quarta-feira, 16 de abril de 2008

2002 - AS GELADEIRAS DE MINHA (E DA NOSSA) VIDA

Até os meus 18 anos (1948), a palavra “geladeira” não fazia parte do vocabulário da minha família. Logicamente não era assim em outros meios familiares, mas mesmo os mais abonados tinham “armário” de madeira isolado e resfriado com barras de gelo entregues em casa.

Éramos de um tempo em que as compras eram diárias, somente aquilo que seria usado para fazer as refeições do dia, elas mesmas muito simples.

Verduras se compravam no verdureiro que passava pela manhã oferecendo alfaces, escarolas, batatas, pimentões... Vindos em geral de sua própria horta. Sempre passavam pela manhã para dar tempo de as verduras e legumes serem usados ainda para o almoço.

A “venda” do quarteirão ou esquina fornecia o feijão, o arroz, o óleo (sem outra opção que o de caroço de algodão)... Comprava-se a quilo ou meio quilo em “conchas” medidoras, embrulhados em folhas de papel grosseiro que eram enrolados de maneira característica e com grande habilidade do “vendeiro.” Embora nós nunca tivéssemos usado o sistema, a grande maioria comprava “na caderneta”. O freguês tinha a sua caderneta – um caderninho pequeno, fino, geralmente ensebado pelo uso – na qual o vendeiro marcava o valor do produto levado, nem sempre especificando qual o produto. Também marcava no seu “livrão”. No fim do mês, o comerciante somava e cobrava. Sua contabilidade consistia em separar mensalmente as contas dos fregueses, e fazer a soma da dívida. Essa soma devia ser igual á soma da caderneta. Confiança era fator importante, porque muitas vezes apareciam dados não coincidentes entre “livrão” e “caderneta”.

Pão geralmente era comprado na padaria, se ela fosse próxima, Senão, havia os padeiros que distribuíam pão a lugares mais distantes, em carroças ou carrinhos. Padarias ficavam em geral nas esquinas, eram muitas e relativamente bem montada. Vendiam também doces, grandes e enfeitados. “Doce de padaria” era sinônimo de “doce grande”

Carne era só comprada em açougues que eram muito numerosos. Também tinham entrega domiciliar com os meninos em bicicletas. Comprava-se a quantia do dia, e no nosso meio geralmente era meio quilo. Podia ser músculo, coxão mole, alcatra, mas na minha memória ficaram as “bistecas” que eram compradas por unidade. Para mais opções, havia os tripeiros que gritavam seus pregões: Fígado, bucho...

Leite também era vendido em domicílio, primeiro em carrocinhas e depois em caminhões, os primeiros da Vigor. Parava de casa em casa, abria a torneirinha do grande tanque e media a quantia pedida.

Produtos mais especiais não somente não existiam como o nosso poder aquisitivo não permitia que pensássemos neles. Na cozinha mandava mesmo a criatividade da “mãe” que tinha que inventar coisas diferentes com pouca variedade de material.
Tudo era para o dia.

Depois da Segunda Grande Guerra, entre 1939 e 1945, começou a febre de importação no Brasil. Principalmente geladeiras e – pasmem – io-ios. Meu pai importava peças de automóveis para sua firma Toledo e Guerreiro, e numa dessas importações, ele e Toledo seu sócio, resolveram incluir duas geladeiras.
Nossa primeira geladeira atravessou mares e chegou até nós como um objeto de desejo. Era branca, grande e ocupou bastante espaço no sobradinho da Rua Lucas Obes. Era Crosley Shelvador a sua marca. Apesar do tamanho não era muito funcional. 1/3 dela era um “gavetão” que ficava na frente do motor. Sua porta não era aproveitável. (ver complementação)

Se já existiam outras marcas, não cheguei a saber, mas certamente não nos interessava, pois tínhamos a nossa preciosidade.
No nosso quarteirão éramos olhados como “ricos”. Meu pai tinha um Chevrolet 39 e agora, uma “geladeira”. Acho que era a única do quarteirão porque sempre os vizinhos vinham pedir para guardar sua carne nela.

Essa geladeira Crosley Shelvador nos acompanhou para a “mansão” da Avenida Dom Pedro I e era a “rainha” da cozinha. Mudou-se depois para a Lapa, acompanhando meus pais no apartamento deles.

