sexta-feira, 21 de março de 2008

A FIGUEIRA DA GLETTE


O Palacete Glette foi demolido na década de 70, os “gletianos” perderam suas referencias. O terreno agora abriga um estacionamento.

Mas, a Figueira, aquela que sombreava as “happy hours" dos Street no final da década de 20, sobreviveu. Sempre crescendo, seu tronco cada vez mais grosso, a cada ano produzindo folhas novas e figuinhos como frutos, a pobre figueira mistura-se a carro, fumaças, restos de coisas. Seus galhos chegam até o outro lado da rua e aí respira a fumaça de muitos e muito ônibus do Terminal Princesa Isabel. E, ao cair da noite, o cheio da fumaça muda: agora são os churrasquinhos “de gato” que alimentam uma população carente de tudo.

Convivendo com a Figueira durante os quatro anos importantes da minha vida, anos que me formaram profissionalmente, sempre a respeitei como ser vivo, como companheira calada e testemunha das aflições dos exames, dos relaxamentos pós estudos, “participante” das conversas amigas. Só não namorei sob seus galhos. Que pena. Teria mais a contar.

Passei 50 anos sem pensar na Figueira. A vida foi em outra direção. Quando a revi a emoção correu solta. Foi realmente uma emoção visceral vê-la grande, verde, linda como eu a imaginava.
E quando a TV Cultura, me levou até ela em 2004, para matéria de comemoração dos 450 anos de São Paulo estávamos dando a primeira visibilidade da Figueira da Glette e sua história.

E o prof. César Ades, então Diretor do Instituto de Psicologia se envolveu também com a Figueira, e compartilhamos entusiasmos para “cuidar” dela e resgatar sua memória por meio de uma exposição.

O entusiasmo foi crescendo. Com paciência, perseverança e muito trabalho fomos contatando GLETIANOS e uma rede de atenções com a Figueira foi se formando.

Sempre tive um medo: que a Figueira fosse cortada, fosse destruída sei lá porque? Sabia que havia um tombamento estadual de 1989, mas com algumas brechas. E então tomei uma iniciativa pessoal de pedir o tombamento municipal. Fui pessoalmente levar o oficio em fevereiro de 2004 ao CONPRESP (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico) pedindo o tombamento. Não recebi nenhum retorno e fui novamente em agosto levar outro oficio agora com protocolo. Mas tudo ficou quieto e nada acontecia.

Em janeiro de 2005, a Figueira volta a ter visibilidade.

Palavras de Gilberto Dimenstein sobre a Figueira na CBN e na Folha de São Paulo, tornou-a mais conhecida A mídia logo aproveitou o assunto e correu atrás de mim, possivelmente como matéria a preencher espaços. Não importa. A Figueira da Glette “apareceu” mais vezes.

A reprodução dessa figueira não acontece por via sexuada porque não há o agente polinizador aqui (ela é espécie australiana) . Então, procurou-se fazer “mudas” (agora chamadas de “clones”) O primeiro clone foi conseguido por geólogos por meios artesanais e o plantaram nos jardins da Geociência, na USP.

Nós, os Gletianos dos cursos de História Natural, de Química e da disciplina de Psicologia Experimental, também quisemos nossos clones. Muitos foram os ramos retirados e cuidados.

Não “pegavam” até que, foi usado o método de alporquias o que só foi possível com a colaboração de um mestrando de Ecologia que praticava rapel. Ele subiu até os ramos mais altos preparou a alporquia e dois meses depois ramos enraizados foram tirados da planta mãe. Quatro foram os sobreviventes. E então, com pompa e circunstância foram plantados no campus USP do Butantã: um deles nos jardins da Psicologia e outro na Praça do Por do Sol do campus. Isso aconteceu ao mesmo tempo que uma exposição sobre a Glette nos dias 22 e 24 de novembro de 2006.

As novas plantas "São um pedaço vivo da antiga USP na USP atual"

Em 26 de novembro, de 2007, quase quatro anos depois do primeiro contato, recebemos autorização para, de viva voz argumentar sobre o pedido de tombamento em uma reunião do Conselho do CONPRESP. Fomos eu e o prof. Cesar Ades.

No dia 18, às 9:30 chegamos na Galeria Olido, sede da Secretaria Municipal de Cultura, e no 8º andar nos esperavam os juizes (09) para nos ouvir. Prof. César e eu nos completamos na exposição. Eu usei da emoção do “coração” da parte mais de sensibilidade. Fui pessoal e foquei diretamente a Figueira e o que ela representava para os gletianos. Prof. César foi objetivo, racional, conciso, convincente e abrangente, mostrando a importância do fato para a USP e para São Paulo. E por unanimidade a argumentação foi aprovada e o processo de tombamento encaminhado.

No dia 22 de dezembro a resolução saiu no Diário Oficial do Município.

E no dia 12 de fevereiro de 2008 recebi um documento oficial datado de 28 de janeiro de 2008, oficializando a resolução.

E a Figueira da Glette continua no seu espaço esperando para saber quais são os seus direitos de tombada, para que seu entorno seja mais cuidado e seu verde possa conviver com um o colorido de um jardinzinho que se pretende fazer ao seu redor.

SALVE FIGUEIRA DA GLETTE!!. NÓS OS GLETIANOS TE SAUDAMOS!!

Um comentário:

Fernanda disse...

Vovó Neuza!

Q maravilha..q vontade de viver lendo a sua determinação e manter verde e disposta aquela Figueira!

Q a vida venha e fixe-se agora, a redor dessa árvore!

Li seu texto como se lesse um conto. Saboroso!

Beijos,


Fernanda