segunda-feira, 21 de abril de 2008

NÓS

NÓS
Um dia algo aconteceu em minha vida. Outro ser único que também vagava sozinho cruzou o meu caminho. As químicas aconteceram, as emoções foram as mesmas e algo no ar vibrou. E começou a fusão, o viver diferente, a dois, compartilhado.

Foram tempos de acertos e desacertos, tempos de aparar arestas, de aprender a se dividir, a se entregar emocionalmente, a se encontrar em outro plano que não o individual. Emoções ainda desequilibradas vão tendendo a uma estabilidade. Ajustes lentos, filosofias de vida acertadas. E começam os momentos de felicidade: o primeiro carinho, o primeiro beijo ainda resistido, a primeira separação sofrida, mas a volta feliz, as primeiras certezas vindo lenta, mas definitivamente. Decisões tomadas. Rumos traçados. Caminhos escolhidos. Decisões de vida mais concretas. Certezas de amor, sentimentos mútuos. Incertezas do que se quer para o futuro.

Devagar os acertos vão se fazendo sentir. As perspectivas são mais concretas, os planos mais definitivos. A felicidade de fazer tudo a dois, tudo curtido e gozado.

O noivado marca uma certeza. Comportamentos “certinhos” mas os mesmos instintos, os mesmos desejos de sempre. Músicas, perfumes fazem a sublimação do material.

O casamento foi a concretização do sonho. Casei virgem. Era o usual da época. Relações fora do casamento? Nem pensada para mim. Desejos físicos reprimidos e aumentados sempre se materializam na “noite de núpcias” , “camisola do dia”, orgulho de se tornar “mulher.” Lua de mel significando o estar junto, curtindo os primeiros relacionamentos mais íntimos e não o espaço onde acontecia.
Depois, a pressa de voltar e começar realmente a vida a dois.

Começam as descobertas, as iniciações íntimas, a convivência constante, o viver a dois de maneira real. Muita coisa desconhecida a ser explorada e aproveitada. Felicidade sempre que um obstáculo era superado. “Sapo” agora de novo importante, volta do meu tempo de estudante para me permitir ter certeza de uma gravidez suspeitada. Outros tempos, outras técnicas. Tempo de conhecimento e emoções ímpares:; a primeira gravidez, a sensação única da maternidade no que ela tem de biológico e emocional. A realidade de um novo status – o futuro de ser mãe, de nascer um pai e uma família. Expectativas vislumbradas e ansiadas.

Novos momentos de felicidade: o primeiro filho... E o segundo.
Já uma família, seguimos por um caminho que sem ser só de flores, não teve grandes espinhos.

Progredimos sob forma de casa, carros, cachorros para alegrar a vida familiar, amigos que nos completaram, auxiliares que participaram da nossa vida e nos permitiram crescer. E continuamos nossos progressos com sítio, casa na praia, carro, clube, viagens que começam a ser importantes pela convivência com os filhos, sempre junto. Campings. Trailers.

Muita leitura. Livros são uma de nossas prioridades e música começa a ser parte integrante de nossas vidas. Vida sentimental sempre muito cuidada. “Namoro” sempre que possível, em momentos nossos, de interlúdio na rotina estressante do trabalho e dos filhos.

Filhos crescendo sempre com assistência material e estrutural. Vivemos com os filhos, e em função deles. Crescem, estudam, se apaixonam, namoram e casam.

E enfrentamos o desafio de ter novas famílias agregadas, aprender novos costumes, novos comportamentos, novos contextos familiares.
Somos pais sempre presentes, sem ser inconvenientes, com nossa filosofia de dar a eles liberdade de escolhas. Puderam trilhar seus próprios caminhos “quebrando a cara” muitas vezes, mas sempre nos encontraram, enquanto pudemos, com os “curativos” em mãos.

Durante todo esse tempo tive um trabalho efetivo e responsável que me ocupou por três décadas e me realizou profissionalmente.

Além de pais, fomos filhos atuantes. Nossos pais, agora precisam mais de nós. Vivemos histórias de solidariedade familiar quando tivemos nosso “gerontomóvel”, um carro que podia acomodar os quatro pais junto conosco.

Vida sentimental vai sendo cada vez mais estável, resultado de uma vida intima sem restrições e maravilhosa, muito profunda em sentimento, com comportamento sadio, terno e gostoso. Já não precisamos conversar muito, porque está tudo acertado. Já não vivemos dizendo “meu amor”, “Eu te amo”, porque isso ficou implícito em nossas vidas. Os arroubos físicos são mais lentos, mas o carinho, o contato pele a pele é fundamental e gratificante.

E agora, tivemos a felicidade de ser Avós. Assim como tivemos nossa herança ancestral através dos nossos ascendentes, agora temos nossa esperança de imortalidade através dos netos. Gratidão para com os filhos que nos fizeram avós.
Tivemos nossos primeiros dois galhos, agora mais quatro, e vamos em direção ao futuro. Netos que começam crianças despreocupadas, alegres, já são quase adultos.
Fomos filhos, fomos pais, constituímos uma família e agora somos avós.

Na nossa vida tivemos histórias engraçadas como o nosso primeiro acampamento, onde colocamos a barraca, a primeira a ser montada, embaixo de toda a tralha, inclusive uma peruca. Tivemos histórias emocionantes como ver duas crianças em prantos pela morte do cachorrinho Qüem Qüem propositalmente envenenado por alguém insensível. Vivemos histórias interessantes como a da aranhinha Tetéia, que nos prendeu durante algum tempo, enquanto a observávamos construir sua obra de arte, sua teia para garantir o seu sustento. Tivemos que enfrentar histórias tristes com as perdas inevitáveis. Vivemos uma história de amor, a nossa própria, que durou quase meio século.

Mas, o tempo sempre se faz presente. A saúde começa a dar mostras que não está muito boa e então, a prioridade é cuidar dela. Mas o ciclo de vida sempre se completa, e um dos que formava o NÓS da história, deixou a vida. Foi embora o meu lindo velhinho de cabelos totalmente brancos, que com sua tolerância, paciência, tranqüilidade e bondade, fez de nossa vida um ato de amor.

E eu precisei de tempo e espaço para sofrer. O tempo já passou. O espaço acho que não tive. O processo de assimilação da perda é inevitável. Ninguém “pula” essa fase, mas ela pode ser ajudada. Pelo relembrar cada pequeno detalhe, pelo relembrar histórias simples de participação familiar, pelo sentir de novo emoções antes sentidas.

Fui um ser único, me fundi total e completamente a outro ser único e agora volto a ser única. Sigo Eu...Sozinha, com tudo o que me deixou aquele a quem amei, com quem dividi tristezas e alegrias, mas muito mais alegrias, porque problemas divididos pesam menos.

Um comentário:

Noeli disse...

Tocante.
Lindo Texto!