segunda-feira, 23 de junho de 2008

MINHA VIDA DE ESTUDANTE – PRIMEIRA PARTE (1935-1940)


Volto para trás, olho o passado, fisgo a memória e me vejo com cinco anos atravessando a rua Correia de Andrade no Brás, e entrando na escolinha da Dona Etelvina, que por coincidência tinha sido professora de meu pai em suas primeiras letras. Eu já as conhecia pelo jornal que meu pai trazia e me ensinava qual era qual, mas foi Dona Etelvina, minha primeira professora que organizou esse conhecimento primordial.

Tenho agora sete anos. O que dona Etelvina podia já me ensinou. Estou ávida de aprender. Eu não tinha nenhum ambiente propício, não vivia em uma família que fosse letrada ou pelo menos interessada. Meu pai era guarda livros, já um degrau acima do restante da família, mas sempre achou que eu devia subir mais.

A “biblioteca” de minha casa era constituída por 02 (sim, dois) livros apenas: Uma Antologia Nacional onde eu li pela primeira vez o verso Meus Oito Anos de Casemiro de Abreu; e um livro de Geografia Geral, naturalmente em preto e branco, sem nenhuma foto colorida. Claro, era por volta de 1939-40.

Isso me deixou no subconsciente a idéia que tudo o que todos os paises que o livro citava eram cinzentos e sem sol.

Nos primeiros dois anos do curso primário estudei no Grupo Escolar Romão Puiggari, um belíssimo prédio do final do século XIX e concebido por Ramos de Azevedo. Pode ser visto ainda hoje, na Av. Rangel Pestana, bem em frente da igreja do Brás, E eu nem me dava conta do privilégio de circular por aquele espaço.

Pulo agora para os nove, dez anos. Sou estudiosa, estou no 3º e 4º anos primários. No Primeiro Grupo Escolar do Sacomã, no Ipiranga. Sento à mesa da professora, um símbolo de status, como aluna de primeira linha. Sempre ia além do pedido.

Lembro-me que a primeira coisa que escrevi espontaneamente foi um resumo de filme. Era uma folha de caderno dobrada em quatro como se fosse um livro e aí escrevi o que tinha entendido do filme A Princesa da Selva, com Dorothy Lamour que tinha me impressionado com o seu “sarong” coisa que nunca tinha visto. Professora inteligente me incentivou e devo ter escrito mais, mas não me lembro especificamente o que.

Sempre estive entre as interessadas e esforçadas, não por obrigação, mas por prazer.

Passei sem nenhum obstáculo para o ginásio, uma raridade no meu meio social e naquela época.


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