sexta-feira, 27 de junho de 2008

MINHA VIDA DE ESTUDANTE – TEMPOS DE GINÁSIO PAULISTANO ( 1941-1947)

Durante sete anos fiquei debruçada sobre cadernos de anotações e os livros didáticos requeridos. Não tinha em casa mais do que os dois livros citados. A escola era o Ginásio Paulistano, na Rua Taguá 150 ( onde hoje fica a FMU) , na Liberdade. Sete anos de bonde diário, conhecendo cada pedra do caminho. Passava pelo monumento do Ipiranga, via de longe o Museu, e observava a bela Avenida Dom Pedro I, lugar da elite ipiranguense, com suas belas residências. Um dia viria a morar nessa avenida.

Estação dos bondes da Light, A lembrança do relógio do Laboratório Andrômaco, Largo do Cambuci (que teria importância grande na minha vida).

O curso científico foi difícil e até hoje tenho pesadelos com as aulas de Matemática. O professor era ótimo, mas eu era péssima aluna. Prof. Oswaldo Sangiorgi até hoje é boa lembrança. A matéria não.

“Sete anos de pastor Jacob serviu...” para ter condições de mudar de status. Quem estudou nessa época nesse Ginásio, certamente vai recordar muita coisa.

Toda a minha adolescência - nem se usava o termo na época - está ligada ao Ginásio Paulistano. Em fins de 1940, fiz o curso de Admissão de três meses, nesse ginásio, que ficava longe de casa.

Eu ia de bonde, do Ipiranga até a rua da Glória, andava a pé toda a rua São Joaquim até a Rua Taguá, onde ficava o ginásio.

O Ginásio Paulistano foi muito importante em minha vida. Freqüentei durante sete anos suas salas, seus corredores, sua quadra de Educação Física, seus pátios e recreios (separando os meninos das meninas), seu auditório.

Nos meus primeiros dois anos no ginásio, (1941-42), o curso ginasial funcionava no prédio principal.. Quando eu estava nas 3ª e 4ª séries (1943-1944), o curso ginasial passou para um prédio novo, com frente para a Rua São Joaquim e entre os dois prédios pelos fundos de ambos, havia uma grande área aberta, de interligação, hoje toda construída. No curso científico passamos de novo para prédio da Rua Taguá e ali ficamos os três anos do curso.

O ginásio Paulistano era um ginásio particular e com mensalidade cara para nosso padrão - na 1ª série do ginasial, em 1941 eu pagava $50.000 (cinqüenta mil réis). Ainda tempo do mil réis

Colegas desse tempo?
Revendo a fotografia de formatura da quarta série ginasial, em dezembro de 1944, me lembro de alguns:
Silvia Tuth Medeiros a quem eu era muito ligada, talvez porque era alta, bonita, contrastando comigo que era baixinha e feiosa. Parece que morreu cedo.
Nair O' Hara, uma japonesa muito rica, em cuja casa estive e que me encantou pelo luxo;
Maria de Magdala, portuguesa também rica com uma casa muito linda, onde pela primeira vez eu vi um biombo;
Irene de Mori, que reencontrei na Faculdade fazendo Letras;
Rosita Arantes, Diógenes Marins Favery, Lélia Menucci, Neiva Therezinha Costa, Guaracy Mirgalowska, Jeanne Hortense Villin, Rubens Retroz (irmão de Orlando Retroz um grande organista)

Quando passei para o curso científico (havia também o clássico), o ambiente mudou completamente. Éramos só quatro mulheres para uns 40 homens. Havia até preconceito de mulher fazer o científico. Dos colegas me lembro de poucos José Renato Borghi (gozador e brincalhão, vivia amarrando cordões dos sapatos nas carteiras); Antonio Rubino de Azevedo (também muito alegre), Olintho Grazziani (morreu cedo), Maria Aparecida Paskowisk (Zeth) ...