Aí me casei. Nos primeiros tempos não tivemos geladeira, mas foi a primeira coisa que compramos de especial e a segunda foi a lavadora de roupa, que, pelo começo da década de 50 ainda era importada. Não consigo me lembrar de que marca era essa geladeira (seria Frigidaire?), mas na minha memória fotográfica me lembro do lugar que ela ocupava na cozinha: um lugar ilógico entre a porta de entrada e a porta de saída da cozinha, atrapalhando a circulação.

Fomos para a Rua Caativa, agora todos: nós quatro: Ayrton, eu, Neuza, Flavio e Jurema mais meus pais. E aí a Crosley Shelvador também foi para o seu novo “lar”, e ficou na cozinha em um espaço especial para ela. Na copa, estava a nossa. Que luxo, duas geladeiras. E já se podia dividir as coisas: na cozinha, produtos de elaboração, verduras, carnes, coisas a serem processadas. Na copa, sobremesas, bebidas, petiscos, conservas. Coisas já prontas.

A Crosley Shelvador ficou no seu canto bastante tempo. Como seu motor era quentinho e no “gavetão” se colocavam inúmeras coisas, principalmente pão, acabou por ser um “ninho” ideal de nojentas baratas. Elas se reproduziam à vontade. Resolvemos o problema mandando-a para os fundos da casa, onde foi mais fácil acabar com seus “hóspedes”. Passou a abrigar agora “estoques” em geral de cervejas e refrigerantes ou volumes maiores em festas e reuniões. Mas, ela estava sempre lá, de plantão e nunca deu problemas. Quantos anos? Por volta de 40 anos. Aí, foi morar com uma das nossas auxiliares, na periferia, servindo para gelar as cervejinhas dos fins de semana.

Chegam agora as Clímax, duas, na copa e na cozinha. A marca estava ligada a São Carlos, onde moravam alguns de nossos ascendentes diretos. Estava ligada à Pereira Lopes que tinha sido médico do Ayrton. Por uma questão até sentimental foi a marca escolhida. Já eram “duplex”, as primeiras da época, já década de 60. A Clímax da copa ganhou um companheiro, o Freeser Clímax, ainda hoje “vivo”, mas caquético, na casa da Jurema. “Viveram” muito menos tempo do que a anterior Crosley Shelvador.

Durante o mesmo período de tempo das Clímax tivemos também geladeiras a gás e a querosene, em um sitio onde não havia eletricidade. Uma experiência nova, t trabalhosa e com pouco retorno.

Estamos novamente de mudança. Vamos para um apartamento e aí eu quis escolher algo que fosse especial, e que não desse trabalho para os próximos anos. O esperado era que nós envelheceríamos e quanto menos problemas, melhor. E então nos demos ao luxo de chegar à Brastemp. Escolhemos a melhor marca entre os similares da época. Era 1988 quando chegamos à ”família” Brastemp: duas geladeiras – uma duplex simples e uma duplex grande, frost free, um feeser frost free – uma lavadora de roupa e uma secadora. Só o fogão não foi Brastemp. Por que? Mas ainda chego lá.

Agora, decorridos 14 anos, continuam no mesmo lugar as duas brancas Brastemp no espaço especialmente criado para elas. Continua uma servindo à cozinha e outra à copa.

Os tempos mudam, as pessoas se vão e agora não preciso mais de duas geladeiras. Mas não dispenso a mais simples. Está lá esperando ser necessária novamente. Aquela que entrou em uso dá conta do recado. Nesses 14 anos nunca deram problema nenhum, nunca precisaram de assistência técnica, e nem avento a possibilidade de isso acontecer, tão mal elas me acostumaram. A que está em uso faz parte do meu dia a dia, invisível, prestativa, resistindo impavidamente à eterna mania de filhos (e agora netos) de abrir e fechar, pelo simples prazer de abrir e fechar a geladeira.

A lavadora de roupa é a sentinela fiel da administração da casa. Sem ela não dá pra viver. Muito ou pouco usada, é indispensável. É verdade que agora não trabalha tanto, tem direito a mais descanso para compensar épocas em que não parava. Também, nunca foi ao “médico”. Cuidados, só os de rotina.

Já a secadora de roupa é mais folgada. Está lá de reserva para resolver problemas que aparecem nas grandes chuvas, grandes invernos. Não no dia a dia. Mas, dá segurança poder contar com ela em momentos de sufoco.

