quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

MOÇA NO METRÔ - MEU UNICO CONTO

MOÇA NO METRÔ

Vagão cheio. Moça sentada no assento do corredor. Abre a bolsa, grande para conter o mundo. Lá no fundo sapato, documentos, carteira, moedeira, bilhete único, catálogo de telefone, agenda, absorventes íntimos, camisinhas, echarpe vistosa, bijuterias brilhantes ou menos brilhantes, um “nécessaire”. Um caos.

Moça de boa aparência, branca, entre 25 e 30 anos, não muito bonita, fora dos padrões da moda, meio gordinha, mais baixa do que alta. Mas, tem a seu favor uns olhos azuis de safiras.. Cabelos ainda molhados, descuidados. Cara lavada. Expressão preocupada às vezes absorta, às vezes pesada, outras sonhadora, com riso apontando.

Olha o relógio, se agita, preocupa-se e pega na bolsa grande e aberta a “nécessaire”: base. Blush, sombra, baton, delineador e um espelho grande, de tamanho suficiente para que ela se veja de rosto inteiro.

Começa o ritual sem o menor constrangimento. Não se importa se desperta curiosidade. Está na dela, alheia à multidão que a circunda. Sabe que tem tempo porque o percurso é longo. Base bem distribuída, blush nos lugares certos, sombra não muito forte porque afinal é de manhã. Rimel também. Não abdica de ressaltar bem os olhos embora tenha que ser discreta por conta de seu trabalho. Baton mais para o rosa, contorno mais forte.

Continua alheia. De vez em quando pára, muda de expressão passa pela raiva, vergonha, decepção, satisfação... Afinal, foi sua primeira noite de mulher.

Era virgem. Formação familiar tradicional, há tempos vive um grande conflito intimo. É relativamente culta, inteligente, uma profissional eficiente, respeitada, mas nunca foi assediada. Nunca sentiu olhares mais desejosos. Se sente marginalizada – imagine “virgem” com quase 30 anos. Não agüenta mais, sente seus hormônios a toda, afogueando-a, deixando-a ansiosa, angustiada como uma sensação de ‘não sei o que tenho.”Sonha. Afinal ainda é moça. Cinderela habita seu subconsciente e ela sonha com um príncipe, com o amor, com carinho, com palavras doces, caricias que a levarão a um clímax imaginado e desejado, mas ainda desconhecido. Resolveu. De hoje não passa. Aceitou o convite de amigas – a mãe é claro não sabia. Não compreenderia. É de uma outra época - As amigas mais experientes sempre conhecem lugares onde se encontra companhia. Mesmo com a roupa de trabalho ajeitou detalhes, se produziu mais, usou um bom perfume. Está mais atraente. Levaram-na para um lugar agradável, limpo, bonito, com boa musica com todo um ambiente sensual, sugestivo se não de romance pelo menos das preliminares.

Logo encontrou companhia. Escolheu um pouco. Tinha seu ideal de príncipe. Mas, não viu nada que chegasse perto e teve que se contentar com quem lhe deu atenção. A aparência desse homem não era repulsiva e com esforço até achou algum charme no grisalho discreto. Um pouco tonta – bebeu um pouco só, mas não tinha o hábito – deixou-se levar para locais propícios.


Trajeto silencioso torna as coisas mais difíceis.

Quarto de motel em penumbra. Pela primeira vez vê uma cama redonda, símbolo de um “procedimento”. Sempre em silêncio, ele começa a tirar a roupa. Ele insinua que ela faça o mesmo. De vagar, como querendo prolongar ao máximo o que está para vir, ela chega à lingerie intima. Tinha caprichado. Gastou boa parte do salário naquilo que julgou importante. Mas, ele nem olhou para a ela. Agora só tem uma peça no corpo. Instintivamente protege com as mãos os seios expostos. Não consegue vencer a timidez. Esforça-se e quando dá por conta seu corpo está na cama, ao lado de outro corpo igualmente nu. Quando percebe o espelho no teto se apavora e fecha os olhos, apertando-os . Não quer ver nada. Mas, agora está ladeira abaixo. Não tem volta e a paixão dos sentidos transcende os sentimentos. Olham-se. Olhos nos olhos por segundos. A visão dos corpos, o contato pele a pele arrepiadas de desejo, o coração com um martelar quase audível, sangue correndo rapidamente, o calor febril da aceleração da respiração e as umidades que se misturam, sufocam e aumentam cada vez mais as necessidades mutuas. Sabores não necessariamente de bocas, odores pessoais que misturam a loção ou o perfume com o cheiro próprio de cada um dando um cheiro que é único. Ais, gemidos e sussurros completam a gama sensorial e sensual. Corpos que se entrelaçam se confundem e não se sabe mais o que é de quem. A natureza celebra o seu objetivo com a explosão do prazer, do gozo.

