terça-feira, 15 de julho de 2008

UMA BUTTERFLY ESPECIAL

A ópera Madama Butterfly no Teatro Municipal de São Paulo foi especial mesmo, para mim. Em uma segunda feira, junho, 23 de 2008. Para os privilegiados que viajam pelo mundo e assistem montagens nas grandes salas de ópera, meu comentário é no mínimo simplório.

Coincidência ou não comemorou os 100 anos de Puccini e os 100 anos da Imigração Japonesa para o Brasil. Dupla comemoração só podia resultar em coisa especial mesmo.

Vi inúmeras montagens, com poucas diferenças, sempre a cerejeira e as divisórias básicas japonesas. Pouca atenção eu prestava a não ser na musica., Atenção mesmo era à área “Un Bel di Vedremo”, mais conhecida.

De tanto ouvir musica, de tanto ler, estudar e conversar sobre arte, acabo com maior percepção. Percebo no cenário de Tomie Ohtake referencias e mensagens que antes não perceberia. Vejo as luzes e cores descreverem, sem palavras os ambientes, o maior ou menor impacto emocional. Ora um ambiente festivo, ora de espera, ora trágico apenas expressados com variações de luz. Falam por si as grandes formações que constituem o cenário.

De toda a opera o que mais me impressionou foi a cena da preparação da casa na espera do “marido” americano de Cio-Cio-San. Cenário enxuto, apenas uma mesa que tem um porta retrato mostrando, sugerindo, a ligação da moça com seu “marido”. Uma cruz que simboliza a nova religião, a do americano, que Cio-Cio-San abraçou, renegando a sua e sendo renegada por sua família. E o apoio para o punhal envolto na faixa branca e que será o personagem final.

E a coisa mais linda: quatro coadjuvantes, envoltos em malha branca envolvendo até a cabeça, se posicionam com braços e pernas que lembram uma árvore estilizada. Nas extremidades, flores de cerejeira que são colhidas e usadas para enfeitar a casa. Pétalas vermelhas distribuídas com amor, esperança e alegria atapetam o chão.

A cena da espera no duplo da realidade e do sonho prepara para o impacto maior da realidade.Cio-Cio-San foi perfeita na dramaticidade. Foi, além de cantora, uma interprete à altura da cena maior. E o apoio da aia Suzuky manteve a coerência de toda a obra.

Gente chorou.

A orquestra estava afinadíssima nos seus momentos de lirismo e de drama.
Mas, Jamil Maluf é Jamil Maluf, Tomie Othake é Tomie Othake, Jorge Takla é Jorge Takla e Puccini é Puccini. “O resto é Silêncio”.

Nenhum comentário: