segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

CONTINHO DE NATAL

Tina acordou sobressaltada misturando pensamentos de um sonho ainda persistente na memória e o que faltava para aprontar para aquele Natal tão planejado. O sonho – mais para pesadelo do que sonho – tinha sido pesado e ela ainda sentia a sensação angustiante.

Ela sempre se preocupara com a situação daquele seu sitio que ficava no meio do mato, sem vizinhos próximos e pouca luz. A casa era no alto, uns 100 metros da estrada e quem eventualmente passasse por ela não saberia o que acontecia na casa. Mas, muitos amigos estavam na mesma situação e raramente se ouvia falar de algum ladrão que quase sempre era “pé de chinelo” e roubava miudezas.

Tinha chovido á noite e ela aproveitou para ficar um pouco mais na cama. E foi nesse prolongamento do sono que o pesadelo aconteceu.

Sonhou um assalto. Eram três os assaltantes bêbados, armados drogados. independente dos latidos dos cachorros subiram até a casa, e desrespeitando velhos e crianças levaram todos os brinquedos que o Papai Noel tinha deixado, todas as comidas da mesa e machucaram os cachorros. Desarrumaram e sujaram toda a casa, assustaram as crianças, comeram e beberam. Mais bêbados e planejando outros assaltos, foram embora sem levar mais nada a não se a alegria das crianças e o sossego dos adultos.

Tina não contou para ninguém a sensação desagradável que o sonho lhe deixou. Passou o dia todo entremeando essa sensação com o trabalho de preparação da festa de Natal. Eram alguns convidados da família e alguns amigos e ela queria deixar tudo pronto para poder conversar mais.

Trimmmmmmmm

- Tia Joana? A que horas a senhora chega? Ah. Não vem? Porque? Por causa da chuva? Mas “chuva não quebra osso”. Ah, então é pelo barro da estrada. Compreendo. Que pena, vamos sentir sua falta.

Trimmmmmmmm de novo

Agora é a amiga Helena que junto com o marido Marcos chegaria ainda à tarde com seus três filhos para participar da festa.

- Tina, não vai dar para ir. Pedrinho está com febre e Marcos trabalha até mais tarde. E com o barro que a chuva deve ter deixado, não me atrevo a ir sozinha. Vai ficar para o próximo Natal.

Mais uma baixa.

A sensação de desconforto continua. Mistura-se ao prazer de preparar a festa embora agora já seja só para a família mais próxima. Serão sete crianças e por elas vai valer à pena.

O tempo continua cinzento, o sol não consegue romper nuvens embora tente. De vez em quando um chuvisqueiro mais forte. Ambiente propicio para aumentar angustias. Mas Tina continua não comentando com ninguém. Só olha seguidamente para o portão esperando que a todo momento desconhecidos venham subindo pela rampa. E ainda é de dia.

O ar já está perfumado com o cheirinho gostoso do peru que está sendo assado no forno de barro que foi construído pelo avô durante a semana.

Tem que ser peru segundo a tradição. Porque não um franguinho que é mais saboroso? Pensa Tina para se distrair.

A decoração do salão já está pronta. Luzinhas coloridas. Pinhas douradas, figuras natalinas, a árvore de Natal do lado de fora em um pinheiro plantado mesmo, clareava o ambiente. A mesa decorada com capricho estava cheia de frutas secas: nozes, avelãs, amêndoas, figos turcos, tâmaras, damascos. As castanhas portuguesas ainda estão para ser cozidas quase na hora da ceia. Tina sempre contestou o nosso Natal com frutas que não são as nossas. A mesa não ficaria muito mais bonita decorada com abacaxis, mangas, melancia, carambolas, laranjas, figos frescos, pêssegos, e até bananas? Mas não.Tem que ser como todo mundo faz. Não faz mal; um desses próximos natais ela vai fazer como deseja.

Esses pensamentos contestatórios servem para distraí-la e substituem por algum tempo a lembrança do pesadelo.

Já é de tarde vai conferir se o que ela preparou como surpresa da festa está devidamente arrumando. Tudo certo. Cabeça vazia volta a angustia.

Que dia terrível. Ofuscou completamente a prazer da festa. Qualquer latido dos cachorros um sobressalto.

Quase meia noite. Barulho de sinos no portão. Alguém desce escorregando no barro e vai abrir. As crianças ficam tensas. Será o papai Noel? Quem sabe é!!

E de repente... De repente....

Uma carroça com um burro atrelado e conduzido por um desconhecido (das crianças, mas não dos adultos) vai subindo a rampa. Na carroça uma figura vermelha. É o que eles vêm por enquanto. À medida que vai se aproximando mais a figura toma a forma de um velhinho de barbas brancas, barrete vermelho. Expectativa grande das crianças. Olhinhos brilhantes, ansiedade ....

Ainda nesse clima, a angustia de Tina não passa. E se os assaltantes estiverem esperando por maior distração para chegar? Não tira os olhos do portão que a luz de mercúrio ilumina. Qualquer coisa estranha dará tempo de todos se protegerem. Como, ela não sabe, mas pensa assim.

Tensão que ela não dividiu com ninguém.

Papai Noel chega ao salão, desce da carroça, fala com as crianças com uma voz mudada para que eles não reconheçam a amiga que o está representando. Chama um por um pelo nome, distribui os brinquedos que foram os pedidos. Abraça e recomenda obediência a cada um e se despede voltando para a carroça, para a rampa, para o portão e para a estrada.

Crianças exultantes, alegres, na sua inocência acreditando no mito e guardando na lembrança de infância o “seu” Papai Noel da carroça. Explicaram a eles que não havia trenó disponível e ele usou mesmo a carroça do vizinho.

As comidas logo desaparecem. Afinal já passa de meia noite e o cheiro desperta o apetite. As conversas rolam, todos estão descontraídos, mas Tina ainda está tensa. Não tanto, porque pelo menos a festa das crianças não foi estragada. Mas, será que ainda...

Dormiu meio agitada essa noite, mas no dia de Natal o sol venceu as nuvens, o céu está azul, as crianças felizes aprendendo a andar nas bicicletas novas . Como a chuva parou a tia e a amiga com a família venceram o barro e vieram para o almoço de Natal. Á tardinha, todas as crianças, numa cerimônia simbólica enviaram, dentro de balões de gás que sumiram pelos céus, bilhetes com os pedidos para o próximo Natal que Tina espera seja mais tranqüilo.

Só então Tina relaxou de vez. Aconteça o que acontecer agora, o nosso, foi um Feliz Natal.


4 comentários:

Pedro Vieira disse...

vovó neuza! esse conto é muito bom!!

mellancia disse...

Vovó Neuza,
Tomei a liberdade de lhe dar um presentinho de Natal, espero que conheça é uma brincadeira até divertida.
Está no meu blog :
http://mellancia.wordpress.com

Ixkol disse...

Vó Neuza,

Que coisa mais bonita, quando li sobre a senhora, corri para conhecer seu blog. Está salvo nos meus favoritos. Sempre tive medo de envelhecer, mas pessoas como a senhora, vai nos fazendo mudar de idéia.

PARABÉNS!!!

Kruzes Kanhoto disse...

Parabéns Dª Neuza!!!