Professores?
Lembro-me de:
Professor Chiquinho, de História;
Matemática, foi dada por Renato Pasquale, no ginasial e Osvaldo Sangiorgi, no científico;
Português foi matéria lecionada por Rafael Pero Sobrinho, no ginasial e Francisco da Silveira Bueno no Científico, sempre sério, mas muito competente e que também dava aula de Literatura.
Antonio de Sá Ferros, - no científico, português que ensinava Francês com sotaque português deixou na minha lembrança a primeira estrofe da Marselhesa : Allons enfants de la patrie.....; .
e Monsier D'Arnoux, dava aula de Francês no ginasial;
Lybio Pasquale ensinava desenho;
Mr. Sheppard dava Inglês; Celestino Correira Pina era professor de Latim;
d. Chiquita, dava Ginástica e
Margarida Taranto, ensinava Inglês;
Deusdá Magalhães Mota, era o prof. de Geografia e
Ernestino Lopes, de Biologia (usava "apostilas, não comuns na época).
Max Gevertz, lecionava Física,
Nelson Tartucci, Química,
Maestro Domingos Bentivegna, Música.
Abraão Korkes ensinava Ciências (então só na 3ª e 4ª séries). De suas aulas devem ter surgido as sementes de meu gosto pelas Ciências. Tenho até a memória fotográfica de meu caderno de Ciências, bem escrito, ilustrado, de espiral e capa cinzenta. Na época (1943-1944) só se estudava pelo caderno: fazia-se um rascunho durante as aulas e passava-se a limpo em casa.

Lembranças do tempo de curso ginasial e colegial:
. O bonde "cara-dura" que ficava atrelado ao principal e que cobrava a metade da tarifa, isto é, um tostão.

. Com passe escolar pagava-se um tostão o bonde comum.

. O bonde "camarão", grande, maior que os outros, vermelho, cuja cobrança era feita só na saída, com o cobrador sentado, só para controlar. O camarão Angélica era mais luxuoso que os outros: tinha tapete, as portas abriam automaticamente, e os bancos eram estofados. Chamados de Gilda

. Os bondes cheíssimos, com cinco ou seis pessoas sentadas nos bancos e outras tantas entre os bancos. Descer era uma aventura. Os estribos eram apinhados, com passageiros em várias "camadas", e o cobrador fazendo malabarismo para cobrar a passagem, registrar a cobrança e dar o troco.

. As varetas que ficavam do lado esquerdo do bonde, e que o protegia. No ponto final era passada para o outro lado e quando ela e os bancos eram virados todos pagavam passagem de novo.

. As placas de metal com letras recortadas para indicar o itinerário dos bondes, com luz por trás. Depois substituídas por rolo de pano, girado com manivela.

. Os postes com faixas brancas pintadas para demarcar os pontos onde os passageiros esperavam o bonde

. O barzinho na esquina da Rua São Joaquim com Rua Galvão Bueno onde, em 1947, todas as tardes eu tomava um Toddy a caminho do cursinho que era durante o terceiro Científico, no próprio Ginásio Paulistano..

. O itinerário do bonde Fabrica que era longo: saía da Praça da Sé, descia a Rua da Glória onde eu o tomava, continuava pela Rua do Lavapés, Largo do Cambuci, Rua da Independência, Av. D. Pedro I, Rua Tabor, Rua Bom Pastor, Rua dos Sorocabanos, Rua Silva Bueno, até o Sacomã. Eu descia uns nove ou 10 pontos antes do final. Fiz esse itinerário durante sete anos.

2 comentários:

Mauro disse...

Cara "Vovó" Neuza:

Também fui aluno do Paulistano em otra época, bem no seu ocaso mas a saudade é a mesma.
Minha familia (mãe, pai e tios) estudaram por lá mais ou menos na época citada pela Sra.
Um grande e terno abraço de seu desconhecido amigo,
Mauro Lima de Souza
ml-souza@uol.com.br

Tatiana disse...

Vovó Neuza,

Parabéns pelo seu blog e principalmente por inspirar bons sentimentos em quem o lê!!

Conheci seu blog através do meu marido Gustavo que era neto do Luís Pasquale e ficou muito emocionado ao ver as fotos e ler a história do Colégio Paulistano, que ele conhece tão bem de sempre ouvir a mãe dele contar!

Mas o que mais gostei mesmo foi a descrição de quem a senhora é! Nos passa uma tranquilidade e o lado bom de envelhecer!! Nos inspira!!

Desejo muita saúde e muito amor para a senhora e continue nos inspirando!!

Grande abraço,

Tatiana