Não precisou sentimento. Os sentidos fizeram seu papel. O “depois” ignorante do parceiro é que faz a diferença entre paixão dos sentidos e amor-paixão.
Tudo já tinha acontecido. Nem um carinho, nem uma palavra mais doce mesmo que mentirosa, nem um olhar mais amoroso. Beijos, nem pensar. Ele já tinha comentado que não gostava de beijar. E o seu castelo de cartas desmoronou. Já era mulher em minutos

- Te levo até o metrô. Foi bom. Quem sabe a gente se encontra. Até qualquer dia.

Não tinha tido tempo nem de se arrumar. Saiu do quarto do motel à pressa, para não perder a hora.

Estremece. Lembra que ainda não está pronta. Termina a maquiagem, sacode os cabelos agora quase secos, prende-os em um coque discreto. Compõe melhor sua blusa rosa para dentro da saia marinho. Tinha saído com a roupa de trabalho e só usou detalhes e enfeites para melhorar o visual. Coloca os óculos, troca as sandálias de saltos altos e finos por sapatos mais confortáveis. Está pronta quando chega ao seu destino. Suspira fundo como para guardar um cheiro - o cheiro de uma loção, de um corpo de homem, da mistura dos cheiros dele e dos cheiros dela. Um odor que ela não conhecia e que definitivamente impregnou seu olfato.

Entrou no vagão do metrô uma pessoa. Sai outra. Está “paramentada” para seu trabalho. No vagão do metrô ninguém lhe deu maior atenção. Ela é uma na multidão, com seus sonhos, suas esperanças, seus conflitos, suas desilusões colhendo o resultado de sua decisão. Agora está incluída em uma tribo da qual queria fazer parte.

Quando deixou o trabalho ontem era uma virgem esperançosa, cheia de sonhos e ilusões e volta agora uma mulher sem mais sonhos, mas dentro do contexto social vigente. Não se arrepende. Daqui para frente, tudo será mais fácil. Afinal já é “experiente”.Também não vai esperar mais nada, nem sonhar e continuar a viver até, quem sabe encontrar um grande amor. Um príncipe que a beije com paixão, mas que também lhe dará amor.

Torce para que o amor que ainda vai encontrar aceite uma mulher já com alguma (ou muita) experiência. Afinal esse primeiro “affair” não representou nada emocionalmente. Foi apenas um ato físico, um “ritual de passagem” necessário. Tinha até demorado muito a acontecer.
Ainda não acabou. Vai ter conflitos pessoais, culturais, familiares. Não vai ser fácil superar.

Chega ao trabalho e recomeça a sua vida.


HOMEM NO METRÔ

Uma estação de metrô. Um casal sem nada em comum. Só a proximidade.

- Até qualquer dia.

O homem espera a moça subir no vagão e sai da estação. Ainda tem tempo. Afinal escolheu um motel próximo á sua casa por comodidade dele. Logo mais estará vestido de jovem executivo, terno e gravata de grife e seu dia que não começa muito cedo será cheio de trabalho, de reuniões, resoluções, relatórios, papéis e mais papéis. É um empresário bem sucedido, com a vida acertada, respeitado, mas não muito simpático. Não parece de bem com a vida. Falta alguma coisa, um entusiasmo pelo que faz e o que tem.

Nem sempre faz programas. Já passou da fase de afirmação de macho. Quase aos 40 já não precisa provar nada. Depois de um dia de trabalho prefere seu espaço, seus livros, sua música e seu cachorro. É sensível e por isso enfrenta preconceitos dos amigos. Não se importa muito quando o grupo de trabalho sai para as baladas e ele é gozado pelos seus prazeres mais pessoais.

