terça-feira, 19 de agosto de 2008

O BANHO DO JOAQUIM

No dia 28 de março de 2007, a aula do curso da Universidade aberta à Terceira Idade – “Memória – a Terceira Idade construindo Conhecimentos” – foi de um reconhecimento dos bastidores do MAE (Museu de Arqueologia e Etnologia da USP). Vimos laboratórios onde os procedimentos museológicos são efetuados.
Em um deles, meio destoando do resto do material, havia dois armários com esqueletos humanos.

Memória ativada, neurônios acordados e lembrei três fatos relativos a eles :

1 – Em uma época – mais ou menos década de 70 – para atender a solicitação de um amigo que estava montando uma exposição da industria farmacêutica onde ele trabalhava e precisava de um esqueleto, tentei ajudá-lo. Na escola em que eu lecionava havia um.
Autorizada a emprestar tal esqueleto o pegamos para levá-lo até a Faculdade de Medicina onde estava sendo montada a exposição. Entrei no carro, coloquei o esqueleto no colo e fomos da Lapa até a Dr. Arnaldo. Nunca me esqueço da cara das pessoas que olhando aquela cena inusitada se perguntavam o que era aquilo. Foi muito engraçado. Causou sensação em todo o trajeto.

2- Lecionei Ciências e Biologia durante 30 anos, de 1950 a 1980. E muita Anatomia. Tinha uma sala ambiente só para mim, muito espaço e muito material inclusive um esqueleto (o mesmo da história anterior). Sabia por experiência que não é fácil para a meninada guardar todos os nomes dos ossos, suas formas, localização. Então, inventei uma maneira diferente de dar a aula sobre Esqueleto Humano.
Acho que nessa época eu era muito criativa. Inventei “O banho do Joaquim” (era o nome pelo qual o esqueleto era conhecido). Juntamos mesas, cobrimos com plástico, deitamos o Joaquim e munidos de bacia com detergente, esponjas e toalhas, os alunos limparam todo o esqueleto que estava empoeirado. E a brincadeira corria solta.
- Limpa bem esse fêmur.
- Repete o nome dos ossinhos do pé e esfrega bem para tirar o “chulé”
- Escove os dentes do Joaquim
- São estas as costelas verdadeiras? E apontava aquelas que se ligaram diretamente ao osso externo.
- Agora entendi que o maxilar inferior é móvel. Veja como consigo abrir e fechar a boca do Joaquim
- Professora, como a senhora sabe que este esqueleto é de homem e não de mulher?
E eu respondia: Veja os ossos ilíacos (e mostrava-os in loco) – delimitam uma bacia mais larga relacionada à gestação. Mais espaço para conter o bebê.

Limpinho o Joaquim, todos o enxugaram colocaram-no de volta ao seu armário e passaram a ter por ele o maior respeito. Sempre que passavam por ele, davam um ”alozinho” e um comentário:
-Seu osso temporal está sujinho. Precisa limpar.

3 – Ainda pude constatar – pelas lembranças que o esqueleto me trouxe – como eu inventava maneiras e maneiras de motivar alunos. Orgulho-me muito disso, passados mais de 30 anos. Dava-me trabalho, dava trabalho a eles, mas o resultado era positivo. Em uma das aulas o trabalho meu foi de preparar o material: desenho de uma silhueta humana, todos os ossos do esqueleto separados e desenhados, todos os nomes dos ossos espalhados pela folha de papel. Vinha agora o trabalho do aluno: recortar todos os ossos, todos os nomes e montar o esqueleto na silhueta. Penavam, resmungavam, mas aprendiam.

2 comentários:

Tiago Soarez disse...

Vovó Neusa!

Passei aqui para dizer que adorei o blog! Gostei tanto que escrevi um texto no meu blog, indicando para que os meus amigos viessem te visitar!

Beijos pra você!

Roseli disse...

Eu me lembro muito bem do Joaquim! E das poses que ele fazia sempre que alguém encontrava o armário aberto e nenhum adulto à vista! Só não sabia que ele tinha passeado de carro com você. Rararará!