sábado, 19 de março de 2016

UM TEXTO ATEMPORAL - Do livro NEM CÉU NEM INFERNO – ENSAIOS – JORGE CALDEIRA – 2015


Jean de Léry   Filho de pais protestantes, modesto sapateiro, estudante de teologia e discípulo do mestre Calvino, Lery viu-se obrigado a abandonar o Velho Mundo devido às disputas religiosas entre católicos e protestantes e pelas novas possibilidades da França Antártica, na época uma colônia francesa na Baia de Guanabara, atual estado do Rio de Janeiro. Léry chamava a nova terra de América de Terra do Brasil.
A sua obra Viagem à Terra do Brasil editada pela primeira vez em 1578 na Europa é uma importante fonte de informações acerca da parte inicial do período colonial do Brasil, dos primeiros contatos dos povos Europeus com os povos Ameríndios e do contato da Europa pós-medieval no século das Grandes Navegações.
Léry conversava com os índios brasileiros intermediado por negociantes já fixados e essas  conversas são aqui transcritas:

Quanto ao pau-brasil, direi que tem folhas semelhantes ao buxo, embora de um verde mais claro, e não dão frutos. Quanto ao modo de carrear os navios com essa mercadoria, direi que, tanto por causa da dureza, e consequente dificuldade de derrubá-la, como por não existirem cavalos, asnos ou outros animais de carga para transportá-la, é ela arrastada por muitos homens. Se os estrangeiros que por aí viajam não fossem ajudados pelos selvagens, não poderiam nem sequer em um ano, carregar um navio de tamanho médio
Os selvagens, em troca de algumas roupas, camisas de linho, chapéus, facas, machados, cunhas de ferro e demais ferramentas trazidas por franceses e outros europeus, cortam, serram, racham, atoram e desbastam o pau-brasil, transportando-o nos ombros nus às vezes por duas a três léguas de distância, através de montes e sítios escabrosos até chegarem à costa, junto aos navios ancorados, onde os marinheiros os recebem.Em verdade, só cortam o pau-brasil depois que os franceses e portugueses começaram a frequentar o país.Anteriormente, como me foi dito por um ancião,derrubavam as árvores deitando-lhes fogo. 


Esse ancião tinha também suas inquietações. 

Os nossos tupinambás muito se admiraram dos franceses e outros estrangeiros se darem ao trabalho de ir buscar os seus arabutãs.
Uma vez, um velho perguntou-me:
“Por que vindes vós outros, mares e peros (franceses e portugueses) buscar lenha de tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra? “
Respondi que tínhamos muitas, mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos como ele supunha, mas dela extraíamos tinta para tingir, tal qual o faziam eles com os seus cordões de algodão e suas plumas.
Retrucou o velho imediatamente:
“E por ventura precisais de muito?
Sim respondi-lhe, pois no nosso pais existem negociantes que possuem mais pano, facas, tesoura, espelhos e outras mercadorias do que podeis imaginar e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados.
Ah retrucou o selvagem:
“Tu me contas maravilhas (...), mas, esse homem tão rico de que me falas, não morre? ”
Sim, disse eu, morrem como os outros.
Mas os selvagens são grandes discursadores e costumam ir em qualquer assunto até o fim, por isso me perguntou de novo:
“E quando morrem, para quem fica o que deixam? ”
“Para seus filhos se os tem. Na falta destes, os irmãos ou parentes mais próximos”
“Na verdade, agora vejo que vós outros maíres sois grandes loucos, pois atravessais os mares e sofreis grandes incômodos, como dizeis quando aqui chegais, e trabalhais tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para qualquer que sobrevive. Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também?  Temos pais, mães e filhos a quem amamos, mas estamos certos de que depois da nossa morte, a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados”. 

Quase cinco séculos depois, a sabedoria dos nossos indígenas tem lógica, ainda nos dá lições.  


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