Não costuma fazer muitos programas. As poucas vezes que escolheu acompanhantes lindas, loiras, esbeltas, bem produzidas e perfumadas, tinha tido grandes decepções. Elas só queriam saber – e eram espertas, conseguiam sutilmente saber – da sua conta bancária, sua posição profissional e social. Não conseguiam levar uma conversa inteligente por mais de alguns minutos. Queriam bons jantares, ser levadas aos shows da moda e receberem algum mimo. Tinham sempre consciência que no pacote estava incluído cama e sexo. Geralmente impessoal, puramente físico.

Nessa noite tinha acompanhado amigos. Pra variar. Fica com um copo bebericando lentamente, mais para manter as mãos ocupadas do que por prazer. Corre os olhos pelo ambiente onde sabe que estão moças a procura de companhia. Sem nenhum interesse maior não escolhe muito. Afinal, mulheres muito bonitas, produzidas, artificialmente atraentes são sempre o mesmo. Escolheu uma solitária, não muito à vontade, nem tão desejável. Conversou pouco, bebeu pouco e sem mais preliminares a convidou para um final de noite. Não precisa ser explicito, mas é claro que significa cama e sexo. Lógico em um motel. Ele jamais levava mulher para seu reino. Era privativo, dele só. Lá, só o amor. Mas, isso parecia muito distante.

No motel cumpriu seu papel no tempo necessário. Sem carinho, sem palavras, sem beijos. A timidez da moça – será que não era encenação? – até que temperou mais a relação. Hormônios de ambos aguçaram os sentidos e entre gemidos e sussurros o final físico foi natural. Surpreendeu-se. A moça era virgem. Preocupou-se. Era uma responsabilidade. Mas, desencanou quando viu em sua bolsa embalagens de camisinhas.
- Devo ter me enganado.

Era tarde.Tomou o banho “higiênico” lavando restos de humores e deixando que a água levasse consigo a lembrança do fato. Considerando a virgindade da moça pensou nela um pouco mais do que costumava pensar nas outras. Mas, de uma coisa ele não conseguia se livrar: a lembrança de seu cheiro, mistura de um perfume suave e um cheiro dela mesmo que não era desagradável.

Esperou que ela também se meio aprontasse com pressa e levou-a ao metrô que era próximo.

- Até qualquer dia.


Meses depois
Plataforma do metrô. Hora de pico, massa humana se movimenta nas entranhas da terra.
O homem, que habitualmente só anda de carro, neste dia de rodízio se vê no meio da massa do povo. Não está habituado e se deixa levar pela multidão.

A mulher, no seu dia a dia de usuária de repente pára, levanta a cabeça e respira fundo. O vento provocado pelo deslocamento de ar que a chegada do vagão provoca leva até ela uma onda de cheiro: um cheiro inconfundível que ainda está dentro dela. Procura pela origem e de repente olhos se encontram, se reconhecem e um fio muito frágil começa a se formar. O trem abre as portas. A multidão apressada carrega homem e mulher para lados diferentes.

E o que poderia ser não foi.

Outro final (mais piegas, mais à la Madame Delhi moderna)

Plataforma de metrô. Domingo de manhã, poucas pessoas.
O homem, contrariando seu hábito de andar sempre de carro, preferiu o metrô para variar. Não entendeu bem porque resolveu assim. Agiu por impulso.

A mulher segue sua rotina de sempre usar o metrô. O trem vai chegando, deslocando ar e o vento produzido provoca uma onda de cheiro no pequeno espaço entre o homem e a mulher. Ambos se voltam e os olhos se encontram. Aproximam-se atraídos nem sabem porque.

Ele:
- Claro que é você. Esse cheiro é inconfundível e me despertou muitas lembranças. E esses olhos, que eu só vislumbrei marcaram minha retina e eu os reconheceria em qualquer lugar. Você sabe do que eu falo não?

Ela:
- Sei , mas tudo o que eu quero é esquecer.
- Mas eu não.
O trem para, ele a segura pelo braço e entram juntos no vagão.



12 comentários:

Julia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Julia disse...

Olá.

Gostei bastante do conto.

Você escreveu ele há quanto tempo?

Interessante como me fez visualizar a mulher no metrô se maquiando. Mesmo porque é comum ver isso acontecendo.

Interessante tbm ver que a senhora aborda assuntos como sexualidade, virgindade, etc. Quebra o tabu da minha cabeça de que "idosos" não falam sobre isso. E pode até ser que idosos não falem mesmo.. pelo menos aqueles que se consideram idosos, não é?

