sexta-feira, 4 de abril de 2008

A História real de um sofá (e de suas três “esposas” – as poltronas)

No dia 2 de abril de 2008, muitas pessoas conhecidas viram no Jornal Nacional da TV Globo, em cobertura nacional, uma reportagem de Neide Duarte. Eu apareço e o sofá também. Por isso recuperei a história e aqui vai ela.

Esse sofá da história tem agora, em 2008, 58 anos. Foi comprado na casa Pekelman, por volta de 1949-1950, quando mobiliamos com todo o capricho a "mansão" da Avenida D. Pedro I, no Ipiranga.

Na sua forma original, era revestido de adamascado vermelho escuro, como dá para imaginar nas primeiras fotos (ainda em preto e branco porque não existia fotografia em cores). Assim, nessa sua versão primeira, foi testemunha do nosso namoro e depois do noivado. Foi nele que nos conhecemos melhor, que aparamos nossas arestas, que construímos nossos sonhos e que vivemos um amor romântico acompanhado por muita música da época. E a clássica fotografia de casamento também foi nele.

Depois, quando nos casamos ele nos acompanhou em nossa nova vida.
Ficou com sua primeira aparência uns cinco ou seis anos, agüentando a nós, ao Flavio criança e ao Geraldo meu cunhado, quando morou em casa e dormia nele.

Quando Jurema ia nascer, ele ganhou nova aparência, agora cinza mesclado de branco, reformado na Sears e que valeu muito choro da Flavio quando o retiraram pela janela do apartamento (com 3 anos tinha muito sentido de posse).

Nessa aparência ficou uns quatro anos, com as crianças, agora duas, usando e abusando dele porque era na sala que elas ficavam mais tempo.

Quando nos mudamos para a r. Caativa, ele foi mudado de novo, agora em plástico branco (horroroso). Era mais fácil de limpar, mas acabou encardido e logo sofreu nova "operação plástica", agora em tom marrom claro (café com leite escuro), com listras da mesma cor. Ficou mal feito, as listras do assento e do encosto não coincidiam, mas tivemos que conviver com essa "plástica", porque não dava para fazer tudo de novo.

Na década de 70, reformamos drasticamente nossa sala (tinha 40 metros quadrados, de estar e jantar), e tudo foi em tom azul: a parede azul médio, o detalhe em relevo em azulão e o teto azul mais claro. Flavio um tempo até colou estrelinhas. Aí o sofá foi azulão, combinando bem com o ambiente que tinha também a cortina com listras horizontais em vários tons de azul. Ficou bonito.

Com esse aspecto suportou Jurema e Flavio já adolescentes, seus muitos amigos, o namoro único de Jurema e Oscar, e as muitas namoradas do Flavio.

Depois que Jurema casou, e para esperar a chegada do primeiro neto, André, pintamos toda a casa, trocamos cortina e demos mais uma reformada no sofá (e naturalmente nas poltronas que o acompanham). Voltou a um tom cinza mesclado (parecido com seu segundo aspecto).

Teve suas férias de uns três ou quatro anos, e então recomeçou sua atividade com os netos. Agora quatro, desde recém nascidos o usaram, deitando, derrubando mamadeira, "regando" com xixi e quando mais moleques, pulando sobre ele.

Quando nos mudamos para o apartamento, nova "plástica". Foi cor de mel e assim ficou 10 anos. Todo o movimento dos netos se percebeu em sua aparência gasta.

Quando não deu mais, e quando achamos que os meninos estavam maiores e mais cuidadosos, foi de novo ao "hospital" para nova "plástica", agora em gobelin, como eu sempre quis. Desta vez teve que ser recuperado em sua estrutura de madeira e ficou novo, lindo, e forte.

Mas, os meninos continuam sua trajetória sobre ele e foi até preciso usar capas para protegê-lo: adolescentes, são mais pesados, mais descuidados e o usam muito porque estão sempre aqui.

Até 2000 foi testemunha da doença do Ayrton, que passava as tardes e parte das noites "espichado" nele, porque aí que se sentia confortável, ao mesmo tempo que ficava mais perto de mim, participando mais da vida familiar.

Junto com ele, o sofá, sempre fieis, estão as 3 poltronas que passam pelas mesmas "plásticas" que ele. E foram 8 plásticas

Agora, observe na matéria do Jornal Nacional, as pessoas que convivem com esse sofá: em 1952, estávamos quatro sobre ele, ainda novinho: meus pais com 46 e 43 anos, jovens adultos. Ayrton com 25 anos e eu com 22, em plena mocidade.

46 anos depois, sobre o mesmo sofá, em sua última "plástica", falta um que já se foi - meu pai. Minha mãe com 90 anos (na quarta idade) e nós com 71 e 68 anos, já na terceira idade.

Nós, pessoas, não fizemos nenhuma plástica (contra oito que o sofá sofreu), mas mesmo que tivéssemos feito, não estaríamos muito diferentes do que estamos. O sinal do tempo é evidente e passa muito mais rápido e impiedosamente nos seres vivos que nos corpos brutos.

Nós envelhecemos, "ele" (o sofá) e “elas”, as poltronas, não.

A primeira versão dessa história foi escrita em fevereiro de 2000.

Oito anos se passaram e muita coisa aconteceu.

Logo depois do registro da história do sofá, em março, já não havia mais Ayrton. Ele partiu para outros mundos (ou não). E o sofá perdeu mais um ocupante.

Durante um tempo - 2 anos precisamente- ele continuou sendo bem ocupado por mim e minha mãe porque ficávamos muito tempo em casa e certamente ela assistia TV e eu fazia companhia. Nos quatro anos seguintes minha mãe ficou inválida, nunca mais chegou perto do sofá e em 2006 partiu definitivamente.

Agora só estou eu, não sei até quando. Mas ainda cuido dele. De vez em quando ele tem a visibilidade recuperada porque é a demonstração de um objeto biográfico por excelência. É uma testemunha de TEMPO, VIDA. E MORTE.

Agora, o aspecto do sofá continua o mesmo, sua “roupa” é o mesmo gobelin, mas ele anda apresentando sinais de “osteoporose” porque sua estrutura de madeira já dá mostras de que está chegando ao fim de seu prazo de validade

Qual será o destino da família sofá + poltronas quando eu não estiver mais aqui para cuidar dela? Não tenho a mínima idéia.

Completo essa versão porque neste 02 de abril de 2008, o sofá foi para o ar, para todo o Brasil via Jornal Nacional da TV Globo, ilustrando uma reportagem da Neide Duarte sobre Memória da cidade e de uma família.

Foram nossos poucos minutos de glória, mas resgatou toda uma emoção, toda uma vida, todo um compartilhar de existências.

Neuza Guerreiro de Carvalho
Abril de 2008

As fotos que eu ia utilizar para ilustrar melhor se mostraram desnecessárias; a matéria conta e mostra tudo, de forma defnitiva.

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