sábado, 18 de outubro de 2008

SÉ - de LARGO à PRAÇA

Em 2005 quando voltei à USP, um dos primeiros cursos que fiz foi no IEB sobre gêneros literários. E, como tarefa me foi pedido uma cronica da cidade. Não sei bem se fiz o que a profa. pediu, mas foi a primeira vez que escrevi com umpouco de método e seguindo normas. E o saiu foi isso.
Sé - De Largo a Praça

Praça da Sé em 2005, cinco horas da tarde - ainda não é horário de pico e na onda humana ainda há claros que permitem observações. Das escadas do metrô chegam e partem multidões. Seres brotam e são engolidos a cada instante. É um parto contínuo de gente, que dentro dos vagões viviam numa intimidade, uma homogeneidade de comportamento, mas ao sair para a superfície retomam suas personalidades, suas identidades. E particularmente na Sé, essa diversidade é a tônica.
É a Praça da Sé do formigueiro humano, dos camelôs que sempre vão e voltam e ocupam as "bocas" do metrô, das "meninas sanduíche" propagandistas do ouro, indicando a Rua Barão de Paranapiacaba para a compra de ouro, procurando as pessoas que recorrem a suas jóias simples para resolver um problema financeiro imediato. Passes, fichas telefônicas, CDs piratas de todos os tipos e para todos os gostos e chocolates - como uma fonte de energia para os trabalhadores que ainda enfrentam horas antes do seu jantar. Água nos dias mais quentes... As escadas do metrô Sé são bom "ponto". Ali circulam milhares de pessoas por dia.
Lá está uma vendedora de lupas. Interessante o mote que ela repete cadenciada: "lupas especiais para ler a Bíblia" procurando atrair a população evangélica. Um novo filão para os vendedores da Sé. O comercio ambulante chega a ser específico, orientado, inteligentemente posicionado e variando conforme a hora, o dia, os eventos programados. Bares, lojas, churrasquinho grego a 50 centavos, são procurados a qualquer hora do dia.
É essa diversidade de São Paulo que fascina.
A Praça da Sé é o palco da cidade. Cenários e imagens mudam ao mudar o ponto de vista. É um caleidoscópio. Encontro de misérias e necessidades.

No seu espaço acontecem comícios, quebra-quebra, reivindicações, cultos ecumênicos como aquele que protestava contra o martírio de Vladimir Herzog, o jornalista morto em 1975 em condições misteriosas durante os anos negros de intervenção militar; concentrações monstro como a que pedia as Diretas Já em 1984; comemorações de futebol, pregões de ambulantes, palavras de pregadores evangélicos, rodas de capoeiras, bandas e grupos de música e arte popular expressada nas estátuas vivas. É um nunca acabar de situações diversas.

Mas há violência, ousados batedores de carteira, trombadinhas ágeis e espertos que roubam para o dia a dia, nas barbas da polícia. Há miséria, vício, farrapos humanos drogados, espalhados pela praça, jogados, dormindo ou "viajando". Ângulos quaisquer são usados para guardar colchões, cobertores e trastes para a dormida da noite e qualquer projeção seja de um monumento, seja de uma fachada, serve de abrigo para aqueles que por necessidade ou por opção usam do direito de dormir ao ar livre. Lar dos sem teto, não os protege em noites de maior frio, mas os refresca no verão mais quente.

A Praça é tudo isso e muito mais. Há engraxates, muitas bancas de jornal, que agora se modernizam vendendo cartuchos para computadores, adesivos significativos, revistas de todos os tipos e para todos os gostos e culturas, e "até" jornais. Distribuem-se pães num dia normal numa atitude simpática do Sindicato dos Padeiros.
A praça já foi mais árida. Agora tem mais verde. Tem palmeiras imperiais, tem um Marco Zero, que quase ninguém percebe, não sabe o que é, nem qual a importância. Tem a Catedral da cidade.
Das milhares de pessoas que transitam por ela, quase ninguém conhece a história da Praça. Nunca ouviram falar que ela nasceu logo depois da fundação da cidade, quando a confluência de ruas deixou um espaço maior que logo foi eleito para ter a igreja matriz, em 1591 era uma simples capela.

Cresceu a cidade, aumentou o número de seus habitantes, a igreja é aumentada. O Largo chamado da Sé por ser a sede da Matriz é um ponto de reunião de homens importantes da província, ponto de compra e venda de escravos, lugar de julgamentos.
A Matriz tomou a forma de uma grande igreja e junto com a igreja de São Pedro dos Clérigos delimita o Largo. As laterais servem de estacionamento de tílburis e carruagens e tem um necessário "mictório" público.