Bem, preferi o primeiro final. O segundo é muito clichê. E acho dificil que acontecesse algo do tipo.

Boa sorte!

Vou passar a frequentar o seu blog, que conheci hoje mesmo e gostei. Adoro saber sobre a história.

Carla Beatriz disse...

Olá Vovó Neuza,

Cheguei até teu blog hoje, através da reportagem da Época SP.

Adorei este conto, as duas versões da história, a dela e a dele.

O final foi lindo, mas um pouco "conto de fadas", do tipo, "e viveram felizes para sempre".

Mesmo assim, um conto lindo, sensível e tocante. Parabéns, vc escreve muito bem.

Um beijo

Anônimo disse...

Olá! Ví a reportagem do seu blogo no site da globo e resolvi visita-lo. Muito interessante seu conto, vc deveria escrever mais contos. Você parecer ser uma pessoa muito bacana, te desejo tudo de bom.
bjs
Juliana

Anônimo disse...

Vovó Neusa... Que nome perfeito! Mas me faz esquecer o sentido de vovó... Me permite te chamar de você?? Você parece sem idade, como o peter Pan que nunca envelhece! Minha mãe tem 67 anos... 40 a mais do que eu... Sempre sonhei que ela fosse assim como você, cheia de vida e interesse pela vida!
Seu conto é lindo... Me senti dentro do metro, do motel, de passagem pelo apartamento dele, como uma testemunha ocular de tudo... Vovó Neusa, você me emocionou demais... Ganhou mais uma fã! Se possível gostaria de ter contato com você, por email, adoraria!Um forte abraço e um beijo carinhoso! Ariane

Fábio Santos disse...

Vovó neuza,que conto ótimo.
Me prendem do inicio ao fim !!! gostei muito, nós que usamos o metro diriamente, que vemos e ouvimos histórias, e por que não "vivenciamos também", nos deixamos levar pelo cotidiano do seu conto.

Parabéns !!!

Um grande abraço (vê se acesse meu blog hein)

Luiz Calcagno disse...

Adoro contos. Acho que escrevemos um pouco parecidos no rumo das coisas. Abraço

Nelson disse...

Vovó Neusa, tomei conhecimento de seu blog pela matéria no Site G1.

Parabéns pelo trabalho e obrigado por compartilhar sua experiência, cultura e visão do mundo conosco, especialmente pela cidade de São Paulo.

Seu conto "Moça no Metrô" é muito bom, digno de um "curta-metragem"... Mais uma vez meus parabéns!

Acaba de ganhar mais um leitor para seu blog, uma vez que ele tem qualidades cada vez mais raras nesse oceano chamado internet: Qualidade e conteúdo. Aliás, estas são qualidades cada vez mais raras também nas pessoas.

Um grande abraço.

Cadu Henning disse...

Olá, Neuza. Gostei muito não apenas de seu conto, mas da proposta de seu blog, afinal, logo me mudarei para São Paulo (sou de Florianópolis) e ele será muito útil para me aclimatar. De agora em diante terás um leitor assíduo! Continue escrevendo, você consegue prender o leitor, o que é uma capacidade extremamente louvável nesse mar de informação internético.
Um grande abraço e saiba que penso como você quanto a descrição que fazes de ti, no blog. Acho uma visão muito honesta, bonita e que acaba aproveitando a vida em tudo o que ela nos oferece de melhor: oportun/idades. Tudo de bom para ti e parabéns!

disse...

Vó Neuza, li a reportagem da época com a senhora. Adorei tanto que até fiz propaganda no meu blog e no twitter.
A grande pergunta:
a senhora está no twitter também?
Caso esteja lá quero te seguir.
Fico com muito orgulho da senhora existir e por esse conto maravilhoso. Encheu meus olhinhos aqui!!!
Beijocas.

Vívial Almeida disse...

Parabéns pelo seu blog,encontrei através de um link em outro blog, e me encantei, sou apaixonada por meus avós, e a senhora me encantou com suas palavras e por ter uma mente tão aberta.

Deus à ilumine, para que possamos saborear suas palavras sempre!

Eliezete Luna disse...

Adorei seu lado contista e mais ainda a forma de escrevê-lo. Pude sentir cada sentimento e movimento dessa moça, perdida entre o "querer" e o "ser igual a todas". Seria redundância parabenizá-la de novo?