel, e sendo uma variação, um arranjo, é em essência o próprio Bolero.

Na segunda não ouvi musica, mas garanti ingressos para os programas do Municipal até o fim de junho e para as óperas até novembro.

Mais Musica Popular Brasileira na Casa das Rosas com o ciclo “O 1968 - o Ano que nunca acabou e suas Musicas de Protesto”. Ouvidas, estudadas, comentadas e dissecadas musicas do Chico Buarque, Vandré, Caetano, Gil. Aprendendo coisas que nem me passaram pela cabeça na época. Outra face da música.

Na quarta, o penúltimo encontro na Caixa Cultural. Chego à Praça da Sé com muita facilidade, até curtindo o trajeto: jogo de luzes no Vale do Anhangabaú visto do Viaduto do Chá, a luta dos camelôs fugindo à guarda que é um verdadeiro balê malabaristico entre carros, com toda a mercadoria dependurada, as mil e uma faces com que cruzo no caminho, CDs e DVDs esparramados pelo chão e vendidos a R$1,00.

Hoje o programa é diferente: Núcleo Hispérides com Musica das Américas. Sete participantes, com duas sopranos e um barítono na parte vocal e mais quatro instrumentistas: flauta, violão, percussão e piano fazendo o cenário. Sons diferentes, vozes excepcionais, performances pra ninguém botar defeito. Textos musicados de alguns paises sul americanos, sacros ou não. Poesia de Garcia Lorca musicada e cantada. Madrigais, etc. etc. etc. Muito sugestiva e magistralmente interpretada por Andréa Kaiser (uma bonita sopranos de cabelos de fogo) foi a adaptação do “cachorrinho”. (Não sei detalhes. Não consegui apreender a explicação. Claro, porque sou deficiente auditiva) .Gostaria de ouvi-la de novo. Não sei como.

Em seguida um feriado para me dar tempo de escrever sobre tudo isso.

No sábado 24, depois da oficina da literatura, voltei à Casa das Rosas para o Sarau da Fernanda de Almeida Prado. Sempre que posso vou até lá nem que seja para cumprimentá-la.

Sempre são de muito bom gosto, entremeando musica e poesia com um tema a cada mês. Este mês, por conta dos 50 anos de Bossa Nova, o tema foi esse. Participam geralmente artistas amadores sempre capazes e beirando o profissionalismo.

Cantadas por vozes suaves, delicadas, afinadas e com interpretações perfeitas, muitas musicas de Vinicius de Moraes foram cantadas. Musicas de profundos significados, parte já do imaginário popular encantam tanto quanto uma sinfonia de Beethoven ou de Tchaikosky. Tocam-me da mesma maneira. São musicas não só de ontem ou de hoje. São de sempre. E Miriam Samorano e sua voz suave deu o recado.

Letras de Orfeu da Conceição e Orfeu Negro me lembraram o mito com o qual vou conviver de novo por estes dias. Orfeu e Euridice andam me perseguindo.

Outra surpresa: um japonês (ou nissei? ou sansei?) tocando violão magistralmente, até com a batida do Baden Powel. E cantando musicas que nem de longe lembram suas raízes orientais. Até de carnaval ele falou com sentimento. Algumas musicas entendendo até como protesto político ou de vida. Surpreendente. Seu nome? Renato Matsukura. Um violão bem tocado mexe comigo tanto quanto um piano ou um cello meus preferidos. E me reporta a tempos de dantes quando um certo Ary de Carvalho envolvia e conquistava seu violão e encantava a família.

Final com Carmen, Graziela, Gabriel, Fernanda, Alex, Guca, Miriam, Julia, Élio, e Renato cantando tocando violão e declamando o “Samba da Benção” de Vinicius, emocionando ouvintes, e a eles mesmos. Samba da Benção arrepia até a alma.

Fernanda, você se superou hoje. Como eu gosto.

No domingo (25) fui ao Centro Cultural São Paulo. Há tempos não ia. Um recital de piano me resgatou a Balada nº 1 de Chopin, há muito esquecida, mas sempre querida. E as Cartas Celestes de Almeida Prado embora agradando não se compararam à execução da mesma peça por Eduardo Monteiro. Fabio Godoi é um pianista jovem, ainda engatinhando, mas prometendo.

Quase não posso voltar arrastada pela multidão que participava da Parada Gay e que invadia os vagões do metrô.

Neste final de semana Daniel Baremboin passou por aqui. Como diria o povo “É muita areia para meu caminhãozinho” Ficou na vontade de ouvi-lo. Foi o gancho da memória que funcionou com a lembrança de Jaqueline Du Près , a violoncelista que foi sua mulher que tantas vezes ouvi em CD.

Terça-feira (27) volta MPB de protesto com um Chico Buarque de enfrentamento, e análises de Jorge Bem, Paulinho da Viola, Caetano e Gil em outra fase, Elis agressiva e corajosa, e até um Roberto Carlos medíocre foi comentado.

Na quarta-feira (28) foi a última apresentação de Caixa de Musica. Que pena. Já estava se tornado rotina o meio da semana musical. Desta vez foi apresentação de uma soprano Claudia Riccitelli acompanhada pelo Dante Pignatari. Foi a primeira vez que vi Dante atuando como pianista, embora acompanhante, mas acompanhamento pra lá de especial. Não tenho conhecimento para avaliar a cantora. Só sei se me agrada, se a voz é equilibrada, potente, e afinada. Isso sim detecto. E ai me dou conta de que só ouvimos o produto final. Todo o trabalho que está por trás fica esquecido. Por isso é importante uma apresentação que fale disso, como foi feita. Até logo, até mais outras curadorias de Dante Pignatari.

Sexta (30) mais um pouco de musica erudita com o recital de Eni da Rocha no CIEE. Muitas vezes a ouvi em outros tempos. Não havia programa impresso e eu fui desafiada e identificar as musicas pelo que eu conhecia. E fui capaz de detectar Bach, Liszt com seu Sonho de Amor, Debussy. As outras só “pelo jeitão” como musica brasileira, um Nazareth, um Villa Lobos, talvez uma Valsa de Esquina de Mignoni. Não estou tão mal assim.

E assim terminou meu maio musical.

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