quarta-feira, 16 de abril de 2008

OPORTUNIDADE DE VER SÃO PAULO “DE NOVO” – Primeira parte

Escrever é sempre um trabalho que não sai no impulso.
Começa pelo titulo que exige um bom tempo para se escolher o mais adequado, o que diga muito em poucas palavras, o que seja sugestivo.
Eu ainda não encontre um título para este texto e ainda não sei em que “casa” vai morar:: na pasta “USP 2008”; Na pasta “Textos de Neuza”; na pasta “Neuza 2008” ou simplesmente em “Meus Documentos” para na hora certa muda-lo de “casa”? Por enquanto o titulo é AINDA SEM TITULO, AINDA SEM CASA. No final do texto já tinha "descoberto" o titulo.

Mesmo uma registradora como eu, precisa de um tempo entre o acontecimento a ser registrado e a efetiva passagem para a linguagem escrita. É um tempo de assimilação e incorporação. Cada fato é uma pedrinha de mosaico que vai sendo trabalhada, ajeitada e colocada no lugar certo.

Fatos revistos, colocados na ordem, complementados com detalhes... Quando a ultima pedra fecha o quadro, o texto está pronto na cabeça e pode ser considerado completo. Então, é só digitar, que é um ato mecânico.

Foi todo esse processo que aconteceu ontem e me tomou o resto de tarde em que não fiz mais nada porque a intensidade dos acontecimentos não me deixou mais espaço para outras ocupações.

É sempre assim: quando algo é muito bom, especial para mim, procuro não me envolver em outra coisa para não empanar o brilho desse algo especial. Faço isso nos concertos: quando a primeira parte é excepcional, saio no intervalo para conservar a atmosfera envolvente e não contamina-la com algo que pode ser medíocre.


Tudo começou em março. Um curso de “História e Musica” me interessou pelo tema e pelo professor Francisco Rocha que eu já conhecia um pouco. No mesmo dia e na mesma hora também acontecia o curso “Musica e Memória” do prof. Marcos Ferreira Santos que eu conhecia de longa data. Não me conformei em perder nem um nem outro. O jeito foi durante o mês que durou o primeiro, assistir a primeira parte de História e Musica, sair em marcha batida de 20 minutos entre o MAC anexo e a Faculdade de Educação e assistir a segunda parte do outro. E deu mais ou menos certo porque sempre perdia conteúdos bons. Deu para administrar.

A ultima aula do prof. Francisco, foi em 2 de abril. Desta vez fiquei o tempo todo. Dia de despedidas não desejadas. Para prolongar a convivência o professor sugeriu um passeio pelo centro da cidade e não sei como nem porque me vi envolvida em preparar um roteiro e falar um pouco sobre os espaços que percorreríamos. No susto!!!!!

Em geral essas atividades acabam no esquecimento. Mas, não desta vez. Antes do final da tarde estava resolvido:
Domingo, dia 13 de Abril às 9 horas com encontro no CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil.)

Nos 11 dias que se seguiram e-mails foram trocados para manter viva a decisão. Desculpas de uns, adesões de outros que até trouxeram parentes, mas sempre recebemos muitas atenções.

E eu, em nova atividade desafiante. Gosto de desafios. Curtindo cada leitura, cada curiosidade, cada detalhe, passei a semana organizando na cabeça um roteiro que fosse interessante e racional. Vamos por aqui? Não. Há espaço vazio de interesse. Então devemos ir por lá. Mas é muito longe. Bom mesmo é esta alternativa....

Procuro mapas do centro que copio, recorto, monto até chegar onde eu quero. E aí sim traço o roteiro definido. Em cores. Digito também esse roteiro e até incluo a previsão do tempo pela Folha on-line. - dia Ensolarado. Depois de refazer o percurso mentalmente, dou por pronto o projeto.

9 horas de domingo 13 de abril. “Meninos” e “meninas” começam a chegar. Francisco e Cristina completam o grupo não sei bem de quantos. Ainda vou fazer a relação. Pelo menos uns 10. A minha amiga de 57 anos, a Marina, o Milton lá do Páteo e a moçada do curso formam o grupo.

Ah!! Sabe quem é a Cristina? Aquela professora de Arte Contemporânea que no ano passado me abriu as portas para o mundo da arte, me deu uma grande atenção como pessoa e me fez sentir gente entre o grupo heterogêneo que, muito centrado em si não tinha olhos nem ouvidos para ouvir velhas experiências.
E, é a mulher do Francisco.

Começa a caminhada. Falo um pouco do prédio de Banco do Brasil, do estilo de inicio do século XX, Com máscaras, volutas, “rococós” tão ao gosto da época. Lembro que em 2001 quando foi inaugurado o Centro Cultural minha filha Jurema fez cerca de 300 mini entrevistas para o Museu da Pessoa, em um “estúdio” montado dentro do cofre. Subsolo, paredes muito grossas, impressionante. No saguão uma intervenção de Tunga, que eu não entendi nada. Agora entenderia um pouco.

