quinta-feira, 13 de novembro de 2014

CANOS DE PAPELÃO


Complementando a publicação anterior do mesmo Afonso Schmidt em “São Paulo dos meus Amores” – edição de 2003 – pag. 56

Uma vez, o saudoso escritor Afonso A. de Freitas (contou-me ele próprio, certo dia, no Instituto Histórico) passava pela rua Quintino Bocaiuva quando viu alguns operários a fazerem profunda escavação na via pública, com o fim de substituir canos de água. Sobre o entulho, tirado do buraco, viu um tubo quase desfeito, tendo nas extremidades aros de ferro.
Aquele objeto atraiu-lhe a atenção, pois ele, nos seus estudos, havia encontrado várias referências a um encanamento feito com canudos de papelão, cobertos de asfalto.  Pediu-o aos trabalhadores que não viram utilidade no trambolho, e fê-lo transportar para sua casa ou para o Instituto Histórico, ali perto.
Aquilo, no entanto, era uma preciosidade para o historiador. Como, mais tarde, pôde averiguar e registrar no livro Reminiscências, o Sr.Barão de Itaúna, presidente da Província, mandara em 1868 fazer esse estranho encanamento para abastecer de água o Jardim público e o chafariz do Campo da Luz.
Mas a obra foi de pouca duração. “A água rompia o chamado betume, no espaço médio do tubo, entre os cabeços de ferro, devido á imperfeição e pouca vigilância empregada na oficina estabelecida na antiga Casa dos Loucos”.  Essa casa era na rua de São João, esquina da hoje rua Pedro Américo.

Escassa documentação foi encontrada sobre tal iniciativa. Mais tarde, folheava eu A Província de São Paulo de 21 de janeiro de 1875 e me detive na leitura da  “Carta de uma roceira nesta capital” à sua amiga do sítio. Nesse trabalho, assinado com o pseudônimo de Tudinha, mas onde se vislumbrava a pena de experimentado jornalista, faz-se  critica ás novidades da Paulicéia , os bondinhos a tração animal inaugurados pouco antes, em  dois de outubro de 1872, as grades da rua da Constituição (mais tarde Florêncio de Abreu), a ponte que se lhes seguia, o lago no ponto por onde deveria prolongar-se a Rua 25 de março, o chafariz seco do Campos da Luz, o lago enxuto do centro do jardim Público e o famoso Canudo (o observatório do hoje Jardim da Luz) que naqueles dias estava em construção.
Ao passar pelo referido chafariz, o suposto pai da suposta missivista explicou-lhe:
 - Isto é obra de um presidente chamado Itaúna. Deus lhe fale na alma. Esse presidente tentou a canalização por meio de papel.  Deste chafariz já correu água trazida por tubos que se derreteram e eis o que resta de tanto desperdício

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