Fica assim até 1910 quando a necessidade de maior espaço para acomodar o crescimento agora significativo da população, faz com que a matriz seja demolida e o Largo quintuplicado, passando então a ser a Praça da Sé. Em 1911, acordo da Cúria com a Prefeitura dá um espaço para a construção da nova Catedral, usando parte do terreno que abrigava o Teatro São José, destruído em um incêndio em 1898.
Marco religioso da cidade, a Catedral levou exatos 91 anos para ser totalmente construída e só em 2002, já no século XXI, é que pode ser vista completa como projetada. Toda esculpida em granito de São Paulo e decorada com animais e plantas de nossa flora e fauna tem 111metros de comprimento, 46m de largura e as torres atingem 97metros de altura.
Como centro importante da cidade, a Praça da Sé está sempre em processo de urbanização que representa momentos da cidade. Em 1930 seu aspecto é árido, não tem nenhuma vegetação, é um amplo estacionamento de automóveis e passagem de ônibus e bondes. Catedral incompleta, prédios de porte como o Palacete Santa Helena, um edifício com grande diversidade de "inquilinos" desde advogados, escolas, profissionais liberais, cinemas, teatros e até ponto de reunião de artistas plásticos - o chamado Grupo Santa Helena.

A Praça não tem mudanças significativas durante quase 40 anos. O velho relógio, ponto de encontro dos paulistanos é cantado por Caco Velho em 1945:
"Não faça hora comigo que eu não sou relógio da Praça da Sé"
Ainda se pode andar tranqüilamente a pé, parar o carro onde for mais cômodo e ir comer pasteis famosos na Pastelaria Modelo que fez a delicia de gerações.

Tempos de progresso vão chegando, e como aconteceu em 1900 para a colocação dos trilhos dos bondes elétricos, então um meio de transporte progressista, transformando a cidade em um canteiro de obras, agora na década de 70, um novo meio de transporte, o metrô, muda completamente o visual da Praça da Sé. Recebemos progresso, mas demos ícones: o Palacete Santa Helena é demolido em 117 dias, a golpes de marreta. Material nobre, seus pinhos de Riga, lustres de cristais, mármores, foram disputado no tapa. Sacrifício necessário, seguido por um outro, poucos anos depois, quando um edifício com 30 andares e apenas 12 anos de vida, o Mendes Caldeira, teve também que ser demolido. Agora, a primeira implosão feita em São Paulo o colocou no chão em exatos 8 segundos. Progresso e tecnologia.

Espaço aberto, duas praças fundidas em uma só, a Praça Clovis Bevilacqua desaparece e a Praça da Sé que já era grande, duplica de tamanho. Urbanização cuidada a enfeita com obras de arte, espelhos d'água com o Condor de Bruno Giorgi, vegetação quase exuberante. O relógio, coitado, ficou enclausurado numa torre de mármore preto e a custo se consegue vê-lo. Perdeu o carisma, é só um relógio. A estátua de Anchieta, numa justa homenagem ao fundador da cidade, domina a Praça, mas, alvo de vandalismo não tem mais as placas que a identificam e que registram o nome do autor - Heitor Usai.
Esse grande espaço de superfície com sua identidade própria cobre um outro espaço subterrâneo, o espaço do metrô que desde 1978 é um centro de distribuição com entroncamento de linhas Norte-Sul e Leste-Oeste.
Fica a 28 metros abaixo do nível do solo, tem três níveis e 32 mil m² de construção e seu mezanino tem iluminação natural. Um fluxo de 100mil usuários/hora/no pico, engolidos ou despejados, mostra em um tempo histórico relativamente curto o crescimento gigante de uma cidade que começou com 13 jesuítas.


5 comentários:

Eliezete Luna disse...

Linda crônica Neuza. Que maravilhosa imagem você transmite com a frase: "Um parto contínuo de gente".

Abnara Leon disse...

Eu posso te adicionar no meu blog Vó???
Eu tenho uma avó linda assim como você!!! Fiquei tão emocionada que li seu blog quase todo...
Muito lindaaaaaaa!!!
Beijosss

Gina Dallabrida disse...

Neusa, acabei de conhecer seu blog e gostei muito dele. Eu gostaria de postar um crônica no meu blog sobre sua matéria "Sibipirunas e Tipuanas" se vc permitir.

Parabéns por tudo. Que bom que mais alguem não gosta de fazer bainha de roupa e TV aos domingos!Um beijo.

luxumbel disse...

Acredito que sua nota sobre a Praça da Sé foi alta. Não costumo ler blogs mas gostei tanto do seu que adicionei em "Favoritos".Ah! Fui ao google ver fotos das sibipirunas. Parabéns

Lilian Santiago disse...

Neusa!
Muito obrigada por sua generosidade em contar sobre fatos e paisagens da cidade de São Paulo na internet. Pesquisando sobre o relógio da praça da Sé, só por você descobri que o relógio da década de 30 é o mesmo de hoje, enclausurado no mármore...
Força e luz!