Segue o “cortejo”. Praça Antonio Prado. Gosto muito desse espaço. Há muita história.
Onde começa a Avenida São João. Declive acentuado mostra bem a saída do planalto central. Rios Anhangabaú e Tamanduateí se separando e mostrando suas diferenças de correnteza. Tamanduateí mais manso, com suas sete voltas. Anhangabaú mais ligeirinho cava vale mais profundo. . Aos lados dessa primeira ladeira da São João, o Martinelli e o Banco do Brasil. Atrás o Banespa com sua torre-mirante. As histórias da praça: Confeitaria Castelões com suas famosas coxinhas (ou seriam empadinhas?); Brasserie Paulista, o embrião dos atuais “Fasanos”. As voltas dos bondes que circulavam na Rua Quinze de Novembro, os meninos e velhos assanhados postados estrategicamente para ver canelas e rendinhas das senhoras voltando das compras e subindo nos bondes. Os jornais O Estado de São Paulo e Correio Paulistano um frente ao outro lutando neste final do século XIX para serem os primeiros em noticias.
O avô dos arranha-céus de São Paulo, O Martinelli merece uma atenção principalmente em relação à casa do comendador que sobre os 24 andares foi palco de grandes festas da elite paulistana. Dá para imaginar as festas tendo uma cidade sem poluição aos pés, e com uma romântica neblina para envolver casais que circulavam pelos terraços. Década de 30.

Segue o “cortejo”
Rua São Bento estreitinha como um caminho que foi, ligando o Mosteiro de São Bento e Igreja de São Francisco. Dá para ver a retidão da rua com as igrejas nas pontas.
Sorte em ouvir o carrilhão musical anunciando as 10 horas. Dura minutos. Não entramos na igreja, mas sabemos que ela é uma igreja de interior escuro como o foram os interiores das igrejas medievais. Magnífico órgão e vitral. Provável missa com canto gregoriano. Está ficando “comercial! Porque vende pães, bolos e até tem um café da manhã.
Viaduto Santa Ifigênia todo em ferro belga termina na atual Igreja que já foi de estilo colonial e agora é mais para gótica.

Segue o “cortejo”
Rua Boa Vista.
Foi, com a Rua Quinze de Novembro o centro financeiro depois da segunda metade do século XIX. Alguns edifícios remanescentes mostrando o estilo da época.
Ladeira Porto Geral mostra bem o declive que termina na atual 25 de Março que era Rua das Sete Voltas (do Tamanduateí) e recebia embarcações No Porto Geral havia os embarques.
Viaduto Boa Vista (apenas 50m) permite comprovar o declive pela ladeira General Carneiro.

O “cortejo” para no Páteo do Collégio.
Muita coisa falar. Desta vez apenas pinceladas. A primeira casa, a fixação dos jesuítas com colégio e igreja, a primeira expulsão pelos índios e a segunda expulsão em 1765 pelo Marquês de Pombal. Saem definitivamente do Brasil. O governo toma posse do espaço, ergue seu palácio e o páteo se torna o centro administrativo, político e social da cidade. Coretos, chafariz, apresentação de bandas, tudo acontece nesse lugar inclusive um teatro de Ópera. Grandes jardins. O que restava da primitiva igreja desaba e seu espaço é incorporado ao palácio. Ao lado, Ramos de Azevedo constrói as Secretarias de Agricultura Fazendo e Justiças, com características arquitetônicas bem ao seu estilo.
1925 - inauguração do monumento “Gloria aos Fundadores”

1954 os jesuítas voltam, o palácio é demolido e o Páteo do Collégio é retomado para a reconstrução de uma réplica da primitiva Igreja e parte do colégio. É como está agora.

Do estacionamento vimos o edifício São Vito, a maior favela vertical de São Paulo, vazio aguardando a decisão de ser ou não implodido.

Solar da Marquesa visto de longe. Palavras sobre ela. O beco Pinto local de despejo de dejetos.

“Roubo” um pedaço do roteiro. De propósito porque era uma parte longa embora de coisas interessantes: a Rua do Carmo e tudo o que aconteceu com ela Fica para uma outra vez.

E a atração agora é a Praça da Sé, A Praça que já foi Largo. Sua história, localização das igrejas Matriz e São Pedro dos Clérigos. Como custei a entender a disposição das igrejas, faço questão até de desenhar. Como o Largo ficou Praça. A tristeza de ver o relógio escondido.
O fantasma do Palacete Santa Helena e o grupo Santa Helena de artistas, e o edifício Mendes Caldeira. Demolição e implosão. Lugar de manifestações.
Agora Praça da Sé e Praça Clovis Bevilacqua são uma só. A estátua de Anchieta “cama” do povo de rua. Arte da Praça a céu aberto. Secretaria da Justiça (Ramos de Azevedo) ganhando visibilidade.

Marco Zero – as seis saídas da cidade.

Catedral – que levou 90 anos para se terminada. Toda em granito de São Paulo e ao lado dos apóstolos relevos de fauna e flora brasileira. O interior é magnificente (para nossos padrões) e os vitrais de tons azuis reforçam o ambiente de religiosidade. O vitral em rosácea é o mais bonito.
Por ser domingo a missa estava sendo rezada pelo arcebispo de São Paulo e o coro se fazia ouvir em todo seu esplendor

Pela lateral da catedral chegamos até a Praça João Mendes..
O Inicio da Praça da Liberdade, o lugar do Pelourinho, a Forca. A história de Chaguinha (a corda que o deveria enforcar arrebentou três vezes)
O busto de João Mendes de William Zadig na frente do fórum novo. Calçadão bonito, piso de bom gosto.
Abrigo dos Bondes Santo Amaro, verdadeiros trenzinhos que corriam por trilhos cobertos de mato.
A Confeitaria Santa Tereza de 1872 ainda em funcionamento. Foi onde paramos para

Pausa para um lanche

Pausa para leitura deste texto. – Continua na segunda parte.

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