quarta-feira, 30 de abril de 2008

GERONTO-CASA GERONTO-MÓVEL

Aposentei-me em julho de 1980. Queria ter mais tempo livre para cuidar da família, estar mais em casa, ser mais livre para sairmos os dois a qualquer dia e qualquer hora. Sem o rigor de horários eu comecei a ser mais solicitada em casa.

Meu sossego durou pouco. Logo começaram a surgir problemas em São Carlos, no relacionamento familiares e muitas vezes éramos acordados de madrugada para queixas de uns e outros que só ouvíamos pelo telefone, a 230km de distância.

E resolvemos trazer os pais de são Carlos para nossa casa, para morar conosco. Devia ser pelo mês de setembro. E aí foi um rebú. Tivemos que reorganizar toda a casa,

Minha mãe já não andava boa, tinha seus problemas de saúde, mas meu pai ainda a atendia nos deslocamentos de médicos.

O meu sogro dormia até 11 horas da manhã, queria café na cama, e quando levantava ficava fechado no quarto com a janela fechada e a luz acesa. Eu precisava invadir o quarto para abrir janelas e arejar. Ensaiava fugir de casa, brigava com a mulher que se refugiava no quarto de meus pais para fugir dos sapatos que voavam sobre ela.

Por essa época minha sempre querida sogra Amélia já estava cega e dava o trabalho esperado pela sua situação. Banhos, comida quase na boca, acompanhamento para deslocá-la pela casa.

Assim em vez do sossego que eu esperava pela minha aposentadoria, me vi mergulhada no convívio de quatro velhos, com costumes e hábitos diferentes, temperamentos pessoais. E minha casa se transformou em uma Geronto-Casa. Predominavam os velhos porque a geração mais moça tinha sua vida, seus estudos, seus trabalhos, seus namorados e não ficavam muito tempo em casa.

Foi difícil acomodar a situação, servir de pára-choque entre os mais velhos e os mais jovens. E nós, espremidos feito recheio de sanduíche, entre duas gerações conflitantes..

E quando saíamos todos juntos, quem nos levava era o nosso Geronto-Movel. Tínhamos então um Opala 1973 cor de laranja (o chic da época) muito potente, de duas portas, mas o cambio na direção disponibilizava três lugares na frente e três atrás: justinho o que precisávamos para sair com os pais de cada um. Mas, sempre havia briga de quem ia à frente comigo.

No caminho, era cômico; Cada um cuidava de seus pais, às vezes se perdendo, entrando em banheiros errados, resmungando, querendo parar na estrada para fazer xixi, e outras coisas mais.

Um deixou a a vida em 1982 outra em 1984. Uns casam, outros mudam e a
Geronto-Casa foi vendida, desaparecendo de nossas vidas em 1994.

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