domingo, 12 de outubro de 2008

A HISTÓRIA DA ARANHINHA "TETÉIA "

Foi por volta de 1990 que aconteceu. Já tínhamos a casa pré-fabricada na parte de cima do sítio de São Roque. Era toda rodeada de uma varanda com balaustrada de madeira. No ângulo formado pelo suporte do telhado e a viga de sustentação desse telhado, morava uma aranhinha, pequena, modesta, com uns dois centímetros de tamanho. Não era de patas finas como algumas parentas suas. As oito patas eram mais ou menos robustas em relação ao seu tamanho.

Tomamos conhecimento dela por acaso e a adotamos, dando-lhe até um nome: “Tetéia”. E “Tetéia” foi uma companheira durante meses. Sempre que estávamos na casa, íamos fazer-lhe uma visita e observar seu trabalho de artista.

Os meninos eram pequenos (o maior, André, tinha seis anos) e ainda eram “nossos”. Nos acompanhavam sempre, ouviam o que dizíamos e até explicávamos. E também adotaram a “Tetéia”. Tantos anos depois, não devem se lembrar mais dela, mas uma lembrancinha deve ter ficado escondidinha em algum neurônio da memória, e uma ativação qualquer vai reacendê-la.

“Tetéia” dormia no seu cantinho o dia todo, mimetizada na poerinha que se acumulava no seu canto. A custo se conseguia percebê-la. Quando começava a escurecer, ela se “espreguiçava”, esticava as oito patas, saia do seu canto e entrava no “trabalho”. Quem não trabalha não come. Começava a fazer sua teia: os primeiros fios de sustentação, os raios, as espirais. E a gente acompanhando. Uma vez pronta a teia (levava umas duas ou três horas), ela ficava num canto a espera. Às vezes ficava fora da teia, mas ligada por um fio. Sua espreita podia durar até horas, mas assim que um inseto desavisado encostasse-se à teia, os fios viscosos o aprisionavam. O seu “espernear” transmitia o movimento para o fio de ligação, “acordava” “Tetéia” e ela ia para o seu jantar.

Nem sempre tinha sorte. Às vezes, um inseto maior destruía a teia, sem se tornar prisioneiro. Se ainda não fosse escuro de tudo, ela chegava até a refazer a teia. Se não, desistia naquele dia e voltava para o seu canto de “barriga vazia”.

Foram meses de convivência. Já fazia parte do nosso cotidiano, e no momento certo íamos fazer nossa visita.

Com a observação “in loco” foi mais fácil para nós adultos explicarmos para as crianças todo o processo de construção da teia, seu significado, sua arte inigualável. Um aspecto da Natureza indiscutivelmente belo, uma obra de arte e técnica.

Também tornou natural que outras teias fossem observadas e havia muitas e muitas nos altos capins e arbustos. Enquanto o sol era apenas rasteiro, se podiam observar teias dos mais variados formatos e tamanhos, cheias de orvalho durante as primeiras horas da manhã, brilhando aos raios de sol. Espetáculo único para quem tem olhos para as belezas da Natureza.

Quando o sol subia, o calor quebrava os fios e as teias sumiam. As aranhas iam para as tocas aguardar horas de luz menor para refazer seu trabalho.

A nossa “Tetéia” sempre “dormia” ou de “barriga cheia” se a teia tivesse caçado bons insetos, do tamanho certo, lhe proporcionando um bom jantar, ou num jejum que certamente seria compensado no dia seguinte.

Um dia, alguém que não conhecia “Tetéia” fez uma faxina maior na casa, nos cantinhos inclusive. E lá se foi a simpática aranhinha, tão nossa amiga durante algum tempo. Sentimos.


12 comentários:

Eder disse...

Nossa que féla. É muito bom ter pessoas como a senhora, me lembra muito a minha vó. Que saudade daqueles tempos viu!

Continuarei sempre lendo :D

Cesar disse...

Nossa! Que bacana! É isso ai, continue com a atitude, tá faltando...tem muito blog por ai q nao soma nada! Grande exemplo a senhora!
Um Abraço!

Marco disse...

Parabéns a senhora conquistou um leitor de guará

ótimas reflexões

Eder Prado disse...

Infelizmente o mundo está carente de pessoas como a senhora, coração puro e histórias gostosa de se ouvir.

Saudade da minha vó!!

Abraço Vovó Neuza!!!

Leandro Guerra disse...

E só pra constar! Seu blog é o melhor, a concorrência treme!

Ariane disse...

Parabéns pela iniciativa vovó Neuza. Adorei o seu blog. É O MELHOR QUE NÓS TEMOS!!!

Daqui a pouco a senhora tá mais famosa que o google.


Parabéns!

Bitetti disse...

Confesso q hj vou dormir com um sentimento diferente dentro do peoto com essa historia q muito me tocou!
Parabens pelo blog Vovó Neusa!

wesley disse...

Parabéns Vovó Neuza...
Seu blog está nos meus favoritos ^-^

lumaluc disse...

oi vovó neuza...
ganhou + uma netinha, já assinei seu blog!!! parabens!
beijos

lumaluc disse...

Que lindo vovó neuza! Que linda é a sua história! Que linda é você! (agradeço por compartilhar essa biografia maravilhosa). Foi bom poder conhecer um pouquinho de quem é a vovó neuza!

Olga Maroso disse...

Oi Neuza
Não vou lhe chamar de vovó porque tenho praticamente a mesma idade, apesar de não ter netinhos...
Realamente é um prazer ler seus textos; eles nos despertam para as pequenas maravilhas do quotidiano, que nem sempre notamos, ocupados com preocupações e afazeres tão rotineiros e cansativos.
Obrigada por nos proporcionar este prazer.
Olga

Anônimo disse...

Olá, Vovó Neuza. Vi seu comentário sobre o resgate da memória infantil e as cantigas de ninar. Gostaria de saber mais sobre sua pesquisa. Se puder me indicar alguns sites, ou leituras, agradeço. Abraços. Ana (ana.cg.ms@hotmail.com)