O Freezer coitado, tão bonito na sua verticalidade, elegante, perfeito no seu funcionamento frost free, agora quase não é usado. Somos só duas pessoas e já não temos necessidade de estocar alimentos. Mas, nas ocasiões festivas, quando a família se reúne, então apelamos para ele. E ele nunca nos decepcionou. Passam as festas, a família se dispersa e ele também volta ao seu descanso, esperando por novos tempos de trabalho.

Então, no meu dia a dia, diante dos meus olhos, estão sempre me acompanhando a família Brastemp. No pequeno espaço de serviço, sou envolta pela onda branca das duas “meninas” – lavadora e secadora e o “varão” guardião, o Freezer. Se me desloco para a cozinha e copa, lá estão as duas geladeiras me espreitando com seu “olhar” branco.
Se eles se forem antes de mim, certamente serão substituídos por outros da mesma família. Questão de “amor” por objetos de convivência.
Março de 2002


Atualização – Neste dezembro de 2006 continuam atuando a geladeira duplex grande – agora com uns barulhos esquisitos anunciando que já está esgotando seu tempo de validade – o freeser em geral desligado porque agora há uma só pessoa na casa. A máquina de lavar continua prestativa e em ordem e a secadora também está aposentada. Mas, sempre Brastemp. Dezembro de 2006

Mais atualização – Neste 2008 a geladeira fez uma cirurgia de “transplante de coração”, seu motor cansado foi substituído e ela voltou a ficar em forma. Quem vai primeiro? Eu ou uma das Brastemps?

Uma curiosidade – No final de 2007 tive uma grande surpresa: encontrei ao acaso uma “irmã” da Crosley Shelvador. Igualzinha à que tivemos. Está esquecida na copa de um Departamento de Engenharia Química da USP. Acaba sendo para mim um objeto biográfico tantas histórias ela guarda. Vou fotografá-la antes que vá para o lixo

5 comentários:

Anônimo disse...

MAIS UM TESTE DE COMENTÁRIO - NO POST DAS GELADAIRAS
FLAVIO

Anônimo disse...

o saudosismo pode matar, vamos para a frente,pois atrás vem gente

Anônimo disse...

Querida Neuza. Adorei seu texto. Maravilhosa forma de contar suas reminicências através de eletrodomésticos que ganharam vida ao ocuparem lugar em seus lares. beijos Maurício RJ.

Ivo Fraiz Martinez Filho disse...

D. Neuza
Em primeiro lugar gostaria de parabeniza-la pelo seu blog, muito interessante e construtivo, principalmente para que esta nova geração tome conhecimento dos habitos cotidianos domesticos de epoca onde nao existiam certas regalias como os microondas e freezers,ha 5 anos atraz fui morar em Sao Paulo onde tive a oportunidade de comprar uma geladeira Crosley, deve ter quase setenta anos e recentemente mudei para Curitiba onde ja possuia uma geladeira Brastemp, e devo confessar que minha brastemp esta desligada e utilizo apenas a Crosley que por sinal é uma joia preciosa e de qualidade superior a Brastemp, miha geladeira esta virando uma atração turistica aqui em minha casa, pois meus amigos constantemente fazem comentarios de admiração referindo-se a geladeira, ate comprei um pinguim de porcelana so para tirar uma com a cara de meus amigos. Eu amo a minha Crosley e jamais a trocaria por uma geladeira moderna. Quendo eu era criança tb me lembro das garrafas de vidros que os leiteiros depositavam em nossa porta, o padeiro entregando o pao na carrocinha o verdureiro. Obrigado pela oportunidade que me concedeu ao entrar em seu blog e relembrar de minha infancia.
Como era bom aquele tempo onde ate a comida parecia ter um paladar mais saboroso que agora com todos esses congelados e industrializados.
Um forte Abraço e muita saude para a senhora. Saudações
Ivo Fraiz Martinez Filho

Kristal disse...

Querida D. Neuza, que maravilha de post, uma narrativa brilhante dos anos dourados e felizes. Tenho 44 anos e sim sou saudosista com mto orgulho. Tenho vários blogs dentre eles o
www.blogdamulher.com
e adoraria entrevista-la e poder aprtilhar um pouco da sua sabedoria em meu blog.
Se aceitar ficaria mto feliz.
Meu email
katiadelg@hotmail.com
Obrigada.